medicine man

A sala de espera das urgências dum Hospital é um sítio único para exposição e intercâmbio de germes. As pessoas chegam cedo, procuram um lugar bem visível e requisitam na triagem o autocolante colorido que lhes fixa a categoria do produto. A montra da loja é o ar da pessoa, os olhos pequeninos de febre, o tossir lancinante, a ranhoca que o lenço de papel não consegue suster a tempo (pessoas com ossos partidos e escoriações não devem meter-se no meio das outras porque lhes podem estragar o negócio). Segue-se a arenga de cada um e a negociata de troca ou venda. Quanto mais insólito for o sintoma, mais valioso é o vírus que o causa, um vírus indeterminado que num homem provocou uma febre persistente e uma borbulhagem púrpura sobre a sobrancelha só pode ser vendido a peso de ouro ou trocado por uma matilha de germes menores. Enquanto regateiam preços, os intervenientes tem especial atenção em pôr a mão diante da cara quando tossem ou espirram, porque se não o fizerem, estarão a entregar o ouro ao bandido.
No meio da feira, passeiam-se os ociosos, como em todas as feiras. Não querem comprar nem vender nada, gostam de estórias, estórias de doenças, das suas doenças e das dos outros, como começaram, o que se sofreu, o que o médico A disse e o que o médico B disse sobre o mesmo assunto, e como ambos se contra-disseram. Os ociosos são suspeitos, às vezes nem doença possuem, estão ali por encargo das grandes farmacêuticas, dizem não acreditar em remédios caseiros - casca de laranja fervida ou xarope de cenoura - e descosem-se em nomes de medicamentos, martelando os ouvidos das pessoas com as últimas novidades. Quando as pessoas vão carimbar as receitas passadas pelo médico, há sempre um ocioso ao pé do guiché da recepção para avaliar da quantidade de fármacos receitados e informar gentilmente qual é a farmácia de serviço e qual o caminho mais rápido para lá. Se for às urgências dum hospital para fazer negócio, evite este tipo de gente!


Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue