Marés violentas, e o mar comeu alguns metros à praia. Antes havia ali um declive suave que no Verão se moldava à languidez dos corpos deitados, mas isso foi com as águas, a areia acaba a pique como a aba de uma duna no deserto, a marisqueira de balcão corrido com vista sobre o mar distante ficou agora mesmo à sua beira, nas marés-vivas as ondas vão lamber os bancos de madeira carunchosa e tornar uma lembrança os cães vadios que por ali rondavam ao cheiro da comida. O dono veio ver os estragos, a marisqueira está fechada de Inverno mas ele veio avaliar a situação, passeia-se pela areia a meditar, de cabeça descoberta na trégua do aguaceiro, fazendo rodar um búzio entre os dedos. A mulher anda à volta dele como uma mariposa, procurando advinhar-lhe os pensamentos, ser útil por um dia na sua rotina de futilidades. O homem pensa na habilidade dos holandeses em conquistar terras ao mar, pensa em Moisés afastando as ondas do Mar Vermelho, em diques, represas e obras megalómanas. Pensa simplesmente, caudilho, libertador, iluminado - o Bolívar dos camarões e sapateiras.
- O que vamos fazer agora, amor?
Respondeu com actos. Trouxe o 4x4 em marcha-atrás até à areia e engatou nele a roulote-marisqueira. Deu uma última olhadela no que deixava para trás: uma pequena casinha de madeira para o gerador e quatro peças de mobiliário armadas com toros e troncos envernizados. Deu ordens à mulher e entraram no veículo. Havia que encontrar uma nova terra para continuar a levar às pessoas a eucaristia do marisco e da cervejinha.

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