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Assinalando a morte de Luís Pacheco, escritor maldito cujo percurso de vida passou pela cidade de Caldas da Rainha, deixo-vos, com a devida vénia, o extracto de uma carta de Luís Pacheco a Mário Cesariny, escrita nesta cidade no ano de 1965, não sem antes vos indicar um link (mais um, ufa!) que espelha o modo como evoluiu a relação entre os dois autores:


Caldas da Rainha, 29 de Julho

Mano! Querido mano!

Hoje tive notícias tuas… pelo teu poema do “Diário de Notícias”-. Do princípio do mundo/até ao fim do mundo por cá está tudo na mesma. Dirás que temos um novo Presidente da República – mas não o achas tão parecido com o anterior e de mesmo com alguns da Dinastia Bragantina, D. João IV à cabeça?
Terás estranhado o meu silêncio, e muito depois da recepção, não esperada mas desejada, de um vale dos Restauradores, signé Dácio de Oliveira (miles)… Digo-te que veio mesmo no fim. Nesse dia tinha eu ido à SECLA [fábrica de cerâmica nas Caldas onde Pacheco chegou a trabalhar]… e chego a casa mais emburrado que nunca e a minha tosga mostra-me o vale; até acabar, e acabou logo no dia seguinte, não parámos de semear dinheiro por credores caldenses, já um tanto desamparados de esperanças de verem o deles. Mas isto é lamúria; mudei muito de então para cá: ADERI AO ARTESANATO. Resolvi entrar na marabunda, usando as armas que vejo usar e fazendo o mesmo que os outros fazem, Agora sou um homem dividido, uma espécie de Dr. Jekill e Mister Hyde; desfaço de noite o que fiz de dia (mito de Penélope caldense), aldrabo de dia o suficiente para ser eu de noite. Achas que isto se pode manter???! A ver vamos.
… Tenho andado preso com traduções (artesanato, Mano!) mas na iminência da chegada de outro membro da tribo – que queres que faça? Temo-nos abeirado demais da fome, real e sem pão, tomates com um azeite, ou óleo, de chicharro com oito dias de reserva (delicioso tomate e delicioso cheiro a peixe), para nesta altura e com agravames certos a curto prazo poder estar a olhar para o lado. Traduzi agora em 15 dias um livro para a Ulisseia; traduzi uma peça para o Solnado… Do Nadeau não sei nada, nem o Vítor me disse nada…O meu livro continua à espera de A Nota do Autor Aos Quarenta Anos, já escrita em borrão e que saiu enorme, 100 págs. De máquina, 10.000 palavras, + ou -. Agora vê tu: O livro não sai por causa da Nota, a Nota [a nota a que se referia era o prefácio à antologia da poesia erótica, que insistentemente lhe pedia Vítor da Silva Tavares, da Ulisseia] não me sai por causa do artesanato. Círculo vicioso que os tomates com óleo de chicharro nem sempre chegam para aguentar ou furar. E depois…
Na última carta pedias-me para responder à penúltima. Em Junho, falavas do Nadeau, como atrás ficou dito nada sei e, por ora, tenho até a impressão que não devo ser eu a falar nisso. Aliás, a nova geração, a novíssima, já deitou unhas a esse filão: o Ramos Rosa (este homem persegue-nos!) traduziu para a presença um livro sobre surrealismo ( o art.º do cautela de ontem no JLA vem muito cortado – e ainda bem que é asneira que se farta) dum italiano não sei de quê.ini. (há muitos por lá com este nome, Gordini, Papini, etc.). de modo que se a Ulisseia não se apressa…
Aqui nas Caldas estarias bem, suponho (em relação a certas pessoas cartonadas ou cracházadas). Mas não comprometas, ou compromete mesmo se te apetecer a tua situação. Para o mais e o antes do resto, cá me tens. Se queres dinheiro, diz (há-de se arranjar). Se queres casa, diz (ainda cá cabes). E aquilo do tomate nem sempre é verdade: falei nisso porque basta que seja uma vez verdade, para eu já não gostar. E quem gostaria?
… Desculpa a minha carta que vai longa: mas começando a falar dou nisto. E para mais já não falava contigo hà semanas. Vive o mais que possas. Pensa um pouco em mim. E tem um pouco de pena, quando essas névoas londrinas te pungirem deste sol de cá, (que o sol não é tudo) deste mano pró-caldense, tão lucidamente enrascado, que premeditadamente ainda se procura enrascar mais. Irão folhetos. Espalha pela Europa. As Coplas são de pé quebrado mas a raiva que vai nelas é toda inteirinha, dos pés à cabeça.

2 comentários:

  1. maria.c20:57:00

    Gosto dos links a azul. Significa que posso fumar.
    Mas a editora desta carta é mesmo manhosa?...

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  2. José Lopes10:31:00

    São opiniões...eu acho-a bonita, uma verdadeira estampa!

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