INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Já agora

- Sei que gostas de mim, mas não posso pensar em ter um relacionamento sério contigo, porque gosto de ti como de um irmão...
- Tudo bem, respeito a tua vontade mas, só por descargo de consciência, gostava que me dissesses só mais uma coisa, com absoluta sinceridade!
- Queres saber se há possibilidade de eu vir a mudar de ideias, de modo a poderes alimentar uma esperança?
- Não! Pretendia saber se possuis muita resistência moral ao incesto.

Teen

- Lava as mãos antes de comer, estiveste a mexer em dinheiro e o dinheiro é porco!
- Sabes, pai? Eu não me importava de viver numa pocilga!

Fraude

Reduzido a um ser dependente, incontinente e paraplégico, que não conseguia fazer nada sem ajuda, sentia-se cada ano mais constrangido na hora de fazer a Prova de Vida.
Um pouco por vaidade, um pouco por ser um excêntrico, não dava crédito a nenhum jornal português, recebendo há anos o The Times, enviado diariamente de Londres. Chegava atrasado, mas não se importava. Vinha de Londres, o coração do mundo civilizado, com quatro dias de atraso, o que não era relevante se o que se desejava era a excelência da informação. Foi com quatro dias de atraso que recebeu na sua quintinha perto de Montesinho, uma notícia constante da lista de assinantes do jornal: tinha morrido.




Às vezes sentimo-nos como uma daquelas figuras dos quadros de Dali com gavetas abertas ao longo do corpo...

(Não, não era bem isto que eu queria dizer!)

Às vezes sentimo-nos como uma daquelas figuras dos quadros de Dali com gavetas abertas ao longo do corpo, depois da passagem de uma mulher-a-dias que arrumou as coisas à sua maneira, tirando-nos qualquer possibilidade de encontrar o que quer que seja.
Acusado de actos de tortura por uma Comissão Internacional de Direitos Humanos, o gabinete do Generalíssimo encomendou um inquérito ao D.I.T.P - Departamento de Inquéritos para a Tranquilidade Pública. O Departamento rebateu uma por uma todas as conclusões da Comissão, e deu como provada que o acto de arrancar as unhas aos prisioneiros não era um acto de tortura, mas um procedimento comum originado pela dificuldade logística em conseguir uma manicura que lhes cuidasse das mãos.


Google Notícias

Durante um voo nocturno sobre a cidade de Lisboa, o piloto do F16 apercebeu-se que o aparelho estava com uma avaria grave, e que se iria despenhar. Piloto sumamente experiente, achou que era o momento de se ejectar mas antes, para não causar danos nem baixas entre a população, levantou o nariz ao aparelho e apontou-o à Lua.

Eastwood's Greatest Hits - Dirty Harry

- Gostas mesmo que eu ande contigo pela cidade, não é?
- Claro, é mais fácil andar por aí contigo, sinto-me muito mais segura!
- Não será por eu ser polícia e ter esta Magnum 44 artilhada?
- Talvez...
- E ser mais fácil para mim meter uma bala na cabeça de um bandalho do que meter um rebuçado na minha própria boca?
- Sim, por tudo isso, gosto de ir contigo às compras!
- Por falar nisso...Ei, puto! Meteste-me à frente da minha miúda na fila da caixa. Sai já daí ou trato-te da saúde. Não resistas que não sabes o que te espera. Come on, punk, make my day!


Jano é o deus dos princípios, do mundo, dos dias, do ano, é o deus das portas, da passagem para outros níveis e universos, o que vê o passado e o futuro, o que expomos e o que guardamos cá dentro, é o dia nascente, mas um dos seus rostos está voltado para a noite e para os segredos que nela se recolheram. Aos seus rostos que tudo vêem (dois, por vezes quatro), nada podia escapar, nem mesmo o infortúnio e a desgraça, natural se tornava que se procurasse a sua ajuda e protecção em novas empresas, fosse uma batalha, uma viagem de navio ou uma empresa amorosa. Os seus dois rostos uniam os ciclos como a cauda na boca da serpente ouroborus, uniam as coisas entre si e estas ao eixo do mundo que condiciona todas as revoluções do cosmos. Aos mortos era colocada na boca uma medalha com a efígie de Jano para que a alma do morto conseguisse passar todas as portas até ao outro mundo; e Jano era invocado também nos portos e navios, para que guiasse os barcos nessa outra viagem até aos destinos que se procurava.

Keb' Mo' - Dangerous Mood

Companhia

Perfilhou um gato que rondava a churrasqueira do seu quintal, deu-lhe comida, leite, levou-o para dentro de casa, para o abrigo. Entrava e saía quando queria, pela portinhola pequena da porta, andava pelo jardim a arranhar a casca das árvores e a tentar apanhar borboletas esquivas. Não dava muito trabalho, o que era conveniente. Um dia o gato, que era uma gata, apareceu prenha, e isso tirou-a do sério. Afogou-a num alguidar cheio de água, fez o enterro no canteiro das tulipas e, após lavar muito bem as mãos, foi dar um passeio até ao centro comercial com o fito de comprar um aquário com um peixinho, um aquário dos modernos, com doseador de comida e filtro incorporado.

Natureza-morta

Diante da tela, um dilema se colocou ao pintor de naturezas-mortas que queria pintar frutas numa taça: a que cores deveria dar mais destaque? Ao amarelo ígneo das laranjas? Aos tons repousados das uvas tintas? À palidez marfínea do melão? Passou horas nisto, recompondo as frutas na taça larga, procurando a perfeição, o centro subtil que seduziria o olhar no seu foco. Incapaz de tomar uma decisão, adiou as frutas e pintou o seu próprio retrato diante do espelho: magro e pálido, dois olhos escuros como lumes apagados, com uma mão ossuda brandindo o pincel, enquanto a outra cingia à bata, à altura do coração, uma folha de parra de cor sépia.

falange

Um passado rico. Comandante de falange da Mocidade Portuguesa, membro da PIDE, maoista, trotskista, operacional das Brigadas Vermelhas, activista dos direitos dos animais, ecologista radical. Hoje, com sessenta anos, metal num braço, reumático e gota, reapareceu com o currículo retocado para ser acreditado como o Messias que irá resolver a crise na Banca.

falanginha

Nérvia gostava de atribuir nomes adequados às coisas, nomes límpidos e concisos. Ao segundo quirodátilo da sua mão recusava-se a chamar dedo indicador a menos que o estivesse a usar para indicar alguma coisa, e esse nome conhecia mutações: se apontava era apontador, se o usava na confeitaria era dedo fura-bolo, e para ver o sentido do vento, dedo eólico; para recusar alguma coisa, dedo negador. De todos os nomes que invocava para o dedo indicador, o mais reservado, era o da sua intimidade de solteirona solitária: dedo consolador.

falangeta

Não se aponta que é feio!
Ensinaram-no a não apontar, porque era feio.
Na tropa, nunca teve êxito na carreira de tiro,
fora do quartel, aprendeu a atirar bonito sobre a multidão,
sem apontar!

medicine man

A sala de espera das urgências dum Hospital é um sítio único para exposição e intercâmbio de germes. As pessoas chegam cedo, procuram um lugar bem visível e requisitam na triagem o autocolante colorido que lhes fixa a categoria do produto. A montra da loja é o ar da pessoa, os olhos pequeninos de febre, o tossir lancinante, a ranhoca que o lenço de papel não consegue suster a tempo (pessoas com ossos partidos e escoriações não devem meter-se no meio das outras porque lhes podem estragar o negócio). Segue-se a arenga de cada um e a negociata de troca ou venda. Quanto mais insólito for o sintoma, mais valioso é o vírus que o causa, um vírus indeterminado que num homem provocou uma febre persistente e uma borbulhagem púrpura sobre a sobrancelha só pode ser vendido a peso de ouro ou trocado por uma matilha de germes menores. Enquanto regateiam preços, os intervenientes tem especial atenção em pôr a mão diante da cara quando tossem ou espirram, porque se não o fizerem, estarão a entregar o ouro ao bandido.
No meio da feira, passeiam-se os ociosos, como em todas as feiras. Não querem comprar nem vender nada, gostam de estórias, estórias de doenças, das suas doenças e das dos outros, como começaram, o que se sofreu, o que o médico A disse e o que o médico B disse sobre o mesmo assunto, e como ambos se contra-disseram. Os ociosos são suspeitos, às vezes nem doença possuem, estão ali por encargo das grandes farmacêuticas, dizem não acreditar em remédios caseiros - casca de laranja fervida ou xarope de cenoura - e descosem-se em nomes de medicamentos, martelando os ouvidos das pessoas com as últimas novidades. Quando as pessoas vão carimbar as receitas passadas pelo médico, há sempre um ocioso ao pé do guiché da recepção para avaliar da quantidade de fármacos receitados e informar gentilmente qual é a farmácia de serviço e qual o caminho mais rápido para lá. Se for às urgências dum hospital para fazer negócio, evite este tipo de gente!


um dia de trabalho

9 horas: Dá entrada na fábrica, é santeiro, modela figuras de barro antes de serem cozidas no forno; quando as encomendas o exigem ajuda nos acabamentos: pintura, roupas, acessórios. É o seu trabalho e aborrece-o, ajuda a criar objectos industriais que algumas pessoas veneram, enquanto outras adoram mesmo.
18 horas: Pica o cartão, e regressa a casa. Toma banho e veste-se, com gestos graves, quase religiosos. É sexta-feira. No outro lado da cidade, a sua amante prepara-se para o receber, a comida encomendada está na cozinha e perfumou o quarto dos dois.
20 horas: Antes de sair de casa, massaja as mãos com santos óleos de Carolina Herrera. Guia ao encontro dela, cantarolando uma melodia romântica como se fosse um salmo. Ao tocar à sua campainha, sente uma alegria mística ao ouvir a voz amada no lado de dentro, e repete, para si, o versículo que adoptou de Blake: A nudez da mulher é obra de Deus.
O que distingue um piloto de héliocóptero dos demais, é a sua voz de pato Donald.

Vínculo laboral

Ninguém pode servir a Deus e ao Diabo, ao mesmo tempo!
(...a não ser, em regime de biscate)


Logo pela manhã se formaram os quatro grupos, tão dedicados quanto confusos, um polícia reformado e um segurança de bar tentavam orientá-los. Deram indicações, nomearam guias e os grupos saíram ordeiramente do largo central, tomando as quatro vias cardeais que aí confluíam. O pai da menina desaparecida veio vê-los partir, seguro pelos ombros pelo vigário, estava ali para encorajá-los e agradecer, mas não foi capaz, as palavras haviam morrido na garganta e nem forças tinha para se manter de pé.
Nos campos, cada um dos grupos dispersou-se em leque. Brandiam paus contra os arbustos, remexendo os locais onde a terra parecia estar fresca, alguns enfiavam-se nas valas e arroios, procurando um indício, por pequeno que fosse. No meio daquelas dezenas de populares, havia um mais enérgico que tomara por sua conta uma faixa de quatro metros entre duas valas com caniços, bradava instruções para um lado e para outro, vergastando com um cajado a mais pequena moita. Ao passar pelo lugar onde o corpo estava enterrado, parou para descansar, e bebeu vinho de um odre enquanto o seu pé direito encrespava ligeiramente o rectângulo de terra lisa e prensada.

(Relendo o mito, parece-me que o estômago do rei Midas não devia sentir nenhum saudosismo da Idade de Ouro).


Pessoas

Lua de marfim que atrais como um magneto as cristalinas águas fundas de mim, o carinho, o gosto das palavras e dos sons, as notas do riso, o fascínio de versos no fundo de umas pupilas


Vs.

Lua negra de obsidiana que puxas até à superfície o pior das minhas entranhas, o azedume e a tristeza, o ímpeto amoral de se querer mal, a sanha de destruir, o vago encanto da dor e do ódio que se apodera do meu espírito como um corvo que fecha as suas garras num naco de criatura morta
Rodou a imperial nas mãos, achando graça a uma cintilação no tampo de mármore produzida pela luz rotativa, bebeu o resto, a espuma branca escorregou pelas paredes do copo, outra mão tocou a sua, cálida, abanou a cabeça, não queria ir, escorregava, poroso e sem estrutura, tiraram-lha das mãos, outra tomou o seu lugar, pediu uma passa a alguém, aspirou com força o fumo, misturando o seu sabor ao da cerveja, um grito de entusiasmo, alguém marcara um golo na porcaria de jogo que transmitiam, um murro no balcão, uma imprecação abafada, vazou a imperial, precisava despejar, cruzou o café na direcção da placa de sanitários, rodou uma maçaneta metálica e apanhou o ar frio do exterior, sentiu primeiro a chuva nas calças antes de sair, não havia nada, umas grades empilhadas, uma casota de cão no escuro, desembainhou o pau do mijo e aliviou-se contra as grades, ouviu latir, uma luz encadeou-lhe a vista, uma avioneta despenhou-se contra o café diante dos seus olhos semicerrados, como um barril, a explodir, metal retorcido, escombros, gritos, quando o pó assentou ainda estava com a mão no fecho das calças, fechou-o, ouviu gritos, o alarme do café disparara, viu o cão, parecia estarrecido num ângulo da barraca, estúpido cão, meteu a mão nos bolsos e encontrou as chaves, contornou os escombros à procura do carro e descobriu-o semi-soterrado por uma parede caída, voltou a guardar as chaves e fez-se à estrada a caminhar com dificuldade no asfalto molhado, as pessoas passavam por ele a correr aos gritos, sirenes, tinha sede.

BEAGLE

Artur C. Clarke, "2001 - Odisseia no Espaço", 37:

«Os que havia tanto tempo começaram a experiência, não eram homens - nem sequer remotamente humanos. Mas eram de carne e osso e, ao olharem através do espaço, sentiram temor, encanto, solidão. Logo que puderam, partiram para as estrelas.
«(...) Depois, lá muito longe, entre as estrelas, a evolução começou a virar-se para outros objectivos. Os primeiros exploradores da Terra atingiram os limites da carne e do sangue; logo que as suas máquinas mostraram ser melhores que os seus corpos, começaram a mudar-se. Primeiro os cérebros, e depois apenas os pensamentos, foram transferidos para novos e brilhantes invólucros de metal e de plástico. E, com eles, passearam entre as estrelas. Já não construíam naves espaciais. Eles eram as naves espaciais.
«Mas a idade das Máquinas-entidades passou num ápice. Experimentando incessantemente, aprenderam a armazenar conhecimentos na estrutura do próprio espaço, e a preservar eternamente os seus pensamentos em geladas grades de luz. Podiam tornar-se criaturas de radiação, finalmente libertas da tirania da matéria.
«Portanto, transformaram-se em energia pura; e, em mil mundos, as cascas vazias de que se desembaraçaram, contorceram-se um momento numa irracional dança de morte, e desfizeram-se em pó.
«Eram agora senhores da galáxia, e o tempo não podia afectá-los. Deambulavam ao sabor dos seus desejos entre as estrelas, e, qual subtil névoa, mergulhavam nos próprios interstícios do espaço».

Zooplâncton

Depois de fazer a sua fortuna com o tráfico de armas e companhias de aviação, o multimilionário decidiu que já não era seguro nem higiénico descer às ruas e enclausurou-se na sua vivenda de luxo. Quando não estava a ser mimado pelas suas gueixas, permanecia imerso na piscina aquecida a beber champanhe, bebia champanhe e comia lautas refeições. Em breve, estar dentro de água era a melhor forma de lidar com o seu peso descomunal, permitindo-lhe mover-se sem esforço. Simplificando processos, ordenou que começassem a trazer-lhe alimentos com cobertura hidrófuga - almôndegas, noguetes de frango, rojões... - que eram espalhados à pazada pela piscina na hora das refeições. Nadando à superfície como um tubarão-baleia, abria a bocarra e saciava o estômago enquanto o seu coro de ninfas entoava o tema musical do "Tubarão" de Spielberg.

geometria

*
**
Vendo as
coisas em perspectiva,
só nos sentimos completos
quando encontramos o nosso ponto de fuga.

«Sou um dos eleitos!» ditou para o seu gravador de voz «Entre milhões e milhões de pessoas, existem permanentemente trinta e quatro mil pessoas escolhidas por Deus para orientar a humanidade, pessoas sábias e caridosas, bafejadas pelo halo do Altíssimo, que apascentarão os justos na hora do Apocalipse e guiarão as hostes da Luz. Não somos da matéria do comum dos mortais nem temos nada em comum com os animais preservados na Arca de Noé, a nossa carne é três quartos celestial, as nossas costelas possuem rebentos escondidos de onde nascerão asas iridescentes. Tolo é aquele que não acreditar que existimos, porque o Senhor nos fará revelarmo-nos, fazendo-os morder as suas línguas imundas e falsas»
E, dito isto, interrompeu a gravação para limpar o cu.
Aquele já chateava, estava em todo o lado para onde ela ia, omnipresente e omnichato, como se ela não pudesse viver sem ele ou, o que ainda é pior, como se ele morresse se ela o abandonasse. Por cortesia, ou prudência, tolerou-o o mais que foi capaz. No dia em que ele a apanhou de muito mau-humor, ela empunhou uma lâmina de barbear e, menosprezando o parecer dos médicos, cortou o furúnculo.
O quê? Ainda trabalhas aqui! Olá! Já não nos víamos desde o concerto dos Simple Minds! Ainda estudas? A última vez que te vi foi há seis anos, aos pulos por trás do entrevistado naquela peça do noticiário.
Os conhecidos andavam arredados da nossa vista durante as intermináveis horas de trabalho, encofrados em lojas, escritórios e consultórios, cortando cabelos ou a fazer chamadas. E, de repente, voltam todos à nossa rotina.
(Temos sempre de ver as coisas pelo lado positivo. Desde que entrou em vigor a nova lei do tabaco que encontramos mais gente conhecida nas ruas, sorvendo fumo como oxigénio).

Ouvido

Por um bocado, a vendedeira deixou a sua banca no mercado da Praça da República e foi dar uma vista de olhos numa loja ao pé. Andou por ali a ver os artigos enquando tasquinhava uma maçã. A sua atenção fixou-se num mostruário ao pé da caixa.
- Diga-me menina, estes anélzitos também são a um euro?
- Sim, minha senhora, todos os artigos nesta loja são a um euro!
Ela baixou-se para melhor os admirar - simples, de fantasia, com pedras...
- Não são em ouro português?
- Não, minha senhora, não são em ouro!
- Assim é que a gente vê! Se eu não perguntasse, você também não dizia...sempre a tentar enganar o próximo. O que vale é que, quando a esmola é grande, o pobre desconfia.
Há uns anos bons, na minha adolescência, quando a minha avó era viva, ela dizia-me em confidência que eu era o seu neto predilecto, isso não era algo que se esperasse ouvir dela porque não era muito de exteriorizar emoções - a vida castigara-a de tal forma que desenvolvera uma carapaça dura sobre o que sentia, tornara-se a maior parte do tempo seca e áspera como uma árvore carcomida. Mas, por vezes, quando me via sem a presença dos meus irmãos, dava-me com os seus olhos muito azuis a sorrir, moedinhas pretas para comprar coisas. Muitos anos depois, antes do seu espírito definhar numa casa de repouso a ponto de não reconhecer ninguém, quando eu, já adulto, a visitava na casa velha, desencantava dum bolso do avental uma moeda de cinquenta escudos com a caravela estilizada, e traficava-a para a minha mão, segurando-a entre as suas mãos enrugadas enquanto murmurava o que ninguém podia saber: É uma moeda de prata!!

Ter um filho, escrever um livro, plantar uma árvore...

Mal saiu do consultório do médico, foi à feira e comprou terra (dois sacos de vinte quilos) e uma árvore - uma macieira pequena com as raízes no regaço de um saco com terra preta. Em casa, partiu com uma picareta um canto do pátio cimentado, fez uma cova, encheu-o com a terra e plantou a sua árvore. Isso ocupou-o durante o resto do dia e, à noite, quase não conseguiu adormecer de tanto pensar na árvore nova. Na manhã seguinte, voltou à cidade e comprou no mercado dois sacos de maçãs (não sabia se iria viver tempo suficiente).

T-Bone Walker- Don't throw your love on me so strong

Assinalando a morte de Luís Pacheco, escritor maldito cujo percurso de vida passou pela cidade de Caldas da Rainha, deixo-vos, com a devida vénia, o extracto de uma carta de Luís Pacheco a Mário Cesariny, escrita nesta cidade no ano de 1965, não sem antes vos indicar um link (mais um, ufa!) que espelha o modo como evoluiu a relação entre os dois autores:


Caldas da Rainha, 29 de Julho

Mano! Querido mano!

Hoje tive notícias tuas… pelo teu poema do “Diário de Notícias”-. Do princípio do mundo/até ao fim do mundo por cá está tudo na mesma. Dirás que temos um novo Presidente da República – mas não o achas tão parecido com o anterior e de mesmo com alguns da Dinastia Bragantina, D. João IV à cabeça?
Terás estranhado o meu silêncio, e muito depois da recepção, não esperada mas desejada, de um vale dos Restauradores, signé Dácio de Oliveira (miles)… Digo-te que veio mesmo no fim. Nesse dia tinha eu ido à SECLA [fábrica de cerâmica nas Caldas onde Pacheco chegou a trabalhar]… e chego a casa mais emburrado que nunca e a minha tosga mostra-me o vale; até acabar, e acabou logo no dia seguinte, não parámos de semear dinheiro por credores caldenses, já um tanto desamparados de esperanças de verem o deles. Mas isto é lamúria; mudei muito de então para cá: ADERI AO ARTESANATO. Resolvi entrar na marabunda, usando as armas que vejo usar e fazendo o mesmo que os outros fazem, Agora sou um homem dividido, uma espécie de Dr. Jekill e Mister Hyde; desfaço de noite o que fiz de dia (mito de Penélope caldense), aldrabo de dia o suficiente para ser eu de noite. Achas que isto se pode manter???! A ver vamos.
… Tenho andado preso com traduções (artesanato, Mano!) mas na iminência da chegada de outro membro da tribo – que queres que faça? Temo-nos abeirado demais da fome, real e sem pão, tomates com um azeite, ou óleo, de chicharro com oito dias de reserva (delicioso tomate e delicioso cheiro a peixe), para nesta altura e com agravames certos a curto prazo poder estar a olhar para o lado. Traduzi agora em 15 dias um livro para a Ulisseia; traduzi uma peça para o Solnado… Do Nadeau não sei nada, nem o Vítor me disse nada…O meu livro continua à espera de A Nota do Autor Aos Quarenta Anos, já escrita em borrão e que saiu enorme, 100 págs. De máquina, 10.000 palavras, + ou -. Agora vê tu: O livro não sai por causa da Nota, a Nota [a nota a que se referia era o prefácio à antologia da poesia erótica, que insistentemente lhe pedia Vítor da Silva Tavares, da Ulisseia] não me sai por causa do artesanato. Círculo vicioso que os tomates com óleo de chicharro nem sempre chegam para aguentar ou furar. E depois…
Na última carta pedias-me para responder à penúltima. Em Junho, falavas do Nadeau, como atrás ficou dito nada sei e, por ora, tenho até a impressão que não devo ser eu a falar nisso. Aliás, a nova geração, a novíssima, já deitou unhas a esse filão: o Ramos Rosa (este homem persegue-nos!) traduziu para a presença um livro sobre surrealismo ( o art.º do cautela de ontem no JLA vem muito cortado – e ainda bem que é asneira que se farta) dum italiano não sei de quê.ini. (há muitos por lá com este nome, Gordini, Papini, etc.). de modo que se a Ulisseia não se apressa…
Aqui nas Caldas estarias bem, suponho (em relação a certas pessoas cartonadas ou cracházadas). Mas não comprometas, ou compromete mesmo se te apetecer a tua situação. Para o mais e o antes do resto, cá me tens. Se queres dinheiro, diz (há-de se arranjar). Se queres casa, diz (ainda cá cabes). E aquilo do tomate nem sempre é verdade: falei nisso porque basta que seja uma vez verdade, para eu já não gostar. E quem gostaria?
… Desculpa a minha carta que vai longa: mas começando a falar dou nisto. E para mais já não falava contigo hà semanas. Vive o mais que possas. Pensa um pouco em mim. E tem um pouco de pena, quando essas névoas londrinas te pungirem deste sol de cá, (que o sol não é tudo) deste mano pró-caldense, tão lucidamente enrascado, que premeditadamente ainda se procura enrascar mais. Irão folhetos. Espalha pela Europa. As Coplas são de pé quebrado mas a raiva que vai nelas é toda inteirinha, dos pés à cabeça.

O masoquista no ringue

K.O...O.K.
- Acorda, meu pequeno! Vais chegar atrasado à escola.
Ela destapou-o, levantou-se de mau-humor, fez uma mija e lavou a cara, ou antes, passou apenas os dedos molhados em água gelada pelos cantos da remela. Ouvia a mãe na cozinha a aquecer no micro-ondas o leite para os cereais. Vestiu-se à pressa. Rotina perfeita, ele e a almoçadeira com leite chegaram ao mesmo tempo à mesa. Comeu sem vontade. A mãe falava sem cessar. Do frio, da chuva, para ele não andar desnecessariamente à chuva, e do que a meteorologia previa na rádio, e dos aumentos do princípio do ano porque ouvira um senhor na Antena 1 a falar sobre isso, e do que ele achava, e as justificações do senhor ministro.
Voltou ao quarto, a preparar a pasta, meteu nela uns exercícios que corrigira na véspera, e deu uma espreitadela no espelho da casa-de-banho antes de sair. Acamou com a mão uns cabelos brancos que teimavam em ficar espetados sobre a calva, e espalhou bâton de cieiro nos lábios.
Na sala, retomou o monólogo da mãe, dizendo que sim com a cabeça como se a ouvisse.
- E porta-te bem para teres boas notas, eu tenho sempre muito orgulho em ti, meu filho.
«Eles não querem saber, mãe!»
Não ouvira, sabia que ela não ouvira, na mãe a fala e a audição desembocavam no mesmo canal e devia ter uma espécie de membrana que fechava uma delas quando a outra estava activa. Não valia a pena falar para ela enquanto ela não se calasse.
- Quando chegares logo, não devo estar cá, mas deixo-te comida no forno, vou a casa da prima Isaura per...
«Nem sei porque dou aulas, não querem saber do que falo e atiram-me coisas. Noutro dia deixaram o apagador equilibrado na porta e apanhei com ele na careca quando entrei, foi o momento de maior alegria de todo o Ensino secundário»
- ...sei que não lavaste os dentes, mas trata disso quando voltares a casa. Até logo, e não deixes que te roubem o lanche!

Carícia

Quando aquilo de que o corpo precisa,
está escrito em Braille.


Marés violentas, e o mar comeu alguns metros à praia. Antes havia ali um declive suave que no Verão se moldava à languidez dos corpos deitados, mas isso foi com as águas, a areia acaba a pique como a aba de uma duna no deserto, a marisqueira de balcão corrido com vista sobre o mar distante ficou agora mesmo à sua beira, nas marés-vivas as ondas vão lamber os bancos de madeira carunchosa e tornar uma lembrança os cães vadios que por ali rondavam ao cheiro da comida. O dono veio ver os estragos, a marisqueira está fechada de Inverno mas ele veio avaliar a situação, passeia-se pela areia a meditar, de cabeça descoberta na trégua do aguaceiro, fazendo rodar um búzio entre os dedos. A mulher anda à volta dele como uma mariposa, procurando advinhar-lhe os pensamentos, ser útil por um dia na sua rotina de futilidades. O homem pensa na habilidade dos holandeses em conquistar terras ao mar, pensa em Moisés afastando as ondas do Mar Vermelho, em diques, represas e obras megalómanas. Pensa simplesmente, caudilho, libertador, iluminado - o Bolívar dos camarões e sapateiras.
- O que vamos fazer agora, amor?
Respondeu com actos. Trouxe o 4x4 em marcha-atrás até à areia e engatou nele a roulote-marisqueira. Deu uma última olhadela no que deixava para trás: uma pequena casinha de madeira para o gerador e quatro peças de mobiliário armadas com toros e troncos envernizados. Deu ordens à mulher e entraram no veículo. Havia que encontrar uma nova terra para continuar a levar às pessoas a eucaristia do marisco e da cervejinha.
- Tenho esta coisa, ando cansada, cansada das mesmas ruas e das mesmas pessoas, dia após dia, ano após ano. Sinto-me um porquinho-da-Índia repetindo testes dentro do mesmo labirinto de sempre.
- Eu também me sinto assim, tudo já foi visto antes, cada parede no caminho, as esquinas, os rostos, os pombos, as manchas no tecto do autocarro, as vozes que ouvimos antes mesmo que as pessoas abram as suas bocarras mal-cheirosas. Nós dois somos almas-gémeas.
- Não devias ter dito isso!
- Porquê?
- As semelhanças e as cópias enfastiam-me, agudizam o meu cansaço, agora, também tu me pareces redundante e aborrecido, o meu ego gasto elevado ao quadrado. É melhor ires-te embora!
- Mas eu vivo aqui, nós vivemos aqui!
- Devias ter pensado nisso antes de falares. Faz-te à estrada e procura um duplex ou uma casa geminada, um buraco só teu onde possas coleccionar Matrioskas e obras de Wharhol.

Como um perfil

Portuguesa, songwriter, admiradora incondicional dos U2, o seu sonho maior é escrever uma canção para o grupo (mesmo que não lhe paguem nada, inteiramente Pro bono).

Do Androids Dream of Electric Chips


Blade Runner - Unicorn Scene (1993)

Blade Runner

Blade Runner, de Ridley Scott, foi para mim um filme marcante, um dos melhores já feitos no universo da ficção científica. Assisti a ambas as versões nas salas de cinema, vi-o algumas vezes em formato VHS, e tenho o dvd em casa (um presente do meu irmão Carlos). Muitas coisas me agradaram no filme, a imagem, a história, o duelo final (tears in the rain). Só alguns anos depois do lançamento do filme é que li a obra de Phillip K. Dick (Do Androids Dream of Electric Sheep), e gostei francamente - livro e filme são duas criações umbilicadas mas distintas, e nenhuma delas esgota a outra. O livro estrutura-se como uma história policial futurista com hovercars, andróides, num mundo que é uma projecção do nosso: a vida das pessoas está mergulhada numa permanente obscuridade causada pela poluição, quase todas as espécies animais se extinguiram e as pessoas substituem-nas por animais sintéticos que lhes fazem companhia. A experiência religiosa também é artificial, com uma personalidade sotérica em cujo mundo se mergulha através de um engenho, a caixa de empatia. O personagem principal, Rick Deckard (quase um anagrama de Philip Kendred Dick), anseia por adquirir uma cabra, cujo valor inflaccionado o faz tentar amealhar o dinheiro da recompensa pela morte dos andróides procurados. No último capítulo faz uma descoberta insólita:

Pousou o auscultador e não tirou os olhos do lugar onde algo se movera do lado de fora do carro. Um vulto no solo, entre as pedras. «Um animal», disse a si mesmo. E o seu coração arrastou-se sob a carga excessiva, o choque do reconhecimento. «Eu sei o que é», compreendeu; «nunca vi nenhum antes, mas conheço-o dos velhos filmes sobre a natureza que exibem na TV governamental.»
«Eles estão extintos!» disse a si mesmo; rapidamente puxou do seu muito enrugado Sidney e passou as páginas com dedos convulsivos.
Sapo (Bufonidae), todas as variedades...Ext.
Extinto há anos, agora.

Balística

Para que a bala tenha um rumo certo e recto, alongaram e aperfeiçoaram os canos e inventaram um sulco em espiral dentro do cano para imprimir um movimento rotativo ao projéctil. Para que, mesmo assim, com toda a tecnologia, a bala não fosse desperdiçada, ele encostou o alvo à boca do cano, tão próximo que ficou (primeiro) com uma marca redonda mesmo no meio da testa.
Numa noite, a meio de um temporal com vento e aguaceiros, o prédio abandonado acabou por ruir. Os Bombeiros começaram a remover os escombros com a colaboração dos populares. Evacuaram treze ratazanas, dois gatos e um cão vadio. Esta gente come cada coisa!

A causa

Os analistas políticos acumulam erros nas suas análises mas a culpa, a culpa mesmo, é da classe política, que não comparece às colheitas de sangue e urina.
- Amigo, meu amigo - soluçava o moribundo - Eu quero que tu segures na asa do meu caixão.
- Porquê, amigo? Tens medo que ele voe?

Eufemismo:

Encontrar na rua uma mulher sem braços, e considerar que ela possui uma beleza clássica

(ou uma mulher sem cabeça)

Resolução do Ano Novo

Como meta do novo ano, comprometeu-se abraçar uma alimentação saudável. Logo a partir da primeira hora do primeiro dia do ano, começou a sua dieta. Vegetais, fruta, amoras e cerejas, castanhas, chocolate, cereais de trigo integral, leguminosas, iogurtes, também camarão, ostra, sardinhas, arenque, gema de ovo e gérmen de trigo, devido ás qualidades de cada um desses alimentos no que respeita a vitaminas e minerais. Vinte e quatro horas depois, com tantos e tão preciosos alimentos a darem entrada no seu organismo, era-lhe difícil dizer se estava ou não mais saudável. A única coisa que tinha como certa, é que se sentia debilitado por uma caganeira violenta.
No último dia do ano, tirei um tempo da parte da manhã para ir espreitar o mar, não por ser o último dia do ano, que esse dia tem o mesmo significado que todos os outros, mas porque senti a falta de estar perto do mar, é uma necessidade antiga, entranhada. Estacionei o carro na Foz do Arelho, num ponto sobranceiro à praia de mar e lugar onde costumam arribar pescadores e surfistas. Desci a escadaria até á areia e andei por ali um bocado a ver o mar picado e o rendilhado da rebentação. A praia, partilhava-a apenas com um pescador isolado e dois atletas ocasionais, um dos quais corria com uma garrafa vazia de Super Bock. O que até é bom, o mar basta-me. Enquanto passeava ao longo da praia, admirei ociosamente a confusão de pegadas na areia fina e encontrei uma que se destacava das outras, uma pegada feminina, pequena, sem dúvida de bota de cunha, com a biqueira afilada, acompanhei-a durante alguns metros, seguindo o rasto dalgum rendez-vous nocturno. Quem era, coxeava do pé esquerdo, as duas pegadas revelavam uma grande diferença, uma passada pequena, quase lateralizada, depois, uma passada larga em frente com o pé direito. Admiti a possibilidade de estar a carregar algum peso daquele lado mas, comparando a fundura de ambas as pegadas, rejeitei a hipótese. Um pouco mais à frente, perdi o traço daquela mulher num emaranhado de marcas de sapatilha. Continuei o meu passeio e, no regresso ao carro, reencontrei a mesma impressão na areia das botas de cunha, com a biqueira apontada para as escadas. A mulher desconhecida abandonou a praia. Reencontrei as suas pegadas quando começava a admitir que ela pudesse ser uma sereia.

A Fonte no Jardim

A Barcarola de Pedro
(uma alegoria)

Cansado de perscrutar as ravinas em busca de um cordeiro perdido, o rude pastor deitou-se entre os arbustos e adormeceu. Em sonhos, despertou como um gigante, em pé como uma torre sobre a mesma paisagem que o vira demandar o animal perdido. Mas agora as suas vestes eram luxuosas, finos paramentos de seda bordados a fio de ouro. As pessoas e as casas eram esmagadas pelos seus pés enquanto andava, mas, por mais que tentasse, não era capaz de evitá-lo ou sequer descer até ao seu mundo liliputiano e insignificante, as rótulas dos seus joelhos estavam soldadas, pelo que se resignou em continuar a caminhar, com as órbitas ao nível das nuvens e do cume majestoso das montanhas. Quando começou a embriagar-se do seu poder e da vaidade pelas suas insólitas roupas, o balir do animal que buscava arrancou-o do sonho. Primeiro decepcionado, logo o tomou um entusiasmo novo. Colocou o animal sobre os seus ombros e encaminhou-se para a cidade, para o vender e procurar adquirir com o dinheiro roupas tão belas e perfumadas como as que vestira no sonho.

A um deus desconhecido

«Mais coisas encontrareis nos bosques do que nos livros; as árvores e as pedras podem fazer-vos ver o que os mestres nunca saberão ensinar-nos. Pensais por acaso que não podereis sugar mel das pedras e azeite da rocha mais dura? Será que as montanhas não destilam doçura? Será que as colinas não brotam leite e mel? Será que os vales não estarão plenos de trigo? Tenho tantas coisas para vos dizer, que apenas me posso conter
»

(Bernardo de Claraval, Epístola 106, citado em Codex Templi - Os Mistérios Templários à Luz da História e da Tradição, capítulo I, Editora Zéfiro, Sintra)

Segregação e brandos costumes

Gravura (adulterada) de Goya: Con razón ó sin ella.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...