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Feliz



2009!


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Dardos


O Vergílio Torres (obrigado!) decidiu agraciar-me com o Prémio Dardos, que é o correspondente blogal e pessoal das medalhas do 10 de Junho ;).

Passo a literatura inclusa:


"Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Quem recebe o "Prêmio Dardos" e o aceita deve seguir algumas regras:
1. - Exibir a distinta imagem;
2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. - Escolher quinze (15) outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos
."


Nadando um pouco contra a corrente, porque o o ano se esgota, passo-o a cinco (5) blogues, todos no feminino, onde a palavra se faz carne.






A mulher de César

A uma hora de caminho, no meio de um bosque que adquiriu e cercou para que não o profanassem, William the Third construiu de raiz, e com as suas próprias mãos, uma cabana-refúgio em madeira, que considerava o seu verdadeiro lar. Ali, não havia máquinas, engenhos, portáteis, ecrãs Lcd, tudo era rude e áspero como a madeira afeiçoada a enxó de uma cabana de lenhador. Os móveis rudimentares com pranchas de madeira unidas por pregos e cavilhas, a lareira de pedra, o cântaro de folha onde ia buscar água ao riacho, as armadilhas para coelhos suspensas de pregos na parede, a cana de pesca com que tentava a sua sorte, porque as trutas eram caprichosas, e a cadeira de espaldar no alpendre onde, iria jurar, era capaz de ouvir a erva a crescer. Passava todo o tempo que conseguia ali, todo o que lhe sobrava da sua vida pública, da sua carreira gloriosa de génio de informática e criador de uma sistema operativo, cidadão do mundo que construíra a pulso um império financeiro, e arquitectara uma casa que era o símbolo desse sucesso, uma preciosidade de domótica onde os robôs e a inteligência artificial regulavam os mínimos detalhes da sua vida diária.

O substantivo colectivo aplicado ao Ensino

Exame de Abelhas

Amizade

- Então, como vai isso? Não te tenho visto por aqui!
- Um pouco atribulado, sabes, não sei se é do rigor deste Inverno ou das debilidades do meu corpo, tenho andado adoentado, gripes, dores de cabeça, os nervos em franja, saturado das coisas. Num estado desses, uma pessoa atém-se ao seu mínimo denominador comum, guardando as forças para os ritos inadiáveis, e as tarefas essenciais. Depois há as forças obscuras e gigantescas que nos rodeiam, a incerteza do futuro, o emprego que anda em convulsões e que ameaça desaparecer de um momento para o outro, os compromissos e encargos económicos...
- Mas vais-te aguentando, não é?
- Sim, vou indo!
-Fico mais tranquilo, é que, da maneira que estavas a falar, vê-se que não és dos que se confessam ao padreco!
Sem título, mas com a musicalidade do italiano, mais um texto que Stefano Valente teve a cortesia de traduzir.
Uma pesquisa no browser fez-me encontrar a primeira obra de Stefano Valente publicada em Portugal, chama-se O Espelho de Orfeu, e tem a chancela da Ésquilo.

Mimos

Ele lê o jornal, está cansado, do jornal também, um diário com uns dias, a cadela anda para um lado e para o outro na sala, parece inquieta.
-Leva-a a dar uma volta! - sugere a mulher, sentada do outro lado da sala, com os olhos fitos na xaropada da telenovela.
- Deixa-me só acabar esta página - a cadela parece ter ouvido e arranha-lhe as pernas das calças, não tem como não ir.
Levanta-se, põe-lhe a trela e sai para o patamar das escadas. Levanta a cadela, com os braços em volta dos seus quartos dianteiros, roda sobre si, e descreve com ela uma, duas, três voltas, pousa a cadela meio estonteada e ata a trela ao corrimão das escadas. Ela não ladra nem rosna, está a ficar habituada. Ele desce um lance de escadas e fuma um cigarro no patamar seguinte, a chuva a bater com força nos vidros. Senta-se num degrau, com os joelhos encostados ao peito e esfrega as têmporas com as palmas das mãos. Um porta a fechar-se à chave num dos andares de cima arranca-os do seu torpor, e levanta-se, a cadela abana o rabo, deve estar a ficar viciada em desportos radicais, pega-lhe como antes e fá-la rodar nos ares, depois, sempre com ela nos braços, entra no apartamento. A mulher adormeceu diante da televisão, conduz a cadela pela coleira e deixa-a no quarto dos fundos, a sua casa. Volta à sala e desliga a televisão, já não vê necessidade de fingir que lê, a mulher já dorme. Apaga as luzes todas, e a sala recolhe-se à luz vaga dos candeeiros e néons da rua em baixo. Deixa-se cair no sofá, a chuva nas vidraças desenha ondas na parede do fundo, ondas onde a sua vontade se dilui como se a maré subisse pelo seu corpo deitado até ultrapassar a cabeça, fazendo os seus cabelos ondularem na água, os pés enterram-se na areia da praia, debaixo d'água ainda ouve as vozes das pessoas e o ressonar abafado da mulher, e um outro som, persistente, orgânico, prolongado como um rosnar de cão, abre os olhos dentro de água, alarmado, as suas narinas captaram aquele bafo quente fracções de segundos antes que os seus olhos se apercebessem das fauces que se fecham sobre o seu pescoço.

[Como uma outra vida nas antípodas, a escrita redime o homem dos silêncios a que se entrega]

Dois macacos-de-Gibraltar estão sentados numa rocha a beber chá e a ouvir um relato da Premier League, e avistam dois homens voadores, sustentados no ar por asas que agitam com energia.
- Dédalo e Ícaro, Sir?
- Hum, não creio.
- Talvez venham de Creta...
- Não! Marrocos!

Micro-testamento

O de Rabelais:

«Não tenho nada, e as minhas dívidas são grandes. O resto, deve ser dado aos pobres».

Crónica hipocrática

Hospital Distrital de Caldas da Rainha, dia seis de Dezembro. Uma doença na família, leva-me como acompanhante (pois!) à urgência pediátrica do Hospital. Está à cunha, crianças e mais crianças, aflitas, elas e os pais, febres, tosses, bronquiolites, todos apertados numa sala de espera que se tornou pequena, tossindo e espirrando uns para cima dos outros, os pais estressados por isso, e porque os filhos não são adultos, e alguns ainda arranjavam forças para procurar brincar com as outras crianças e ter birras súbitas e rastejar pelo chão sujo como rambos em miniatura, além de desenvolverem uma propensão exasperante para meterem na boca os brinquedos e a roupa dos outros miúdos. Uma urgência pediátrica com cinco horas de demora entre a triagem e o atendimento médico. No tempo que estive à espera encontrei algumas pessoas conhecidas, comi uma barra de chocolate com cereais, bebi uns três cafés para acalmar, e passei algum tempo na sala de espera da outra sala. Aí, o ambiente ainda estava pior, com uma média de dez horas de espera, com pessoas adultas a fazerem justificadas birras, a escrevinharem testamentos no livro de reclamações e a crucificar verbalmente instituições e forças políticas. Perto da hora em que me vim embora, onze e tal da noite, as conversas cruzadas das pessoas crescidas fizeram saltar para a ribalta um homem idoso que aí estava sentado. Tinha chegado ao Hospital às oito da manhã com dores fortes num ombro, foi à triagem e puseram-lhe uma pulseira verde, e por ali tinha ficado até àquela hora. Porque é que não vai para casa? perguntou um, o idoso respondeu que não podia, estava num Lar e a dona deixara-o ali e dissera que depois passava por lá para ir buscá-lo, mas não tinha voltado a aparecer. Nova pergunta - E não comeu nada? Não tenho dinheiro comigo, respondeu, vim de pijama com o roupão por cima.
Num instante, gerou-se uma onda de solidariedade pelo náufrago, alguém foi buscar à máquina um pacote de bolachas que ele devorou num instante, outro, foi fazer barulho na porta da triagem e logo em seguida o seu nome foi invocado por uma médica. No final, quando eu estava quase despachado, uma senhora informou-se com ele sobre o nome do Lar onde estava a morar e telefonou para lá. Do outro lado, devem ter-se mostrado incomodados, porque a senhora elevou o tom de voz e ameaçou-os com uma inspecção. Não pude seguir a conversa toda, mas suponho que o telefonema tirou alguém do sono dos justos. Apetece uma pessoa repetir o que se ouve com frequência nesses sítios: para se conseguir estar doente, é preciso uma pessoa ter saúde.

Skate sortudo

Da janela de sua casa, via nitidamente a urbanização lá embaixo, do outro lado da rua principal, entretinha-se a jogar no PC, e de quando em vez olhava pela janela, é só acabar de subir a torre e varrer os bichos lá embaixo com a arma de plasma, dois adolescentes exercitavam-se com os seus skates na rua em declive da urbanização, deslizavam sobre eles quase até à estrada, depois saltavam agilmente e seguravam o skate, subindo a rua para encetar um nova viagem, nível oito, nunca chegara ao nível oito naquele jogo, a coisa estava a correr bem, agora o louro de colete, saltou do skate, aparecem os lagartos antropomorfos, toca a disparar, precisa de munições, ali estão, junto ao carro incendiado, apanha-as, setenta e oito mil pontos, sou barra nisto, pensa, agora é a vez do adolescente franzino, aí vai ele, saltou do skate e vai segurá-lo, não, o skate cruza a estrada, milagrosamente passa incólume entre as rodas do carro, sorte do skate que o carro foi travado pelo corpo do rapaz, raios, perdeu a sua última vida, game over, ainda bem que tinha salvo o jogo no nível sete, não precisa de começar tudo outra vez, está de novo pronto, e armado, e já sabe o que o espera,

A Justiça afectada pela dieta

O Juiz corrupto trocou os doces tradicionais, ricos em calorias, pelo Pão de Law.

Dia coerente

Tomou um banho rápido e deixou-se ficar sentada na orla da banheira, com os pés no tapete. Dia mau é assim, uma pessoa levanta-se e não tem vontade nem maldade, é uma esponja caída ao lado da banheira, a ressequir sobre o mosaico, levantou-se mesmo assim e arrastou-se até à sala, ligou as pequenas colunas ovóides ao Mp3 e começou a busca de faixas, não, não, velhinha, sem sal, estou farta desta, esta também não. Toca o telefone, dos antigos, fixo e maciço, umbilicado à parede no outro lado da casa. Atira o Mp3 para um sofá e vai em sua busca, cruza o corredor o mais depressa que pode, pingando água no soalho, e alcança o telefone no instante preciso em que ele deixa de tocar. Raio de dia! Hesita em voltar para a sala, pode tocar outra vez, mas nem põe a hipótese de ligar de volta, quem estiver interessado que ligue. Pousa o telefone e volta à sala mas, à passagem, decide que tem de secar o cabelo, pega no secador, o seu corpo de esponja continua a pingar, e quando vai conectar a ficha na tomada apanha um esticão que a atira para o meio do corredor. O choque eléctrico não é fatal, mas está paralisada de pernas e braços, deitada no chão como uma lagartixa com os membros decepados. O telefone toca novamente e recomeça a arrastar-se, resmungando . "Eu sabia que ia tocar outra vez! Eu sabia!!".

Negócio da esquina

O vendedor ambulante andava de porta em porta, vendia faiança de marca, ouro velho, colchas, relógios importados, livros pornográficos, tintas e terebintinas, pendentes de cortinado, dobradiças de latão niquelado para portas, talheres de cabo de prata, e gatos siameses, em promoção, dois pelo preço de um.

Daquilo que conseguia ver de dentro da loja, por entre as estantes cumuladas de brinquedos e enfeites natalícios, dava para notar que as pessoas se demoravam diante da montra da sua loja, sentiu-se orgulhoso, tinha-a armado com gosto e talento, e aquele cartão-de-visitas iria beneficiar o movimento da caixa. Quando se aproximou para admirar a sua obra-prima, descobriu que aquilo que as pessoas olhavam não era a montra, mas uma menina andrajosa e suja que olhava os brinquedos expostos com olhos grandes de corça. Aproximou-se dela e deu-lhe uma moeda para ela ir comprar qualquer coisa, e quando se viu livre da sua presença, limpou o vidro da montra com um pano, para o caso daquele olhar ter deixado resíduo.

Crisis? What crisis?

- Tenho frio! - queixou-se o banqueiro, mal entrou na mansão.
- Quer que lhe acenda a lareira, senhor? - inquiriu o mordomo.
- Não, manda esfolar um dos criados, porque estou a precisar de um casaco de peles novo!

Um novo início

Durante alguns anos, não gostou muito do Natal, desde o ano da ruptura, nesse, como em todos os anos desde que tinha memória, ela e os pais decoraram a casa no feriado do primeiro dia de Dezembro, foram buscar os enfeites ao sótão, desencaixotaram-nos e armaram a árvore de Natal e, no fim desta estar pronta, o presépio em volta do vaso, como uma paisagem rodeando uma torre de ribate. Ao pai, cabia sempre as tarefas mais técnicas, fixar a árvore dentro do vaso, e segurá-la com um fio de pesca a um camarão na parede, e experimentar e consertar as gambiarras multicolores. Ela ajudava a mãe a colocar os enfeites na árvore e a dispor as casinhas e as figuras do presépio, embelezadas por pequenas pedras xistosas, e musgo verde que se apanhava de véspera. Ao entardecer, todas as decorações estavam prontas, à excepção da coroa de Natal da porta de entrada, o pai disse que a que tinham estava muito velha e desfiada, e saiu para ir comprar uma coroa nova.
Esperou por ele à janela, chovia muito e era engraçado ver as gotas de chuva a criar pequenos círculos na superfície das poças de água. Quando o pai voltou, não vinha sozinho, havia uma mulher dentro do carro, que desembaciou o vidro lateral com a manga da camisola rosa e que espreitou por aí, encontrando o seu olhar com o dela. O pai entrou, afagou-lhe a coroa da cabeça e foi falar com a mãe. Ouviu vozes altas lá dentro, gritos, lamentos. A mulher no carro era loura, e não conseguiu sustentar o seu olhar, virou-se para a frente, como se estivesse encolhida, e a sua figura começou a ficar embaciada como se uma névoa no interior do carro a tivesse engolido.
O pai despediu-se dela com um abraço forte, e saiu de casa. Só mais tarde, veio a perceber que saíra para não mais voltar. Nos anos que se seguiram, só o via de quando em vez, por uns dias, ou em fins-de-semana agendados, e nesses contactos conviveu com a sua nova mulher e acompanhou as duas gravidezes de que nasceram os seus meio-irmãos. A mãe também voltou a casar-se, e o padrasto ajudou a criá-la como um novo pai e, como o pai antes dele, ajudava a mãe nas remodelações natalícias do primeiro dia de Dezembro. Mas, e isso era um ponto de honra para ela, nunca voltaram a colocar na porta uma coroa de Natal.
Quase dez anos depois da separação dos pais, os dois lados da família combinaram passar todos juntos a consoada. As feridas estavam saradas e todos sentiam que isso era importante para os três filhos. Na véspera de Natal, chovia como no dia distante em que os a vida dos pais haviam seguido rumos diferentes. O pai chegou com a mulher e os dois rapazes, que tinham metade da sua idade e da sua altura. Apesar dalgum embaraço de ambas as partes, as coisas correram bem, e a alegria dos mais novos preencheu os nichos de silêncios e equívocos dispersos pelos cantos da casa. Ela viu a mãe conversar à parte com o pai e este sair para a rua; um pouco depois, o pai regressou, trazendo uma coroa de Natal que fora comprar. O pai pediu a sua ajuda, e os dois fixaram a coroa na porta de entrada, com a chuva oblíqua a ensopar-lhes as pernas das calças. Quando abriram a porta, para o interior denso de calor e aromas pantagruélicos, ela sentiu, com um lampejo de euforia, que o Natal entrava com eles em casa.


(Imagem: "Yerres, chuva", pintura de Gustave Caillebotte)

Neófito

Foi iniciado, com rituais rebuscados, numa sociedade secretíssima cujos membros nunca a mencionavam nem revelavam a sua existência, com medo de serem fulminados por um raio. Depois de admitido àquela assembleia de Puros, acedeu a um nível superior de conhecimento transgeracional e de verdades cósmicas, onde ficou a saber que não havia palavras para exprimir o indizível, nem axiomas que fixassem o incognoscível. Mas o núcleo de sabedoria cósmica, oferecido a uns poucos humanos por enviados das estrelas (luminosos, como convém a seres estelares), só lhe foi comunicado quarenta e nove dias depois da sua iniciação, e consistia num curso de voo astral por correspondência, de custos módicos quando comparados aos preços exigidos pela transportadora aérea nacional, ou a exorbitância cobrada pela NASA para voos turísticos orbitais. Desgostado com o rumo da sua aprendizagem, sobretudo, por sofrer de vertigens, entrevistou-se com o Grande Iuminado e, entre duas imperiais e dois pires de tremoços, manifestou-lhe a sua vontade de abandonar a sociedade secreta. O Grande Iluminado, revisor da Carris nos tempos livres, não se opôs à sua vontade, tranquilo como estava por estarem à conversa num bar provido de pára-raios.
O parto da filha foi complicado, deram-lhe epidural, mas não houve grandes progressos, o médico insistia que a criança havia de nascer por ela, e realmente, a menina no seu ventre começou a querer emergir entre as suas coxas, mas a dilatação não era suficiente e nem com ferros a conseguiram tirar. Por fim, vencido pela evidência, o médico optou pela cesariana. Com a mãe numa agonia excruciante, levaram-na na maca até ao bloco operatório, dois andares mais acima, onde o nascimento foi bem sucedido, para a menina e para a mãe. Mal a tiraram de si, e ainda enquanto a cosiam, a mãe pediu para ver a menina. Puseram-na ao seu lado no leito, durante breves segundos, durante os quais ela mal a viu, com a vista toldada pelas lágrimas, de dor e de felicidade. Por fim, levaram-na, por ordem do médico. Cosida e medicada, a mãe caiu num sono profundo. Horas mais tarde, quando acordou com o corpo todo dorido, a enfermeira acercou-se dela e perguntou-lhe se tinha forças para pegar de novo no seu bebé, e ela respondeu afirmativamente, tomada de uma repentina comoção. Trouxeram a bebé e depositaram-na nos seus braços. Ela fez uma cara estranha e afirmou:
- Não é a minha filha!
- Claro que é - respondeu a enfermeira - nasceu de si, e já lhe vestimos as roupinhas que a senhora trouxe de casa.
- Não é a minha filha! - repetiu, entregando a criança à enfermeira - o cheiro é diferente, chamem o doutor e vejam isso.
O médico foi chamado, assim como a médica responsável pela maternidade e um dos seguranças do Hospital. Analisaram a sua queixa, e acabaram por lhe dar razão. Um falha de atenção duma das enfermeiras de serviço desencadeara a troca de bebés. A sua verdadeira filha foi trazida à sua presença, e enquanto os médicos se descosiam em desculpas, ela, com um sorriso doce nos lábios, limitou-se a desnudar um dos seios e levar o mamilo aos lábios rosados da filha.
«Não sou nenhum psicólogo encartado, mas para ser sincero, acho que tu entraste num processo de negação!».
«Não, não, e não! Nego isso também!».

"Deus não dorme" - condescende o céptico - "O medo que Ele tem de estar a ficar amnésico, provoca-Lhe insónias!".

Esquecido num milheiral, o espantalho ficou largado ao vento e à chuva de Inverno. O chapéu de palha caiu, à cabeleira de feno roeram-na os ratos, e o seu tronco partiu-se em dois como se um raio o tivesse atingido. Quase parecia uma urze ou uma oliveira-anã. Um pardal fez do seu casaco a sua casa, e com aquela ave no seu peito, o espantalho espantava o frio e ia recuperando o orgulho perdido.

Inflação

Os relógios para portão de cemitério estão pela hora da morte.

Estavam sentados os dois no piso de Restauração do Centro Comercial, a comer pizza quente.
"Estou cansada da nossa relação" - desabafou ela - "acho que devemos dar um tempo".
Ele saltou da cadeira como se tivesse sido impelido por uma mola, e saiu a correr pelo meio das mesas. Passados uns minutos, voltou com um sorriso nos lábios. Ela ainda estava sentada na mesma cadeira, e ele estende-lhe o relógio que foi comprar.

cilarca

Virando costas à chuva, encapelado sob a sua capa impermeável, mete as botas ao caminho, e vai à cata de cogumelos. Com o queixo encostado ao peito, evita que lhe escorra pela cara o pingo-pingo da orla do capuz. Sabe onde procurar, os lugares menos batidos e os solos mais gratos. Só colhe uma variedade de cogumelo, uns grandes, esbranquiçados, ainda que saiba distinguir sete ou oito espécies deles que não são tóxicas. Em pouco mais de uma hora, já encheu o saco, e enceta o regresso, evitando as poças de água e os bocados mais lamacentos do solo do pinhal. Quando está a chegar ao lugar onde deixou o carro, vê um outro colector, a apanhá-los na berma da estrada, parece saído dum filme do Senhor dos Anéis, capa de tecido grosseiro até aos pés, rosto enrugado com longas barbas, faces manchadas. Nota que o homem os colhe a esmo, mesmo os venenosos. Aproxima-se dele, com receio de que a ignorância dele tenha consequências funestas.
- Esse é venenoso - Diz, apontando para um cogumelo que ele segura, de chapéu cor-de-laranja.
Ele ergue os olhos, baços como vidro fosco, parece cego, e não dá sinais de ter compreendido. Deve ser mouco também, considera.
- Venenosos! Maus! No good! - Grita-lhe.
O estranho enfia o cogumelo no saco de linho, vira costas e continua a colher cogumelos com uma foice pequena e dourada, os pés nus enterrados na lama da valeta.
Encolhe os ombros e deixa-o à sua sorte. Alcança o carro, que está parado a meia dúzia de metros, a meio da descida, e refugia-se no seu interior. Quando liga o limpa-párabrisas, não consegue avistar o homem. Desengata o carro, e deixa-o deslizar em ponto-morto. O homem parece ter-se evaporado. A primeira ideia que lhe ocorre é que possa estar estendido na valeta e, resmungando, volta a sair do carro para verificar. Não o vê em lado nenhum. Quando perscruta a valeta ao lado da estrada, no ponto em que o deixara, distingue um brilho dourado na água barrenta que corre na valeta. Só pode ser a foicinha, pensa, mas do homem, nem sinal. Pragueja contra a burrice das pessoas, e salta lá para dentro. As mãos seguem o olhar e tenta apanhar a foicinha, sente o fio da lâmina a cortar-lhe ao de leve um dedo, mas quando retira a mão da água, o que tem seguro entre os dedos é um bocado de pedra, curvo e do tamanho da foicinha, mas pedra bruta, castanha e rugosa, quando muito, uma pequena escultura, um capricho da Mãe Natureza. Olha em volta, confundido, e ao seu lado, numa rocha que sobressai do solo do pinhal, vê numa outra pedra uma coisa igualmente estranha, a silhueta de uma pegada impressa na rocha dúctil, olha e volta a olhar, e parece mesmo uma pegada, o contorno nítido do pé e as impressões arredondadas dos dedos. Pousa a pedra recurva na água e sai da valeta. Ela brilha outra vez, com reflexos de ouro. Encaminha-se para o carro, tentando pensar apenas no saco com cogumelos e no pitéu que a mulher vai preparar com eles. Quando o carro desliza novamente pela estrada, parece-lhe ouvir uma voz, mas não quer prestar atenção. Liga o rádio, alto, e começa a acompanhar com um assobio, a voz monocórdica do locutor.

Gerir uma casa nocturna requer muita fibra e visão, sobretudo para escolher os empregados, os que fazem o serviço à porta, com mais caparro, e todos os outros, da manutenção, do bar, os protagonistas do entretenimento e os que ficam encarregues de guardar o dinheiro e cobrir as despesas. Marco tinha fibra e visão, mas também tinha as suas manias, todos os elementos da sua equipa o sabiam. Aos caloteiros, e os que armavam bronca, aos putos armados em espertos e aos que incorriam no seu desagrado, clientes ou empregados, ele gostava de lhes dar pessoalmente o correctivo. O alegado transgressor era escoltado até um anexo ao lado da garrafeira, onde o trancavam, e quando o movimento amainava, o big boss ia até lá e aliviava o stress, enterrando nele os seus punhos e a biqueira das botas pretas. Naturalmente, que o objecto dos seus mimos se encontrava manietado, ou imobilizado por um dos seus homens. Raras vezes saíam dali em bom estado, quando não levavam alguns ossos partidos para a urgência do Hospital onde um dos seguranças o largava como se o tivesse encontrado no meio da rua. Marco fazia gala nas suas sovas terapêuticas, e gostava de convidar amigos para assistir, dando-lhes a oportunidade de o ajudarem na tarefa da maneira mais adequada às fantasias e inventividade de cada um, em sessões animadas por álcool e drogas à discrição.
Quando Marco foi baleado na cabeça por um adolescente, a comunidade ficou em estado de choque, Marco, a figura pública, adulada pelas mulheres e pela objectiva das máquinas, morto cobardemente por um projecto de homem, e ainda por cima, feio como as cobras, com aquela cara de susto listada de profundas cicatrizes encarniçadas.

Um dos prazeres simples que ela não dispensava, era quando o seu namorado lhe fazia cafuné no cabelo. Encostava-se a ele como um bebé se deita no regaço da mãe, e ele fazia-lhe cafuné, os seus dedos passeavam-lhe pelos cabelos em dóceis torvelinhos, por vezes, separando apenas os cabelos e fazendo-os ondular entre os seus dedos, outras, imprimindo uma suave pressão na pele com as papilas dos dedos, passeando-as por toda a cabeça (delícia maior quando se demoravam nas têmporas). Era uma arte que ele havia desenvolvido com entrega e paixão, fazendo-lhe cafuné nos seus momentos de relaxamento com ela, ou, exercitando com a sua cabeleira quando os dois não podiam estar juntos.

Um instante de arrebatada alegria, de espasmo luminoso - as fotografias de grupo. Da escola, da excursão de finalistas, da viagem de estudo, de plêiades de casamentos e baptizados, do grupo de amigos ou colegas que participou num torneio de futebol, que desceu às grutas, que se mascarou, que desbundou.

Frias, tornam-se tristes, quase sinistras, o nosso reflexo parcelar num espelho estilhaçado, e quando as vemos há quase sempre alguém por perto para acordar os fantasmas, como um corvo a corvejar num cemitério.

Lembras-te deste, era o Chaves, namoriscou com a tua irmã e depois casou no estrangeiro antes de lhe acontecer aquilo, e aqui, a Laura, era metade do que é hoje, vi há dias o irmão dela, coitado, antes tivesse engordado, olha o Fancisco, tinha menos um ano que tu e...

Estás só, era bom não te lembrares que estás só.

...e a Rute, o que é feito dela? Sabias que me disseram que ela é lésbica? Não devias ficar tão chateado por ela ter saído de casa. Ao lado dela está um dos filhos do Saraiva, não me lembro o nome, mas disseram-me que a Rute fugiu para ir ter com ele, olha, vamos mudar de assunto, sabes quem é esta que está ao lado do nosso professor de Ciências? Tenho certeza que é a Mafalda, ela...

Arrancamos com a nossa vida como se partíssemos para umas férias num lugar longínquo, e levamos as malas carregadas, de acessórios e de sonhos, de prosaicas utilidades e de quimeras indefinidas que envolvem, como uma crisálida, uma vaga e aquosa esperança. Temos bagagens que cheguem e que sobrem para a estadia, e julgamos que, com os dias, se irá aligeirar o peso que arrastamos connosco, na razão inversa da nossa felicidade e das alegrias que a viagem nos poderá proporcionar. Mas a viagem de volta é igual, estamos cansados e trazemos o mesmo peso, as nossas leituras de viagem estão esgotadas e não temos forças para mais uma fotografia, um sorriso ou uma laracha, as nossas roupas e haveres estão revolvidos e amarfanhados em sacos de supermercado, de modo semelhante às nossas ideias e sentimentos, que são como fatos velhos dobrados e calcados no fundo da bagagem, a ponto de nos esquecermos deles.
É chegada a hora de regressar, arrumar e lavar as coisas, para descobrir o que trouxemos e retemperar forças. Quando começamos a desempacotar as malas, para que a memória e a experiência da viagem se cumpram em nós, vem a morte e apaga a luz.

Criptozoologia

Os Criptólogos pertencem ao Reino animal, Classe dos Mamíferos, da Ordem dos Primatas, Família dos Hominídeos.
Mas esta classificação é controversa, havendo quem defenda outras variantes, em função de estudos de natureza científica que pretendem agrupá-los na ordem dos Rodentia (Espécie Rattus Bibliothecus); ou Artiodactila (Espécie Taurus Marronus); ou na Ordem dos Perissodáctilos (Espécie C. Kaballistus).

Violência na Era da Cibernética.

- Levas um tabefe, que nem sabes a quantas andas!
- Espere um pouco, deixe-me fazer um backup, não vá você danificar algum ficheiro.

Desde os seus quinze anos que deixou de ir a estádios de futebol. Cansou-se, das caneladas, do apito do árbitro, de ser rasteirado e rolar no piso de terra batida, enquanto os dois bêbedos da terra assobiavam com alegria, a gritar a plenos pulmões que ele andava a atirar-se para a piscina.

Inverso

O flic-flac, é um exercício de ginástica interdito à raça dos gigantes. Para não serem confundidos com moinhos, e sofrerem o ataque da raça de D. Quixote.

Uma dependência crescente foi unindo o papagaio vivaz ao seu dono, este pronunciava ou soletrava uma palavra, e ele repetia-a como um eco fiel, quase uma gravação. E isto com tudo, com um estalido da língua, o menear da cabeça, um bocejo arrastado, ou um praguejar extemporâneo. Essa repetição foi tornando os dois cada vez mais parecidos e eram até, mais parecidos do que alguém poderia imaginar. É que o dono, como um pássaro, também acabou por levantar voo, e o seu papagaio, ansioso por imitá-lo, agitou e esgarçou as asas dentro da gaiola, impedido que estava de alçar o seu voo desde o terraço do prédio.
Para iludir o frio, que o Inverno não dormia, entreteceu-se a compor cadências e poemas com o calor dentro, um catamarã sulcando as ondas entre as ilhas dos Maoris, a batida mítica e ritmada de um batuque africano, o sol do deserto na pele de uma iguana, a pele da amante de outros dias, que dormira entre os lençóis, aninhada junto ao seu peito.
Entreteceu-se e entrecoseu-se, e o calor palpitava como as brasas, descosturando os fantoches dos medos. Liberta do frio, abandonou a cama de jornais onde dormia e dançou nua sobre a neve do parque.

Andava a recolher do chão folhas meio-amarelecidas, para as prensar dentro de livros e obter um Outono bidimensional. Absorto nesse mata-tempo, sentiu uma joaninha pousar-lhe no pulso. Repugnou-a a vermelhidão do insecto, aquela criatura-labareda queimava-lhe a vista. Fechou os olhos e esmagou-a com uma palmada e, sempre com os olhos fechados, pegou nos seus restos viscosos e juntou-a à colecção de folhas. Tudo desfalece e perde a cor, pensou, aquela joaninha seria uma evocação sépia de si mesma no momento em que secasse sobre uma folha no ventre de um livro. E ia visualisando o quadro, quando viu a passear diante dos seus olhos uma menina ruiva de vestido berrante de motivos florais e coloridos.

O novel pároco desaguara no Clube Recreativo da terra para uma partida de sueca, mas não encontrou parceiros, e ficou-se pelas paciências numa mesa de canto, salvo da monotonia por uma taça de conhaque. Foi nessa mesa que o farmacêutico o surpreendeu, sentando-se ao pé dele com ares de conspirador.
- Gaivotas em terra...estás com alguma crise de vocação?
- Não, infelizmente para ti. Vai um jogo?
O outro aceitou, o clérigo baralhou e deu as cartas.
- É a tua vez de jogares.
Bateu uma carta no tampo da mesa.
- Sabes que eu andava justamente à tua procura? Tive um sonho estranho a noite passada!
- Jogue!
- Estava a dormir e tive uma dor no peito, não sei se morri, mas senti-me como se tivesse tido uma experiência religiosa.
- Logo tu, que sempre foste positivista e anti-clerical, que idolatra o Voltaire, e mofa do Padre Eterno como o Junqueiro. Deve ter sido o pior dos pesadelos!
- Não, foi muito interessante, senti que estava a descolar-me do corpo, que saía de mim, mas não tinha uma alma somente, mas três almas diferentes. Não eram os egípcios que acreditavam que tínhamos três almas?
- Sim, vejo que estudaste o livro de Drioton que te emprestei. E como eram essas almas?
- A primeira era a mais caseira, e ficou Ká, a segunda seguiu-lhe o exemplo e Aqui ficou. Só a terceira é que hesitou se ia, se ficava.
- Porquê? É a tua vez de jogar.
- A terceira alma era mais como eu, gostaria de ter viajado, de subir os Alpes e assistir a uma dança do ventre em Marraquexe, de ter um hárem ou, pelo menos, duas ou três odaliscas no séquito. Mas depois, olhou em volta, viu mais um velho crédulo deitado numa cama e, sufocando o riso, abriu a bocarra desdentada e exclamou: "Bah!".

Torneio

Com uma lâmina de barbear, e uma laçada de corda de nylon, e venenos, foi jogando com a morte.

Começou o primeiro jogo com uma mão cheia de trunfos, acabou o último a jogar à mão morta.

Biscate

O amigo recebeu-o junto à porta do apartamento. Pousou a mala de ferramentas e apertou-lhe a mão.
«Preciso da tua ajuda para um trabalho que exige discrição e infinitos cuidados. Recorro a ti porque outros poderiam sentir-se tentados a comentar o que se passa cá dentro, e a última coisa de que preciso agora, é da curiosidade de vizinhos e estranhos».
«Sê directo? Que trabalho?»
«O meu apartamento é um pouco acanhado, tem pouco espaço para arrumação. Agora, mediante uma soma razoável, consegui alugar um espaço para arrumação nas águas-furtadas, e precisava da tua ajuda para levar para lá uma coisa...»
«Mobília? Um piano?».
«Não, a minha culpa!»
«!?»
«Acredita-me, pela amizade que me tens, acredita no que eu te digo, preciso que me ajudes a levar a minha culpa para as águas-furtadas. A princípio, ela era pequena e cabia em qualquer canto do apartamento, dentro de um roupeiro ou numa gaveta qualquer, mas, nos últimos tempos ela tem crescido de forma vertiginosa, e quase não me consigo mexer cá dentro. Ainda por cima, tenho medo, é que eu, para ir de uma divisão para outra, tenho de passar junto a ela, que está sempre pronta a morder ou roer».
«E é só pôr-lhe um açaimo e levá-la por aí acima?».
«Não, não cabe na porta da entrada, é demasiado grande. Receio que teremos de partir uma parte da ombreira da porta para o fazer, então sim, penso que é possível...».
«Desculpa amigo, mas não vou poder, tenho outros serviços e empreitadas urgentes. Se fosse uma coisa rápida, podias contar comigo, mas isso é trabalho para um dia inteiro. Mas dou-te uma sugestão profissional. Se bem me recordo, o acesso para a tua varanda faz-se por portas de aro de alumínio, daquelas que é só desencaixar e tirar. Em vez de andares a partir paredes, porque não arrastas a culpa até à varanda e a atiras dali?».
O amigo pareceu ponderar as conveniências desse processo.
«Sabes que essa foi uma das ideias que já me ocorreu, é viável mas não estou muito seguro de ser bem sucedido. É uma operação arriscada, porque ela, de certeza, que me vai tentar arrastar na queda...»
«Mais não posso fazer. Se quiseres, deixo-te algumas ferramentas e alagas a parede, depois chamas-me e fazemos o transporte».
«Obrigado, sabia que podia contar contigo. É isso que eu vou fazer, se não morrer esmagado antes!».



De Henry Chinasky, aliás, Charles Bukowsky:

«Não sou um pensador. Cada mulher é diferente. Fundamentalmente, parecem ser uma combinação do melhor e do pior - ambas as coisas, mágicas e terríveis. Portanto, estou contente por elas existirem».

«(...) As pessoas sem moral consideravam-se muitas vezes livres, mas sobretudo, eram incapazes do mínimo sentimento ou de amor. Por isso eram despreocupadas. Os mortos a foderem os mortos. Não havia nem risos nem amor nos seus jogos - era um cadáver a foder outro cadáver. As morais eram restritivas, mas enraizavam-se, mesmo na experiência humana de várias gerações. Algumas morais tendiam a manter as pessoas como escravas nas fábricas, nas igrejas, e levavam-nas a acreditar no Estado. Outras morais faziam mais sentido. Era como um jardim cheio de frutos envenenados e de frutos sãos. Tínhamos de saber quais devíamos colher e comer, e em quais não tocar».

(Charles Bukowski, "Mulheres", tradução de Fernando Luís, Publicações Dom Quixote, 2001)

O tempo não nos chega

Andou ao acaso por entre as estantes, como se procurasse a saída do labirinto (o silêncio rugia à sua volta como o lamento surdo de um Minotauro).
«Precisa de ajuda?».
Uma funcionária, prestável e sorridente. Apertou entre as mãos o boné, e estendeu-lhe a mão.
«Bom dia, minha senhora. Deram-me agora o cartão da Biblioteca, eu não tinha coragem de pedir um cartão antes, é que eu tenho setenta e três anos, e só aprendi a ler há dois anos, com a ajuda do senhor meu pároco».
«E agora quer requisitar uns livros para ler, não é?».
«Sim, minha senhora, eu sempre gostei de ver programas de televisão sobre História, sempre tive vontade de ler, mas não sabia».
«E que temas lhe interessavam?».
«Muitos, a Arca da Aliança e o Templo de Salomão, a Revolução Francesa, os Maçons...».
«Venha comigo, vou separar alguns para o senhor escolher».
Ela guiou-o por entre o dédalo de livros até uma estante de topo. Puxando de uma carreta de livros, começou a empilhar sobre o tampo os livros que versavam os temas apontados.
«Minha senhora!».
«Sim?».
Ele esfregava novamente o boné entre as mãos, olhando com um misto de alegria e profundo desalento, a pilha de livros que se formara diante de si.
«Eu sei que sou uma pessoa com saúde, graças a Deus, mas assim, olhando apenas para mim, a senhora acha que eu sou capaz de viver até aos cento e vinte anos?».

Entente Cordiale

À noite, o cunhado de Santiago ligou-lhe e confirmou as notícias que se esperavam. Estava tudo acertado, o contrato de trabalho no estrangeiro, e as datas estimadas. Daí a uma semana ele ia ter a casa de Santiago e partiam para Lisboa para apanharem o primeiro voo que houvesse.
Uma semana! Santiago não queria trabalhar mais uma semana, precisava passar algum tempo com a família antes de mais uma aventura no estrangeiro, e por isso, estava decidido a iniciar de imediato as suas pequenas férias. Trabalhava como vendedor-distribuidor de uma Pastelaria. No fim da distribuição, foi aos pequenos escritórios, e pediu para falar com o gerente, um homem de setenta anos que o empregara quando ele voltara desasado de um contrato falhado em Itália.
- Senhor Ramiro - começou de pronto - Vou-me embora, hoje foi o último dia que trabalhei aqui, faça as minhas contas que, amanhã ou depois, a minha mulher passa aqui para vir buscar o cheque.
- Mas, Santiago, assim, de um momento para o outro? Há a volta, os clientes, você podia esperar uns dois dias e instruir alguém para o substituir.
- Não quero saber! E quer saber porquê? Porque você é uma pessoa que me faz espécie, um fraco, sem decisão nem carácter. Não tem coragem para enfrentar ninguém, e não teve a decência de me aumentar o ordenado quando eu lhe pedi. Você não merece um empregado como eu, e quer saber mais? Daqui a uma semana, vou para o estrangeiro, ganhar três vezes mais daquilo que me pagavam aqui, e não vou ter de lidar todos os dias com um velho xexé como você, exemplo acabado do portuguesinho provinciano e medíocre.
Aliviado do seu peso, voltou para casa, ufano e valente, saudou todos na rua com grandes abraços efusivos, contando-lhes à porfia, detalhes da sua viagem iminente.
Em casa, anunciou à mulher que iam todos jantar fora, e enquanto o pessoal se preparava, toca o telefone. Era o cunhado. Tinham dado com os burros na água, não havia contrato nem viagem. Podiam continuar a tentar, e talvez para a próxima a coisa resultasse melhor. Santiago sentiu os tomates caírem-lhe ao chão. Desculparam-se com a crise, explicava ainda o cunhado, não te chegaste a despedir, pois não? Não! Exclamou Santiago, e não mentia, tinha a certeza disso, não chegara a despedir-se, fora apenas uma conversa menos tranquila, coisas que um homem diz a outro quando o dia lhe corre menos bem.
Na manhã seguinte, às oito da manhã, a hora habitual, Santiago entra pela Pastelaria como sempre fizera nos dois últimos anos, confirma as quantidades encomendadas de véspera, e carrega a carrinha, a assobiar como um pardalito como se nada se passasse. Ramiro, o gerente, fica de queixo caído, mas não chega a reagir, como se não se tivesse passado nada.

Adaptação

Do que a Ministra da Educação faria se fosse o Pai Natal:
- Entraria por todas as chaminés, para pôr uma pedra no sapatinho.

«Esta é a primeira vez que vocês, pais, se juntam, e é por uma boa causa, a festa de Natal dos vossos pequenos heróis».
Ouvia, distraído, a voz da educadora de infância. Os pais todos, reunidos e pouco à-vontade. Não sentia especial curiosidade pelos outros, mas sentia que pelo menos metade deles se aplicava a estudar os presentes com afinco, examinava, julgava, classificava.
Estavam todos sentados em roda nas cadeiras do ginásio improvisado, dito de outro modo, viam-se todos uns aos outros, era uma exposição de gente como a dos mercados de escravos, avaliava-se os corpos, as roupas, se os dentes tinham falhas, se existia alguma deformidade física.
A educadora guiava-os pelos itens que lhes queria falar, as crianças iam fazer um teatrinho, não quereriam os pais seguir-lhes o exemplo, e cantarem uma canção ou actuarem numa pequena peça?
Sentiu-se observado, intensamente observado. No outro lado da roda, um casal de mão dada. Ela observava-o, um rosto muito afilado, como se tivesse sido apertado nos mordentes dum torno, a boca era um traço fino mas, os olhos, pelo contrário, eram enormes, e não se despegavam dos seus pés. Apercebeu-se porquê. Trouxera os seus sapatos de rua, não aqueles com que saía à rua, mas os que usava para as pequenas tarefas do jardim e quintal, dar comida aos animais, tapar as gaiolas dos pássaros, transportar lenha para junto da lareira. Mudara de roupa à pressa e esquecera-se de calçar outros sapatos.
«Teatrinho ou canção? Vamos a votos? Alguém tem outra sugestão? O senhor pai, aí, com o braço levantado - qual era?».
A mulher de olhos de sapo tentava olhar para a educadora, para o tecto, para longe, mas o seu olhar voltava sempre aos seus sapatos sujos e velhos, poderosos como ímanes. Para aquela mulher afectada e pretensiosa, ele reduzia-se aos sapatos velhos, não tinha espírito ou essa coisa a que chamam alma, não sentia, não fiava, não lia e não criava. Aquele par de sapatos era o que retinha do seu rosto e da sua natureza, um par de sapatos com uma filha no infantário, coisa inaudita!
«Então, é a canção! Tinha uma ou duas sugestões para o tema, mas se tiverem outras, agradecia que as exprimissem!».
Estava a passar-se, tinha vontade de esfregar os sapatos na cara daquela mulher, ou então, o que era melhor, quando todos estivessem a sair à porta, arranjava maneira de estar junto dela no molhe de gente, e, com um toque discreto, pregar-lhe uma rasteira e espetar com ela no chão. Talvez passasse despercebido, ou só ela notasse e, mais tarde ou num outro dia, lhe dissesse, com voz áspera: «A sua filha sai a si, resolve as coisas a pontapé e à dentada!».
«Então fica assente, já temos uma canção vencedora, e de hoje a uma semana voltamos aqui para o primeiro ensaio. Obrigado a todos vocês, pais, em nome da escola e em nome dos vossos filhos».
Começaram todos a levantar-se, tomou atenção à mulher, ainda que tivesse perdido o seu ímpeto de a agredir. Mas esta, em vez de se dirigir à saída, caminhou em direcção a si.
«Não sei se o senhor se sente confortável - disse num murmúrio - mas tem os sapatos calçados ao contrário!».


Eram gémeos siameses, e suscitaram a curiosidade geral; primeiro, sendo gémeos, até nem eram muito parecidos, depois, nem estavam juntos, soldados em nenhuma parte da cabeça ou dos membros, e nem mesmo andavam habitualmente pelas mesmas divisões da casa, porque os dois procuravam cultivar a distância entre si. Eram um caso insólito, e difícil de compreender, parecendo que só tinham vindo ao mundo para derreter os miolos dos investigadores.
Gata que os pariu!!

Outras andanças

A Comunidade Espiritual, um portal rico e diversificado onde principiei a participar com um ou outro artigo ou tópico, assinado com o nick de Sonhâmbulo. É uma experiência nova, como foi um dia a dos blogues, e as palavras custam a aparecer, mas espero conseguir melhorar, aprendendo com a prática e com os outros.

Encruzilhada

A mãe esperou que chegasse a sua vez. Depois da priminha e marido, do colega de Faculdade e namorada, foi a vez dela posar para a fotografia com o filho e a mulher, junto ao altar decorado com flores. Deu-lhe o braço, sorriu para o fotógrafo, uma, duas, três fotografias, e ela sussurrou para o filho. «Preciso de falar contigo, antes de irmos todos para o restaurante». Ele concordou, e não se esqueceu do recado. Quando a maratona fotográfica acabou, ele foi ter com a mãe.
«O que me querias?»
«Sabes, o teu pai, que já não vês há doze anos. Pedi-lhe que viesse cá hoje, para te desejar felicidades. Ele arranjou uma brecha no meio da sua vida no estrangeiro e das suas viagens constantes, e está lá atrás, no último banco da igreja!».
O seu rosto iluminou-se, olhou para o fundo da igreja, e reconheceu o pai pelas fotos de álbum, mais velho e de cabelos brancos e, naquele momento acenava-lhe de sorriso aberto, em pé, entre dois homens altos.
Correu até ele, e deram um abraço forte. O pai chorava sem remissão.
«Que alegria, pai, porque não veio antes, podia ter tirado fotos comigo. Olhe, esta é a minha mulher, Cláudia, a futura mãe dos seus netos. Vem connosco para a boda, não é?»
«Não posso, Pedrito, dentro de uma hora tenho voo marcado para Inglaterra, e também não gosto de fotografias, não sou bonito como tu ou a tua mulher. Mas tinha de estar aqui hoje, não me perdoaria se não estivesse, nem que fosse só um minuto».
Conversaram um pouco antes do fotógrafo os interromper, apelando para a presença dos recém-casados nas fotografias de exterior. Deram um novo abraço, e despediram-se, e o filho desapareceu na luz da entrada, ladeado pela mulher que lhe enxugava as lágrimas com uma ponta do véu. A mãe do noivo seguiu-o, cruzando um olhar significativo com o seu antigo companheiro. Este sentou-se pesadamente no banco, enquanto um dos dois polícias que o ladeavam soltava a algema que unia um dos seus tornozelos ao do preso.
«Vamos voltar para a nossa casinha?»
«Podemos esperar um pouco até as fotos acabarem? E também não tenho pressa, tenho mais dez anos para estar lá!».

Comuna

«Tens fêmea?». Perguntou-lhe Gisela, a nova colega de trabalho, na pausa para o café. «Não!», disse, sem entoação nem intenção. «Hoje vou contigo para tua casa. Se quiseres, posso lá ficar a noite!». Concordou. À saída, ela esperava-o. Sentou-se ao seu lado no carro e foi com ele. Mostrou-lhe o apartamento onde morava, e ela gostou, da cozinha moderna, da sala toda equipada, do elevador futurista do prédio e, sobretudo, da cama enorme com quatro por dois metros. Tiraram uma pizza do congelador, aqueceram-no no forno, e comeram-na, acompanhada com um garrafa de tinto que ela descobrira, cheia de pó, no vão das escadas. Ela tirava medidas à casa, planificava as coisas, estimava os espaços. Nessa noite, ela levou-o para a cama e fê-lo passar um bom bocado, tirando um pouco o cheiro a bolor do seu pénis. Na manhã seguinte, deitados preguiçosamente na cama, a comer o pequeno-almoço que ela havia preparado, ela expôs-lhe o seu drama pessoal. Tinha, na cidade, a irmã adulta e a mãe sem tecto, a viver de favores de pessoas amigas, dormindo uma noite num sítio e a seguinte noutro. Tinham deixado tudo em Florianópolis, e gasto todo o dinheiro que tinham nas passagens de avião para Lisboa. Será que não podiam ficar todas as três com ele? Iria ser bom, e ele nunca se arrependeria. «Só tenho um quarto!». Ainda objectou ele, mas Gisela já não o ouvia. Estava tudo planeado. Fez umas chamadas, e uma hora depois, a casa estava mais preenchida, com a irmã, , uma jovem gorda como um hipopótamo, e a mãe delas, uma mulher de meia-idade, agitada como uma folha por tremuras incontroláveis. A bagagem era simples, uma mala velha e esgarçada, a abarrotar de roupa, e o resto dos haveres em trouxas, improvisadas com lençóis de pontas atadas. Instalaram-se enquanto os dois pombinhos tomavam banho e fodiam na banheira. Na hora de deitar, não houve hesitações - dormiam todos na mesma cama, era enorme, e conseguiam arrumar-se todos nela. E tudo às escuras. Naquela noite e nas que se seguiram, as coisas ficaram um pouco confusas. O leito era tumultuado por movimentos e operações nada transparentes. Ele era solicitado para manobras amorosas, puxado para o anelo de coxas desconhecidas, ou sentindo esfregar no seu rosto um tufo de pêlos púbicos a exigir homenagem, e no fim, nunca sabia a quem devia a atenção, e só estava certo disso quando calhava a vez da matriarca, elucidado pelos seus tremores característicos. Outras noites, tinha a sensação de que havia muita gente em cima da cama porque ouvia vozes e guinchos estranhos, mas quando acendia a luz, só divisava as três mulheres, dormindo ou em transe, com espuma a escorrer-lhes dos lábios. Aquele arranjo parecia servir a qualquer uma das três na maior parte dos dias, à excepção de alguns em que discutiam entre elas como se disputassem um hamster e, como efeito reflexo, e para serenar o ambiente, faziam-lhe a cama no chão da sala, e extraditavam-no do colchão gigante. Nem mesmo assim, ele se sentiu tentado a abortar o arranjo. Nem quando notou que as três mulheres nunca se mantinham iguais, antes pareciam trocar entre si as suas identidades, as vozes que saíam das suas gargantas pareciam emprestadas umas das outras, outras notava que Gisela ou a irmã pareciam ter envelhecido décadas numa noite enquanto a sua mãe ganhava cores e lisura de pele, e o seu olhar tornara-se vivo e apaixonado.
No trabalho, Gisela tratava-o com uma crescente intimidade, como se fossem recém-casados, e foi num desses momentos de ternura, quando lhe levou ao gabinete um café e um donut e lhe cobriu a calva de beijos, que lhe deu a novidade: tinha acabado de chegar a Lisboa o resto da família de Florianópolis, eram só seis familiares. Será que...
Negou-se, não os queria, e pediu-lhe também que pensasse em sair do seu apartamento, ela e a famelga. Ela fez uma beicinha, e soltou algumas lágrimas, mas acabou por aceitar.
Nessa tarde, Gisela não voltou com ele, também não estava no apartamento, para ser rigoroso, nada estava no apartamento, que tinha sido limpo de alto a baixo, não tendo ficado para trás um único bibelô ou peça de mobília. No fundo, já o esperava. A irmã de Gisela andava a fazer olhinhos a um celibatário como ele que morava dois andares mais acima, e nesse instante, deviam estar a instalar-se lá, com a nova mobília.
Sem despeito nem rancor, contactou uma loja de ferragens para lhe irem mudar as fechaduras, e saiu do apartamento para comprar fita de calafetar. Estranhas como aquelas mulheres eram, podiam tentar voltar a entrar no apartamento por debaixo da porta ou pelo buraco da fechadura, transformadas em névoa quente ou lava.

Ligações preguiçosas

Raul e os amigos tinham poucas coisas em comum, os lugares onde trabalhavam, os interesses e afecções, ou as preferências e antipatias, tudo diferia; nem os clubes de futebol da sua simpatia, ou a fraternidade obtusa das respectivas filiações políticas, ofereciam matéria para longas conversas ou debates. O máximo denominador comum de todos eles, é que eram pessoas desenraizadas, sem laços, tinham família, pais, mulheres e filhos, mas fugiam a estar com ela. Encontravam-se ali todos os dias, na mesma mesa do mesmo bar, bebiam cervejas uma atrás da outra, fumavam, falavam ao acaso e nem sempre sobre as mesmas coisas, por vezes, escapuliam-se para as traseiras para enrolar e fumar um charro, e voltavam ali para mais umas cervejas, ou um uísque ocasional. Raul achava que era uma rotina estúpida, e dava consigo a pensar que não sabia o que continuava a fazer ali. Mas quando se despediam, às horas do fecho do bar, ele e os amigos usavam os mesmas expressões de sempre: - Até amanhã! - Amanhã à mesma hora! E voltavam a casa, satisfeitos, como se estivessem felizes.

Olhos

Nunca via o mesmo quando olhava pelas janelas da sua casa, através delas, de dentro para fora, tudo mudava em segundos, a cor das folhas, o voo dos pássaros, a aparente quietude dos edifícios de pedra, ela maravilhava-se com esta mutação contínua, por vezes, distinguia mesmo outras formas por entre as formas do mundo, pessoas que andavam em lugares improváveis, na vertical das paredes ou a uns palmos do chão, sombras vagas como de serpentes aladas, silhuetas de pirâmides ou pagodes a insinuarem-se sobre a linha dócil das colinas. Um dia viu-se a si mesma, ou o que parecia ser a sua imagem, com a saia roxa e a blusa de cetim, e o chapéu largo a espanejar sobre os seus cabelos soltos, viu-se a andar pelo jardim e sair pelo portão da rua, com uma mala na mão. Não sofreu nem sentiu receio. Tudo mudava em segundos, sentiu que estava a chegar a sua hora de partir, e viver de alguma forma no outro lado da janela.
Ela acordou de madrugada com o corpo dorido, dobrado e quebrado no assento do carro. Limpou os vidros embaciados com uma ponta da camisola presa entre o indicador e o pulso, e lembrou-se que tinha o carro estacionado junto ao hipermercado. Cheirava mal, a vómito e urina, inclinou-se e anichou a cabeça entre o volante e a porta e confirmou as suspeitas, mijara-se, ainda que não tivesse noção alguma das circunstâncias. Ao seu lado, o pastor evangélico ainda dormia, um polegar enfiado na boca como uma criança de colo e o crucifixo preso entre as pernas, pensou que aquilo devia ter alguma conotação freudiana, e sentiu vontade de lhe vomitar em cima, mas acabou por abrir a porta e vomitou antes na jante duma roda, logo, acocorou-se ao lado e mijou com gosto. Ficou melhor, apesar do fel na boca e da cabeça que lhe doía como se lhe tivessem aplicado um murro. Precisava de um banho, mas a sede era maior. Descobriu uma garrafa ao lado dos pedais, sem tampa, mas deitada, com um resto de precioso líquido a marulhar, ajoelhou-se e levou-a à boca, sorvendo-o até à última gota. O som abafado da garrafa plástica a saltitar no alcatrão acordou o seu companheiro. Ela dirigia-se para a mala do carro, e ele percebeu a intenção. Saltou do banco do pendura e tentou agarrá-la e impedir os seus movimentos, de caminho, apalpou-lhe as mamas e o rabo, e a sua distracção permitiu que ela conseguisse o que queria, rasgar o pack de garrafas de água de litro e meio, e meter uma à boca entre os gritos desesperados do filho de Deus. Bebeu-a quase toda de enfiada. Como ele não a largasse, ela despejou-lhe o resto da água em cima da cabeça, e depois arrependeu-se porque era mal empregue, e enquanto as orações e os exorcismos afloravam à boca do pastor como baba epiléptica, a sua ovelha tresmalhada conseguiu soltar-se e, na sua sofreguidão, deitou-se sob a torneira da lavagem de carros e abriu-a em fio, prosseguindo a sua bebedeira imparável que já ia no terceiro dia.

O Fado

O Fado de Lisboa

O seu Fado, o seu destino, não tinha o enlevo dos acordes de uma guitarra, ou os versos inspirados de um boémio bêbedo. Tudo isso ficara para trás, na cave típica e enfumarada, onde ouvira fado e esbanjara dinheiro alegremente.
O seu Fado, esse, conheceu-o na viela escura, onde a amante de ocasião lhe cortou a jugular. Os fados na memória oclusa, fizeram as pedras da calçada chorar sangue.


O Fado de Coimbra

Desde rapaz novo que se habituara a resgatar vidas às águas do Mondego, e fizera disso a sua ocupação de vida como se seguisse um destino traçado do alto. Já ancião, continuava a atirar-se à água para tentar salvar os seus semelhantes, ou percorrer o rio no seu barco para recuperar da dissolução os corpos vencidos dos que se haviam afogado. Uma noite, durante umas cheias tumultuosas, o rio Mondego pareceu exigir em troca a sua própria vida, e arrastou-o nas águas revoltas como um tufo de erva. E foi então que alguém o salvou, nadando com energia e arrastando-o para a margem. Foi a sua vez de ser salvo, e como outros perante ele, também ele agradeceu comovido a quem o salvou - a figura translúcida de uma mulher vestida de luar.

Silêncio, que se vai contar o fado!

Telemiligrama

Minguante nº 12 stop tema o fado stop sessenta e quatro fadistas em noites de arromba stop projecto-centopeia com muitas pernas para andar non-stop


Telegrama

Uma palavra aos e-books editados pela Minguante, uma forma inovadora de dar espaço aos autores, e na qual tive a grata experiência de participar. Se lhe passou despercebido, ou não está actualizado, confira os autores: Luís Ene, Paulo Rodrigues Ferreira, Carlos Seabra, Fernando Gomes, myself, Ana Mello, Rita Tavares de Melo, Angela Schnoor, Edgar Borges, e Carla Ribeiro.


Romantic beliefs

O que existe de menos inefável em encontrarmos a nossa alma-gémea, é a pele dela ser fria ao tacto, como o vidro.

Cluedo

Morreu na Biblioteca, com o crânio esmagado por uma Bíblia do rei Jaime, uma edição monumental com capa dura com um alfa e um ómega em metal dourado.

O inspector não queria acreditar que a Bíblia pudesse ter mudado a vida daquele homem, e manteve a sua suspeita inicial de que ele havia sido mortalmente golpeado na cabeça por alguém com um relógio de ouro.

Comer a carne

- Pssst, onde é que ele está?
- O seu pai está no quarto, já me perguntou o que está a fazer no lugar da poltrona, a caixa de fruta emborcada no chão.
- O que é que disseste?
- Que era uma homenagem dos rendeiros da herdade.
- Essa foi de génio, mulher! Olha, eu e a mana vamos levar a cómoda Luís XVI. Ele não precisa dela, porque nem consegue dobrar uma camisola.
- E a roupa?
- Pomos em baixo da cama de rede, em cima do tapete persa...não...o tapete também é vendável, em cima dum lençol velho!
Ouvem um barulho nas escadas e calam-se todos. Os irmãos encostam novamente a cómoda à parede, no instante em que o ancião entra, com a bengala na mão e vestido com o seu roupão felpudo, a barba grisalha por fazer.
- Ah, são vocês, tão cedo! Ouvi vozes e vim ver.
Os dois abraçaram-se a ele, estreitando-o emotivamente nos seus braços. O velho mantém o olhar cego perdido algures, e cochicha.
- Queria mesmo falar com vocês, digam à Ana para sair.
A mulher não precisou de instruções e saiu pelo próprio pé.
- Estou velho - confessou o velho num suspiro, recebendo em troca uma exclamação de incredulidade - doem-me os ossos e mal me consigo mexer, a vista já se foi há muito tempo, e a memória tem falhas.
- O que nos queres, pai? O que podes querer que não tenhas já?
- Eu durmo em cima duma cama de rede, porque o médico vos disse que era melhor para os meus ossos, e a mesa de jantar é aquela em que antes se amanhavam os coelhos nas traseiras. Não sou de mordomias e não me queixo, mas precisava que me ajudassem a encontrar a minha Ilíada em braille, definho se não leio, se não sigo a voz do meu Quíron.
- Está bem, pai, já que aqui estamos, vamos procurar a Ileida. Se não encontrarmos posso sempre ir procurar ao Chaves, o alfarrabista, pode ser que tenha uma novela igual a essa - e depois, em voz chã - Sabe pai? Acho que você deposita demasiada confiança na Ana, às vezes, aqueles que nos servem são como os lobos domesticados, nunca sabemos quando vão voltar a sentir o apelo da selva.


& Roer os ossos

Os dois irmãos contristados vagueavam pela casa vazia, seguidos pela governanta, que apertava nas mãos papudas o envelope lacrado com a carta de referências (as piores possíveis, só que a inocente nem sonhava). A espaços, ela perguntava - porque sabia onde estavam as coisas e era leal como um cão - se não queriam nada, um chá, um refresco, uma torrada para a fomica, que já eram horas do lanche.
- Não haverá mais nada? - murmurava o filho órfão, pensando alto.
- Há as terras - lembrou a irmã.
- Não, pensava em dinheiro, ou ouro. O velhote não guardava nada no Banco, deve haver uma caixa cheia de notas, algures, enterrada ou escondida - afirmou, batendo nas paredes com os nós dos dedos.
A irmã digeriu as suas palavras e começou a bater com o tacão do sapato nos tacos do chão, como um cavalo amestrado no pátio de uma coudelaria.
- Não querem mesmo nada? - perguntava ainda a governanta, com a mala aos pés e um casaco dobrado no braço - posso pedir para trazerem fruta do pomar, ou preparar uns ovos mexidos.
- Não! - recusou ele - já estamos servidos. Diz-nos uma coisa, Ana, se o nosso pai tivesse que esconder alguma coisa de nós, onde o faria?
- Que coisa?
- Um objecto, sei lá, olha, a Ileida dele, aquele livro cheio de furos de que ele gostava tanto.
- O vosso pai não vos esconderia uma coisa, se quisesse que ela fosse encontrada.
- Adiante, mulher, onde?
- Ele dizia que vocês os dois estavam irreconhecíveis porque tinham ido fazer uma longa viagem, e que talvez um dia regressassem, tal como vos conhecia de serem crianças e vos ver crescer, e sentir o amor que um pai sente pelos filhos. Ele esperou sempre por isso, um dia vocês voltariam como ele gostava de se lembrar de vocês.
- Ana, porque é que nos aborreces? Se queres dizer alguma coisa de útil, diz, caso contrário, a porta da rua é a serventia da casa.
- O vosso pai amava Homero, porque encontrava nas suas obras, os protótipos de pessoas reais. Às vezes, chamava-me Euricléia, a ama de Ulisses, e ele próprio se identificava com Laertes, que longamente esperou o regresso do filho. Quando Ulisses encontra Laertes, este está a cavar em volta de uma pereira. Se o vosso pai queria guardar alguma coisa para vocês encontrarem, tem de estar enterrado junto a uma pereira.
- Obrigado, Ana, adeus Ana!
- Talvez o encontrem também, acabado de velho e com uma grande tristeza na alma.Ana deixou-os, arrastando com dificuldade para fora da sala, a mala carregada de valores insuspeitados.
- As pereiras do pomar - exclamou o filho órfão, exprimindo a excitação dos dois irmãos - eu vou mandar cavar em volta delas enquanto tu vais à procura de alguém que tenha um detector de metais.
- Mas primeiro vamos comer alguma coisa, está-me a dar a fomica, como a Ana disse.
- O que é que cozinhaste?
- As mãos. Apetece-te?-
Só se for a parte do polegar, tem mais carne, ainda que deva ser seca.- O que é que tu queres? É carne de velho! Mas podes ficar com os polegares, sempre foste o mais pisco a comer!

O indigente acordou enregelado, embrulhado nos cobertores retesados pelo frio. À sua volta desenrolava-se uma grande algazarra, um eclipse havia velado o Sol e as pessoas faziam barulho para afugentar o monstro que havia devorado o astro, pretendo assustá-lo com gritos e uivos, e com o som caótico e pavoroso de cornetas, pandeiretas, pratos metálicos, ferrinhos, bombos, e lãs roçagadas.
O desgraçado juntou-se à festa com o bater dos dentes, marfim contra marfim. Quando a luz voltou a inundar o mundo, todos ficaram suspensos num silencioso êxtase religioso, apenas cortado por aquele sacrílego bater de dentes.
Inspirados pela suspeita de que o monstro se havia refugiado naquele homem sujo, viraram contra ele as suas armas, e brindaram-no com panelas e pratos, cornetas e baquetas.

Não teve fama, mas teve glória, ou antes, Glória - quinze minutos de Glória, aqueles que demorou a conhecê-la no elevador.

Narrador e tema

De Italo Calvino:

«Em resumo: estava possesso daquela mania característica de quem conta histórias e que, a determinada altura, não sabe já se as mais belas são as verdadeiramente acontecidas e em relação às quais só o recordá-las é o suficiente para arrastar consigo um oceano de horas passadas, de sentimentos minuciosos, tédios, felicidade, incerteza, vanglória, náusea de si próprio, etc., ou as histórias inventadas, em que tudo pode acontecer segundo a vontade de cada um e todas as coisas aparecem fáceis. Mas depois constata-se que, por mais que se invente, já se está a falar novamente de coisas que aconteceram ou cuja compreensão existiu na realidade enquanto elas eram vividas.
Cosimo estava ainda na idade em que a ânsia de contar confere igualmente uma ânsia de viver, e se crê que não se viveu o suficiente para se poder contar tudo aquilo que se deseja
(...)».

("O Barão Trepador", c. 16, Editorial Teorema, Lisboa)
Não se inveja as pessoas cujo íntimo está repleto de mesuras e sentimentos gentis e fraternos, que dão mais valor à colorida flor do cacto do que ao próprio, que deslizam pelos dias como se este fosse um escorrega de geleia doce, e se socorrem de todos os ideais e princípios para desculpar e louvar os monstros que lhes castraram a vida. Não se inveja, porque não conseguiríamos vestir a pele delas, dado que a pele que nos cobre não é macia nem serve para ser tosquiada, porque aprendemos a usar a boca para beijar e rasgar com o mesmo empenho, e a apertar a mão do próximo com as garras recolhidas, mas presentes. Ressumamos em nós o desencanto, o nojo e a fúria - arestas, gumes, espinhos, aguilhões, que podem esfacelar e cortar, ferir e mutilar. O que nos dissocia do sociopata e do cínico empedernido, é que essas arestas vítreas, sob uma dada luz - de pessoas, valores, afectos - se comportam como os laminares cacos de vidro no interior de um caleidoscópio, transmutando os estímulos num arco-íris de novos efeitos.
Enquanto assim for, vai-se dando o desconto.

Teve sempre medo das palavras, furtava-se ao seu encontro e escondia-se quando lhe saíam ao caminho, no face oculta de uma esquina, por detrás de uma pedra, duma moita, de uma pessoa, por detrás de si mesma, conseguiu viver uma soma considerável de anos neste lusco-fusco de semi-ocasos e breves eclipses, sem chocar ou sofrer com as palavras, mas sabia ser seu destino que não lhes podia fugir para sempre, e um dia apanhou-as pela frente, nuas e de face descoberta. As palavras corresponderam aos seus medos e terrores, e maltrataram-na com barbaridade, humilharam-na, despiram os seus atavios e guirlandas, esborrataram a maquilhagem dos seus pretextos e ficções.
A partir desse dia, perdeu o medo das palavras, mas passou a viver obrigada por estas, a coabitar com a verdade.

Era uma vez...

...um homem que partiu da sua terra para procurar exílio noutra terra sob um outro céu,
e não sabia a qual deveria permanecer fiel,
se àquela em que nascera e onde as suas raízes latejavam ao som de uma língua diferente e de músicas de uma outra existência,
ou à que lhe deu guarida, oficiosa e oficial, a terra que pisava todos os dias, procurando conhecer o ritmo das suas marés minerais.

Era uma vez um homem exilado e dividido, que refugiou todas as partes de si na pátria íntima do amor de uma mulher.

OR

(img)Atirou a caneta para um canto do tampo da secretária, e levantou-se. Foi espreitar a mulher. Estava sentada aos pés da cama da filha, que dormia, deitada de lado, com um lenço perfurado a velar-lhe a boca. Ela sentiu a sua presença e reuniu-se a ele no corredor. Voltou à secretária, tentando trabalhar mais um pouco. A mulher sentou-se ao de leve no tampo, e fez-lhe uma afago no ombro, sentia a tensão no seu silêncio.
- Não gosto de ver, faz-me impressão, qualquer dia a tua filha sufoca, além do mais, não é salutar, o lenço está carregado de germes, do ar viciado que lhe sai dos pulmões.
Ela já estava a prever, não era a primeira vez que ele tocava no assunto. Esperava que o seu protesto se desvanecesse como de outras vezes, mas hoje ele estava insatisfeito e rezinga, e não baixou a guarda.
- Eu compreendo que foi assim que foste criada, que lá em África faziam o mesmo contigo, mas já vieste para cá há quatro anos, vocês já falam bem o português, tu tens um emprego e a tua filha anda na escola. Não achas que podias abandonar esses costumes tribais e obscurantistas?
- Não é obscurantismo, é tradição, é herança, como eu venerar Niamié. Quando dormimos, a nossa alma pode fugir do corpo e por isso tapamos a boca. Se ela fugir para muito longe, pode não voltar e o corpo morre.
- Todos dormimos e todos sonhamos, e não é isso que atrai a morte. A tua filha tem onze anos, vais continuar a ir tapar a boca dela com um lenço até ela ser velhinha?
- Nunca me perguntaste isso, e a resposta é não. É só até ela ser mulher, aí, vai ficar isolada com Niamié durante dois meses e a sua alma vai ganhar lastro, e depois já não é preciso. A menos que ela adoeça com gravidade, aí tenho de tapar-lhe outra vez a boca, e colocar por perto odores desagradáveis ao nariz para que ela não se sinta tentada a partir para longe.
- Mas não achas que...
O discurso dele interrompeu-se quando ela premiu os lábios dela contra os seus, a cadeia de raciocínios desvaneceu-se com ela sentada no seu colo, a elevar a sua excitação. Beijaram-se e acariciaram-se num crescendo de sensações que atingiu os píncaros quando ela se fez penetrar pelo seu homem, cavalgando o seu pénis como uma amazona núbia.
Quando esgotou o seu ânimo, ela despediu-se dele com um beijo mesclado de sorrisos, e foi-se deitar. Ele seguiu-a, mas, antes de se enfiar nos lençóis, e quando ela já dormia, rumou ao quarto da enteada e desatou o nó do lenço na nuca. Deixou o lenço solto ao lado da cabeça, como se tivesse caído acidentalmente.
Na manhã seguinte, foi a mulher quem o acordou, chorava em silêncio.
- Niamié-Ama - disse ela - caiu o lenço à minha filha e ela viajou para longe, esteve muito longe e a sua respiração era gelada como a manhã lá fora.
Ele levantou-se de um salto, alarmado.
- Está viva?
- Sim, mas chora muito. Ela esteve em nossa casa, no que resta da nossa casa, viu tudo destruído, o milheiral a arder, os mortos pelo chão e na ravina do rio, eram dezenas, cheios de moscas, alguns decepados a golpes de catana.
Abraçou-a com força, sabia que ela não ia aceitar o que tinha para lhe dizer.
- Ela não viajou, foi uma recordação, ela sonhou outra vez com o massacre a que vocês as duas assistiram, escondidas no bojo de um imbondeiro. É normal que ela tenha pesadelos com isso, é apenas uma criança.
- Não, não é verdade, ela esteve lá outra vez e tocou no corpo do pai. Podes ver por ti mesmo, ela tem sangue nos dedos.


Conversa de refeitório

- Vou-te contar uma coisa, mas não digas a ninguém!
- Prometo!
- Em breve vou deixar de comer estas comidas sensaboronas que provocam problemas digestivos, também vou deixar de aturar o nosso chefe e de passar oito horas de ansiedade por dia, preso aos riscos do gráfico electrónico da máquina.
- Não me digas...
- Também não vou precisar de andar sempre na secção de pessoal a reclamar por cortes no ordenado e faltas inexistentes.
- Caramba! Arranjaste outro emprego ou saiu-te a sorte grande? Porque é que não estás aos saltos, de contente?
- Tenho leucemia!

Ninguém o enganava, era um PRO do Pão por Deus, sabia quem morava onde, o que dava e como davam. Na sua cabecinha de cabelos doirados, os seus trajectos estavam delineados previamente, e os outros miúdos iam-lhe à cola na condição de lhe confiarem uma parte dos seus proventos, mas iam em pequenos grupos faseados para não malbaratar a oferenda. Era um sempre a aviar. Rua da Consolação, Urbanização da Encosta, Bairro das Fontainhas, Bairro da Estrela, davam para a manhã, à tarde, se não chovesse, podiam completar o perímetro, que abrangia os bairros menos faustosos, mas de gente igualmente mãos-largas. Este prédio valia a pena, mas só os apartamentos sete e nove, nos outros não davam nada a não ser maçãs tocadas e ralhos parvos, na vivenda a seguir, como quem desce, era obrigatório, porque choviam para os sacos chocolates e pintarolas com fartura, por vezes, um carro barato da loja dos chineses, na vivenda de muro de hera, não valia a pena pararem, a menos que quisessem ficar grogues com uns copitos de água-pé, havia também as três vivendas para macacos, que só davam amendoins. Ele ia dando instruções aos mais próximos e os sequazes imitavam, não era preciso muito latim com eles porque o miúdo louro levava um pedaço de giz branco, com o qual gravava um certo ou um xis nos muros das vivendas ou nas paredes dos prédios. Com a hora do almoço a chegar, o miúdo louro pensou que ainda havia tempo para a vivenda da D. Genoveva, que era muito amiga de dar, beijos e lambarices. Ele e depois eles, chegaram-se ao portão do jardim, estava aberto e entraram em fila indiana, a D. Genoveva estava sentada na cadeira de espaldar do alpendre, com o galgo deitado aos pés. O galgo rosnou e afastou-se, mas a D. Genoveva não rosnou nem se mexeu. A mulher tinha-se finado na cadeira, com os olhos muito abertos e a boca aberta cheia de espuma de baba, os sacos de hipermercado pousados ao lado, com pequeninos sacos de plástico no seu interior com as ofertas para a rapaziada. Esta ficou a olhá-la, muito espantados. Alguns nunca tinham visto um morto, muito menos assim, morto como se dormisse uma sesta. O miúdo louro tomou a iniciativa, abriu os sacos grandes e distribuiu o conteúdo aos discípulos, que se iam retirando, um pouco confusos. O miúdo louro ficou para último. Não queria ovos de chocolate nem rebuçados, esvaziou a mulher de pulseiras, brincos e colares, e em seguida corrinhou para a rua mas, mal atingiu o passeio, lembrou-se de algo e voltou atrás. Meteu as mãos aos queixos da defunta e escancarou-os, retirando a sua dentadura postiça com as pontas dos dedos. Enxugou-a da baba, esfregando-a na relva, e meteu-a ao bolso. Ia ser-lhe preciosa para pregar um valente susto à irmã. Fez uma festa apressada na cabeça do cão tristonho, e saiu depressa dali, já com a barriga a dar horas.

(a insularidade é um estado de espírito)

Era um cientista, e estava em férias, mas um cientista nunca tem férias, seria como pedir a um bibliófilo que mantivesse os olhos fechados numa viagem no tempo até à biblioteca de Pérgamo ou Alexandria. Tudo à volta deste homem eram pretextos, estímulos, desafios -objectos e seres mesquinhos, como uma folha de árvore, uma formiga, um cristal de gelo, ou um punhado de areia, eram o suficiente para o arrancarem da inércia, fazendo-o vogar pelos domínios do conhecimento. Rain or shine, ele analisava, observava, registava, e se estava fora da sua formação ou da sua experiência, era bem capaz de enviar um mail ou a uma carta a um investigador x, ou ao professor y, à procura de respostas. A mulher censurava-lhe a obsessão, não sem deixar transparecer uma terna admiração por ela, e habituara-se aos seus devaneios e silêncios pensativos. Quando encontraram o tronco de árvore na areia da praia, ele isolou-se de imediato na sua atenta curiosidade. Enquanto a mulher se sentava no tronco caído, e as filhas saltitavam em volta, o cientista recolhia dados. Era apenas um tronco cedido à terra pelas ondas duma tempestade invernal, mas, para ele, representava o início de uma pequena pesquisa. O tronco não estava na água há muito tempo, nem devia vir de muito longe, porque ainda apresentava alguns dos ramos mais frágeis e pedaços da casca, apesar do efeito de lixa causado pelo atrito da areia. Pediu a uma das filhas um pedaço de rocha que estava cravado numa das raízes e juntou-a aos indícios que colhera (era laminar e escura, de origem vulcânica). Devia pertencer ao lugar de onde a árvore fora arrancada pelas ondas, nalguma praia ou falésia ribeirinha.
Voltaram para o bungalow que haviam alugado no Parque de Campismo, com ele a pensar nas formas de abordar o problema. Na manhã seguinte, com o pretexto de ir comprar o jornal à cidade, evadiu-se da família. Um dia de trabalho na Universidade local (e a única do arquipélago), permitiu-lhe obter o que procurava. Determinara a espécie da árvore e, mais importante, conseguira circunscrever os três lugares na região onde poderia ser encontrada aquele tipo de rocha vulcânica, dos quais, apenas um se encontrava perto do mar, um promontório rochoso junto ao qual, segundo as plantas cartográficas, se havia desenvolvido uma pequena aldeia de pescadores.
Agora, planeava deslocar-se a essa terra para deslindar um mistério subsidiário daquele. Num dos ramos de médio porte da árvore, retirara o que restava de fibras de sisal, dalguma corda, que ali estivera atada, durante tanto tempo que o crescimento do ramo quase a engolira. Afastou a possibilidade de pertencer a um balouço, não por motivos científicos, a ciência estava fora disso - o promontório de pedras escuras, os pescadores na sua relação de vida e de morte com o mar, sugeriam-lhe um enforcamento, alguém que pusera fim à vida, levado por uma tristeza profunda diante de um mar sempre diferente e sempre igual, ou talvez cansado de esgravatar pelo sustento naquela ilha pobre no fim do mundo.
Voltou ao Parque de Campismo, sem o jornal, e contou o projecto à mulher, que o escutava com os olhos vidrados de sono, enquanto as filhas já dormiam. Ele estava excitado, mercê de um entusiasmo insólito, novo e romântico, por pessoas e pela vida. Queria ir de carro até à tal aldeia, e inquirir às pessoas se tinha havido por ali algum suicídio, uma morte que enlutara a comunidade, meses ou anos antes daquela árvore ser arrancada pelo mar. Por ser generosa, mas mais por vontade de ir dormir, a mulher acedeu à sua vontade.
No dia seguinte, partiram num carro alugado. Foram quatro horas de viagem por terras ubérrimas, esquartejadas por muros de pedra acima das quais assomava o verde das culturas e a rica paleta das flores. A aldeia de pescadores situava-se no sopé do tal promontório vulcânico, e descia-se até ela por uma estrada em mau estado onde não caberiam dois carros um ao lado do outro. Na aldeia, o cientista travou-se de amizades com um pescador e, como quem não quer a coisa, falando das dificuldades da ilha e do tributo em vidas que o mar cobra, chegou ao que queria saber, se alguém se havia suicidado naquela terra. Não! A resposta foi cabal. Morrem ou emigram, mas não se matam! Sentiu-se desalentado, talvez as cartas geológicas estivessem ultrapassadas mas, no entanto, a pedra da árvore era abundante ali, conseguia distingui-la sem dificuldade nas paredes do casario e nos degraus salientes dalgumas casas. Vamos passear, tirar umas fotografias aos barcos, propôs a mulher, tentando animá-lo. Seguiu-as, sem ânimo, as filhas penduravam-se nos seus braços como se ele fosse um galheteiro, tentando dar-lhe carolos, mas nem mesmo assim ele sorria com vontade. Desceram até ao pequeno cais e, enquanto as filhas faziam poses e a mulher tirava retratos, o cientista olhou em volta, à procura de um novo estímulo, como se precisasse dele para anular a sua decepção. Pedra vulcânica, erupção, mar fervente, marcas da erosão, marés-vivas. Mas o seu espírito não criou associações ou hipóteses de trabalho, antes se deixando penetrar pelo que o rodeava num fascínio orgânico e poroso. A aldeia crescera na aba do promontório como um cogumelo na sombra de uma ávore, havia pedra, mas também terra fértil a poucos metros do mar, e conseguia vislumbrar algumas hortitas no meio das casas, resguardadas por tapumes de canas e tábuas. Aí, um outro detalhe atraiu o seu olhar, o cemitério a um extremo da aldeia, como um castelejo sobre as rochas, de paredes caiadas. Caminhou até lá, junto ao cemitério havia um pequeno parque com árvores, onde o mar já fizera estragos, e as árvores...as árvores eram da mesma espécie daquela que dera à costa na praia. Numa espécie de transe tranquilo, entrou no parque pelo rombo que as ondas haviam feito nos seus muros. Estavam lá as árvores, e assentos suspensos dos ramos por cordas de sisal, onde se sentavam mulheres vestidas de negro, bordando e falando da vida enquanto se balouçavam docemente, junto aos que repousavam por perto, nas campas ou no mar, muito perto, na dor dos seus corações.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...