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A mostrar mensagens de 2008
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Feliz


2009!

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Dardos

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O Vergílio Torres (obrigado!) decidiu agraciar-me com o Prémio Dardos, que é o correspondente blogal e pessoal das medalhas do 10 de Junho ;).
Passo a literatura inclusa:

"Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Quem recebe o "Prêmio Dardos" e o aceita deve seguir algumas regras:
1. - Exibir a distinta imagem;
2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. - Escolher quinze (15) outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos
."

Nadando um pouco contra a corrente, porque o o ano se esgota, passo-o a cinco (5) blogues, todos no feminino, onde a palavra se faz c…

A mulher de César

A uma hora de caminho, no meio de um bosque que adquiriu e cercou para que não o profanassem, William the Third construiu de raiz, e com as suas próprias mãos, uma cabana-refúgio em madeira, que considerava o seu verdadeiro lar. Ali, não havia máquinas, engenhos, portáteis, ecrãs Lcd, tudo era rude e áspero como a madeira afeiçoada a enxó de uma cabana de lenhador. Os móveis rudimentares com pranchas de madeira unidas por pregos e cavilhas, a lareira de pedra, o cântaro de folha onde ia buscar água ao riacho, as armadilhas para coelhos suspensas de pregos na parede, a cana de pesca com que tentava a sua sorte, porque as trutas eram caprichosas, e a cadeira de espaldar no alpendre onde, iria jurar, era capaz de ouvir a erva a crescer. Passava todo o tempo que conseguia ali, todo o que lhe sobrava da sua vida pública, da sua carreira gloriosa de génio de informática e criador de uma sistema operativo, cidadão do mundo que construíra a pulso um império financeiro, e arquitectara uma casa…

O substantivo colectivo aplicado ao Ensino

Exame de Abelhas

Amizade

- Então, como vai isso? Não te tenho visto por aqui!
- Um pouco atribulado, sabes, não sei se é do rigor deste Inverno ou das debilidades do meu corpo, tenho andado adoentado, gripes, dores de cabeça, os nervos em franja, saturado das coisas. Num estado desses, uma pessoa atém-se ao seu mínimo denominador comum, guardando as forças para os ritos inadiáveis, e as tarefas essenciais. Depois há as forças obscuras e gigantescas que nos rodeiam, a incerteza do futuro, o emprego que anda em convulsões e que ameaça desaparecer de um momento para o outro, os compromissos e encargos económicos...
- Mas vais-te aguentando, não é?
- Sim, vou indo!
-Fico mais tranquilo, é que, da maneira que estavas a falar, vê-se que não és dos que se confessam ao padreco!
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Sem título, mas com a musicalidade do italiano, mais um texto que Stefano Valente teve a cortesia de traduzir.
Uma pesquisa no browser fez-me encontrar a primeira obra de Stefano Valente publicada em Portugal, chama-se O Espelho de Orfeu, e tem a chancela da Ésquilo.

Mimos

Ele lê o jornal, está cansado, do jornal também, um diário com uns dias, a cadela anda para um lado e para o outro na sala, parece inquieta. -Leva-a a dar uma volta! - sugere a mulher, sentada do outro lado da sala, com os olhos fitos na xaropada da telenovela. - Deixa-me só acabar esta página - a cadela parece ter ouvido e arranha-lhe as pernas das calças, não tem como não ir. Levanta-se, põe-lhe a trela e sai para o patamar das escadas. Levanta a cadela, com os braços em volta dos seus quartos dianteiros, roda sobre si, e descreve com ela uma, duas, três voltas, pousa a cadela meio estonteada e ata a trela ao corrimão das escadas. Ela não ladra nem rosna, está a ficar habituada. Ele desce um lance de escadas e fuma um cigarro no patamar seguinte, a chuva a bater com força nos vidros. Senta-se num degrau, com os joelhos encostados ao peito e esfrega as têmporas com as palmas das mãos. Um porta a fechar-se à chave num dos andares de cima arranca-os do seu torpor, e levanta-se, a cadela …
[Como uma outra vida nas antípodas, a escrita redime o homem dos silêncios a que se entrega]

Dois macacos-de-Gibraltar estão sentados numa rocha a beber chá e a ouvir um relato da Premier League, e avistam dois homens voadores, sustentados no ar por asas que agitam com energia.
- Dédalo e Ícaro, Sir?
- Hum, não creio.
- Talvez venham de Creta...
- Não! Marrocos!

Micro-testamento

O de Rabelais:

«Não tenho nada, e as minhas dívidas são grandes. O resto, deve ser dado aos pobres».

Crónica hipocrática

Hospital Distrital de Caldas da Rainha, dia seis de Dezembro. Uma doença na família, leva-me como acompanhante (pois!) à urgência pediátrica do Hospital. Está à cunha, crianças e mais crianças, aflitas, elas e os pais, febres, tosses, bronquiolites, todos apertados numa sala de espera que se tornou pequena, tossindo e espirrando uns para cima dos outros, os pais estressados por isso, e porque os filhos não são adultos, e alguns ainda arranjavam forças para procurar brincar com as outras crianças e ter birras súbitas e rastejar pelo chão sujo como rambos em miniatura, além de desenvolverem uma propensão exasperante para meterem na boca os brinquedos e a roupa dos outros miúdos. Uma urgência pediátrica com cinco horas de demora entre a triagem e o atendimento médico. No tempo que estive à espera encontrei algumas pessoas conhecidas, comi uma barra de chocolate com cereais, bebi uns três cafés para acalmar, e passei algum tempo na sala de espera da outra sala. Aí, o ambiente ainda estava…

Skate sortudo

Da janela de sua casa, via nitidamente a urbanização lá embaixo, do outro lado da rua principal, entretinha-se a jogar no PC, e de quando em vez olhava pela janela, é só acabar de subir a torre e varrer os bichos lá embaixo com a arma de plasma, dois adolescentes exercitavam-se com os seus skates na rua em declive da urbanização, deslizavam sobre eles quase até à estrada, depois saltavam agilmente e seguravam o skate, subindo a rua para encetar um nova viagem, nível oito, nunca chegara ao nível oito naquele jogo, a coisa estava a correr bem, agora o louro de colete, saltou do skate, aparecem os lagartos antropomorfos, toca a disparar, precisa de munições, ali estão, junto ao carro incendiado, apanha-as, setenta e oito mil pontos, sou barra nisto, pensa, agora é a vez do adolescente franzino, aí vai ele, saltou do skate e vai segurá-lo, não, o skate cruza a estrada, milagrosamente passa incólume entre as rodas do carro, sorte do skate que o carro foi travado pelo corpo do rapaz, raios,…

A Justiça afectada pela dieta

O Juiz corrupto trocou os doces tradicionais, ricos em calorias, pelo Pão de Law.

Dia coerente

Tomou um banho rápido e deixou-se ficar sentada na orla da banheira, com os pés no tapete. Dia mau é assim, uma pessoa levanta-se e não tem vontade nem maldade, é uma esponja caída ao lado da banheira, a ressequir sobre o mosaico, levantou-se mesmo assim e arrastou-se até à sala, ligou as pequenas colunas ovóides ao Mp3 e começou a busca de faixas, não, não, velhinha, sem sal, estou farta desta, esta também não. Toca o telefone, dos antigos, fixo e maciço, umbilicado à parede no outro lado da casa. Atira o Mp3 para um sofá e vai em sua busca, cruza o corredor o mais depressa que pode, pingando água no soalho, e alcança o telefone no instante preciso em que ele deixa de tocar. Raio de dia! Hesita em voltar para a sala, pode tocar outra vez, mas nem põe a hipótese de ligar de volta, quem estiver interessado que ligue. Pousa o telefone e volta à sala mas, à passagem, decide que tem de secar o cabelo, pega no secador, o seu corpo de esponja continua a pingar, e quando vai conectar a ficha…

Negócio da esquina

O vendedor ambulante andava de porta em porta, vendia faiança de marca, ouro velho, colchas, relógios importados, livros pornográficos, tintas e terebintinas, pendentes de cortinado, dobradiças de latão niquelado para portas, talheres de cabo de prata, e gatos siameses, em promoção, dois pelo preço de um.

Daquilo que conseguia ver de dentro da loja, por entre as estantes cumuladas de brinquedos e enfeites natalícios, dava para notar que as pessoas se demoravam diante da montra da sua loja, sentiu-se orgulhoso, tinha-a armado com gosto e talento, e aquele cartão-de-visitas iria beneficiar o movimento da caixa. Quando se aproximou para admirar a sua obra-prima, descobriu que aquilo que as pessoas olhavam não era a montra, mas uma menina andrajosa e suja que olhava os brinquedos expostos com olhos grandes de corça. Aproximou-se dela e deu-lhe uma moeda para ela ir comprar qualquer coisa, e quando se viu livre da sua presença, limpou o vidro da montra com um pano, para o caso daquele olhar ter deixado resíduo.

Crisis? What crisis?

- Tenho frio! - queixou-se o banqueiro, mal entrou na mansão. - Quer que lhe acenda a lareira, senhor? - inquiriu o mordomo. - Não, manda esfolar um dos criados, porque estou a precisar de um casaco de peles novo!

Um novo início

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Durante alguns anos, não gostou muito do Natal, desde o ano da ruptura, nesse, como em todos os anos desde que tinha memória, ela e os pais decoraram a casa no feriado do primeiro dia de Dezembro, foram buscar os enfeites ao sótão, desencaixotaram-nos e armaram a árvore de Natal e, no fim desta estar pronta, o presépio em volta do vaso, como uma paisagem rodeando uma torre de ribate. Ao pai, cabia sempre as tarefas mais técnicas, fixar a árvore dentro do vaso, e segurá-la com um fio de pesca a um camarão na parede, e experimentar e consertar as gambiarras multicolores. Ela ajudava a mãe a colocar os enfeites na árvore e a dispor as casinhas e as figuras do presépio, embelezadas por pequenas pedras xistosas, e musgo verde que se apanhava de véspera. Ao entardecer, todas as decorações estavam prontas, à excepção da coroa de Natal da porta de entrada, o pai disse que a que tinham estava muito velha e desfiada, e saiu para ir comprar uma coroa nova.
Esperou por ele à janela, chovia muito e…

Neófito

Foi iniciado, com rituais rebuscados, numa sociedade secretíssima cujos membros nunca a mencionavam nem revelavam a sua existência, com medo de serem fulminados por um raio. Depois de admitido àquela assembleia de Puros, acedeu a um nível superior de conhecimento transgeracional e de verdades cósmicas, onde ficou a saber que não havia palavras para exprimir o indizível, nem axiomas que fixassem o incognoscível. Mas o núcleo de sabedoria cósmica, oferecido a uns poucos humanos por enviados das estrelas (luminosos, como convém a seres estelares), só lhe foi comunicado quarenta e nove dias depois da sua iniciação, e consistia num curso de voo astral por correspondência, de custos módicos quando comparados aos preços exigidos pela transportadora aérea nacional, ou a exorbitância cobrada pela NASA para voos turísticos orbitais. Desgostado com o rumo da sua aprendizagem, sobretudo, por sofrer de vertigens, entrevistou-se com o Grande Iuminado e, entre duas imperiais e dois pires de tremoços…
O parto da filha foi complicado, deram-lhe epidural, mas não houve grandes progressos, o médico insistia que a criança havia de nascer por ela, e realmente, a menina no seu ventre começou a querer emergir entre as suas coxas, mas a dilatação não era suficiente e nem com ferros a conseguiram tirar. Por fim, vencido pela evidência, o médico optou pela cesariana. Com a mãe numa agonia excruciante, levaram-na na maca até ao bloco operatório, dois andares mais acima, onde o nascimento foi bem sucedido, para a menina e para a mãe. Mal a tiraram de si, e ainda enquanto a cosiam, a mãe pediu para ver a menina. Puseram-na ao seu lado no leito, durante breves segundos, durante os quais ela mal a viu, com a vista toldada pelas lágrimas, de dor e de felicidade. Por fim, levaram-na, por ordem do médico. Cosida e medicada, a mãe caiu num sono profundo. Horas mais tarde, quando acordou com o corpo todo dorido, a enfermeira acercou-se dela e perguntou-lhe se tinha forças para pegar de novo no seu beb…
«Não sou nenhum psicólogo encartado, mas para ser sincero, acho que tu entraste num processo de negação!».
«Não, não, e não! Nego isso também!».

"Deus não dorme" - condescende o céptico - "O medo que Ele tem de estar a ficar amnésico, provoca-Lhe insónias!".

Esquecido num milheiral, o espantalho ficou largado ao vento e à chuva de Inverno. O chapéu de palha caiu, à cabeleira de feno roeram-na os ratos, e o seu tronco partiu-se em dois como se um raio o tivesse atingido. Quase parecia uma urze ou uma oliveira-anã. Um pardal fez do seu casaco a sua casa, e com aquela ave no seu peito, o espantalho espantava o frio e ia recuperando o orgulho perdido.

Inflação

Os relógios para portão de cemitério estão pela hora da morte.

Estavam sentados os dois no piso de Restauração do Centro Comercial, a comer pizza quente. "Estou cansada da nossa relação" - desabafou ela - "acho que devemos dar um tempo". Ele saltou da cadeira como se tivesse sido impelido por uma mola, e saiu a correr pelo meio das mesas. Passados uns minutos, voltou com um sorriso nos lábios. Ela ainda estava sentada na mesma cadeira, e ele estende-lhe o relógio que foi comprar.

cilarca

Virando costas à chuva, encapelado sob a sua capa impermeável, mete as botas ao caminho, e vai à cata de cogumelos. Com o queixo encostado ao peito, evita que lhe escorra pela cara o pingo-pingo da orla do capuz. Sabe onde procurar, os lugares menos batidos e os solos mais gratos. Só colhe uma variedade de cogumelo, uns grandes, esbranquiçados, ainda que saiba distinguir sete ou oito espécies deles que não são tóxicas. Em pouco mais de uma hora, já encheu o saco, e enceta o regresso, evitando as poças de água e os bocados mais lamacentos do solo do pinhal. Quando está a chegar ao lugar onde deixou o carro, vê um outro colector, a apanhá-los na berma da estrada, parece saído dum filme do Senhor dos Anéis, capa de tecido grosseiro até aos pés, rosto enrugado com longas barbas, faces manchadas. Nota que o homem os colhe a esmo, mesmo os venenosos. Aproxima-se dele, com receio de que a ignorância dele tenha consequências funestas. - Esse é venenoso - Diz, apontando para um cogumelo que ele…
Gerir uma casa nocturna requer muita fibra e visão, sobretudo para escolher os empregados, os que fazem o serviço à porta, com mais caparro, e todos os outros, da manutenção, do bar, os protagonistas do entretenimento e os que ficam encarregues de guardar o dinheiro e cobrir as despesas. Marco tinha fibra e visão, mas também tinha as suas manias, todos os elementos da sua equipa o sabiam. Aos caloteiros, e os que armavam bronca, aos putos armados em espertos e aos que incorriam no seu desagrado, clientes ou empregados, ele gostava de lhes dar pessoalmente o correctivo. O alegado transgressor era escoltado até um anexo ao lado da garrafeira, onde o trancavam, e quando o movimento amainava, o big boss ia até lá e aliviava o stress, enterrando nele os seus punhos e a biqueira das botas pretas. Naturalmente, que o objecto dos seus mimos se encontrava manietado, ou imobilizado por um dos seus homens. Raras vezes saíam dali em bom estado, quando não levavam alguns ossos partidos para a urgê…
Um dos prazeres simples que ela não dispensava, era quando o seu namorado lhe fazia cafuné no cabelo. Encostava-se a ele como um bebé se deita no regaço da mãe, e ele fazia-lhe cafuné, os seus dedos passeavam-lhe pelos cabelos em dóceis torvelinhos, por vezes, separando apenas os cabelos e fazendo-os ondular entre os seus dedos, outras, imprimindo uma suave pressão na pele com as papilas dos dedos, passeando-as por toda a cabeça (delícia maior quando se demoravam nas têmporas). Era uma arte que ele havia desenvolvido com entrega e paixão, fazendo-lhe cafuné nos seus momentos de relaxamento com ela, ou, exercitando com a sua cabeleira quando os dois não podiam estar juntos.

Um instante de arrebatada alegria, de espasmo luminoso - as fotografias de grupo. Da escola, da excursão de finalistas, da viagem de estudo, de plêiades de casamentos e baptizados, do grupo de amigos ou colegas que participou num torneio de futebol, que desceu às grutas, que se mascarou, que desbundou.

Frias, tornam-se tristes, quase sinistras, o nosso reflexo parcelar num espelho estilhaçado, e quando as vemos há quase sempre alguém por perto para acordar os fantasmas, como um corvo a corvejar num cemitério.

Lembras-te deste, era o Chaves, namoriscou com a tua irmã e depois casou no estrangeiro antes de lhe acontecer aquilo, e aqui, a Laura, era metade do que é hoje, vi há dias o irmão dela, coitado, antes tivesse engordado, olha o Fancisco, tinha menos um ano que tu e...

Estás só, era bom não te lembrares que estás só.

...e a Rute, o que é feito dela? Sabias que me disseram que ela é lésbica? Não devias ficar tão chateado por ela ter saído de casa. Ao lado dela está um dos filhos do Sar…
Arrancamos com a nossa vida como se partíssemos para umas férias num lugar longínquo, e levamos as malas carregadas, de acessórios e de sonhos, de prosaicas utilidades e de quimeras indefinidas que envolvem, como uma crisálida, uma vaga e aquosa esperança. Temos bagagens que cheguem e que sobrem para a estadia, e julgamos que, com os dias, se irá aligeirar o peso que arrastamos connosco, na razão inversa da nossa felicidade e das alegrias que a viagem nos poderá proporcionar. Mas a viagem de volta é igual, estamos cansados e trazemos o mesmo peso, as nossas leituras de viagem estão esgotadas e não temos forças para mais uma fotografia, um sorriso ou uma laracha, as nossas roupas e haveres estão revolvidos e amarfanhados em sacos de supermercado, de modo semelhante às nossas ideias e sentimentos, que são como fatos velhos dobrados e calcados no fundo da bagagem, a ponto de nos esquecermos deles. É chegada a hora de regressar, arrumar e lavar as coisas, para descobrir o que trouxemos e r…

Criptozoologia

Os Criptólogos pertencem ao Reino animal, Classe dos Mamíferos, da Ordem dos Primatas, Família dos Hominídeos. Mas esta classificação é controversa, havendo quem defenda outras variantes, em função de estudos de natureza científica que pretendem agrupá-los na ordem dos Rodentia (Espécie Rattus Bibliothecus); ou Artiodactila (Espécie Taurus Marronus); ou na Ordem dos Perissodáctilos (Espécie C. Kaballistus).

Violência na Era da Cibernética.

- Levas um tabefe, que nem sabes a quantas andas! - Espere um pouco, deixe-me fazer um backup, não vá você danificar algum ficheiro.

Desde os seus quinze anos que deixou de ir a estádios de futebol. Cansou-se, das caneladas, do apito do árbitro, de ser rasteirado e rolar no piso de terra batida, enquanto os dois bêbedos da terra assobiavam com alegria, a gritar a plenos pulmões que ele andava a atirar-se para a piscina.

Inverso

O flic-flac, é um exercício de ginástica interdito à raça dos gigantes. Para não serem confundidos com moinhos, e sofrerem o ataque da raça de D. Quixote.

Uma dependência crescente foi unindo o papagaio vivaz ao seu dono, este pronunciava ou soletrava uma palavra, e ele repetia-a como um eco fiel, quase uma gravação. E isto com tudo, com um estalido da língua, o menear da cabeça, um bocejo arrastado, ou um praguejar extemporâneo. Essa repetição foi tornando os dois cada vez mais parecidos e eram até, mais parecidos do que alguém poderia imaginar. É que o dono, como um pássaro, também acabou por levantar voo, e o seu papagaio, ansioso por imitá-lo, agitou e esgarçou as asas dentro da gaiola, impedido que estava de alçar o seu voo desde o terraço do prédio.
Para iludir o frio, que o Inverno não dormia, entreteceu-se a compor cadências e poemas com o calor dentro, um catamarã sulcando as ondas entre as ilhas dos Maoris, a batida mítica e ritmada de um batuque africano, o sol do deserto na pele de uma iguana, a pele da amante de outros dias, que dormira entre os lençóis, aninhada junto ao seu peito. Entreteceu-se e entrecoseu-se, e o calor palpitava como as brasas, descosturando os fantoches dos medos. Liberta do frio, abandonou a cama de jornais onde dormia e dançou nua sobre a neve do parque.

Andava a recolher do chão folhas meio-amarelecidas, para as prensar dentro de livros e obter um Outono bidimensional. Absorto nesse mata-tempo, sentiu uma joaninha pousar-lhe no pulso. Repugnou-a a vermelhidão do insecto, aquela criatura-labareda queimava-lhe a vista. Fechou os olhos e esmagou-a com uma palmada e, sempre com os olhos fechados, pegou nos seus restos viscosos e juntou-a à colecção de folhas. Tudo desfalece e perde a cor, pensou, aquela joaninha seria uma evocação sépia de si mesma no momento em que secasse sobre uma folha no ventre de um livro. E ia visualisando o quadro, quando viu a passear diante dos seus olhos uma menina ruiva de vestido berrante de motivos florais e coloridos.

O novel pároco desaguara no Clube Recreativo da terra para uma partida de sueca, mas não encontrou parceiros, e ficou-se pelas paciências numa mesa de canto, salvo da monotonia por uma taça de conhaque. Foi nessa mesa que o farmacêutico o surpreendeu, sentando-se ao pé dele com ares de conspirador. - Gaivotas em terra...estás com alguma crise de vocação? - Não, infelizmente para ti. Vai um jogo? O outro aceitou, o clérigo baralhou e deu as cartas. - É a tua vez de jogares. Bateu uma carta no tampo da mesa. - Sabes que eu andava justamente à tua procura? Tive um sonho estranho a noite passada! - Jogue! - Estava a dormir e tive uma dor no peito, não sei se morri, mas senti-me como se tivesse tido uma experiência religiosa. - Logo tu, que sempre foste positivista e anti-clerical, que idolatra o Voltaire, e mofa do Padre Eterno como o Junqueiro. Deve ter sido o pior dos pesadelos! - Não, foi muito interessante, senti que estava a descolar-me do corpo, que saía de mim, mas não tinha uma alma somente…

Torneio

Com uma lâmina de barbear, e uma laçada de corda de nylon, e venenos, foi jogando com a morte.

Começou o primeiro jogo com uma mão cheia de trunfos, acabou o último a jogar à mão morta.

Biscate

O amigo recebeu-o junto à porta do apartamento. Pousou a mala de ferramentas e apertou-lhe a mão. «Preciso da tua ajuda para um trabalho que exige discrição e infinitos cuidados. Recorro a ti porque outros poderiam sentir-se tentados a comentar o que se passa cá dentro, e a última coisa de que preciso agora, é da curiosidade de vizinhos e estranhos». «Sê directo? Que trabalho?» «O meu apartamento é um pouco acanhado, tem pouco espaço para arrumação. Agora, mediante uma soma razoável, consegui alugar um espaço para arrumação nas águas-furtadas, e precisava da tua ajuda para levar para lá uma coisa...» «Mobília? Um piano?». «Não, a minha culpa!» «!?» «Acredita-me, pela amizade que me tens, acredita no que eu te digo, preciso que me ajudes a levar a minha culpa para as águas-furtadas. A princípio, ela era pequena e cabia em qualquer canto do apartamento, dentro de um roupeiro ou numa gaveta qualquer, mas, nos últimos tempos ela tem crescido de forma vertiginosa, e quase não me consigo mexer cá…
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De Henry Chinasky, aliás, Charles Bukowsky:
«Não sou um pensador. Cada mulher é diferente. Fundamentalmente, parecem ser uma combinação do melhor e do pior - ambas as coisas, mágicas e terríveis. Portanto, estou contente por elas existirem».«(...) As pessoas sem moral consideravam-se muitas vezes livres, mas sobretudo, eram incapazes do mínimo sentimento ou de amor. Por isso eram despreocupadas. Os mortos a foderem os mortos. Não havia nem risos nem amor nos seus jogos - era um cadáver a foder outro cadáver. As morais eram restritivas, mas enraizavam-se, mesmo na experiência humana de várias gerações. Algumas morais tendiam a manter as pessoas como escravas nas fábricas, nas igrejas, e levavam-nas a acreditar no Estado. Outras morais faziam mais sentido. Era como um jardim cheio de frutos envenenados e de frutos sãos. Tínhamos de saber quais devíamos colher e comer, e em quais não tocar».(Charles Bukowski, "Mulheres", tradução de Fernando Luís, Publicações Dom Quixote, 2001)

O tempo não nos chega

Andou ao acaso por entre as estantes, como se procurasse a saída do labirinto (o silêncio rugia à sua volta como o lamento surdo de um Minotauro).
«Precisa de ajuda?».
Uma funcionária, prestável e sorridente. Apertou entre as mãos o boné, e estendeu-lhe a mão.
«Bom dia, minha senhora. Deram-me agora o cartão da Biblioteca, eu não tinha coragem de pedir um cartão antes, é que eu tenho setenta e três anos, e só aprendi a ler há dois anos, com a ajuda do senhor meu pároco».
«E agora quer requisitar uns livros para ler, não é?».
«Sim, minha senhora, eu sempre gostei de ver programas de televisão sobre História, sempre tive vontade de ler, mas não sabia».
«E que temas lhe interessavam?».
«Muitos, a Arca da Aliança e o Templo de Salomão, a Revolução Francesa, os Maçons...».
«Venha comigo, vou separar alguns para o senhor escolher».
Ela guiou-o por entre o dédalo de livros até uma estante de topo. Puxando de uma carreta de livros, começou a empilhar sobre o tampo os livros que versavam os temas apont…

Entente Cordiale

À noite, o cunhado de Santiago ligou-lhe e confirmou as notícias que se esperavam. Estava tudo acertado, o contrato de trabalho no estrangeiro, e as datas estimadas. Daí a uma semana ele ia ter a casa de Santiago e partiam para Lisboa para apanharem o primeiro voo que houvesse. Uma semana! Santiago não queria trabalhar mais uma semana, precisava passar algum tempo com a família antes de mais uma aventura no estrangeiro, e por isso, estava decidido a iniciar de imediato as suas pequenas férias. Trabalhava como vendedor-distribuidor de uma Pastelaria. No fim da distribuição, foi aos pequenos escritórios, e pediu para falar com o gerente, um homem de setenta anos que o empregara quando ele voltara desasado de um contrato falhado em Itália. - Senhor Ramiro - começou de pronto - Vou-me embora, hoje foi o último dia que trabalhei aqui, faça as minhas contas que, amanhã ou depois, a minha mulher passa aqui para vir buscar o cheque. - Mas, Santiago, assim, de um momento para o outro? Há a volta…

Adaptação

Do que a Ministra da Educação faria se fosse o Pai Natal: - Entraria por todas as chaminés, para pôr uma pedra no sapatinho.

«Esta é a primeira vez que vocês, pais, se juntam, e é por uma boa causa, a festa de Natal dos vossos pequenos heróis». Ouvia, distraído, a voz da educadora de infância. Os pais todos, reunidos e pouco à-vontade. Não sentia especial curiosidade pelos outros, mas sentia que pelo menos metade deles se aplicava a estudar os presentes com afinco, examinava, julgava, classificava. Estavam todos sentados em roda nas cadeiras do ginásio improvisado, dito de outro modo, viam-se todos uns aos outros, era uma exposição de gente como a dos mercados de escravos, avaliava-se os corpos, as roupas, se os dentes tinham falhas, se existia alguma deformidade física. A educadora guiava-os pelos itens que lhes queria falar, as crianças iam fazer um teatrinho, não quereriam os pais seguir-lhes o exemplo, e cantarem uma canção ou actuarem numa pequena peça? Sentiu-se observado, intensamente observado. No outro lado da roda, um casal de mão dada. Ela observava-o, um rosto muito afilado, como se tivesse sido ap…
Eram gémeos siameses, e suscitaram a curiosidade geral; primeiro, sendo gémeos, até nem eram muito parecidos, depois, nem estavam juntos, soldados em nenhuma parte da cabeça ou dos membros, e nem mesmo andavam habitualmente pelas mesmas divisões da casa, porque os dois procuravam cultivar a distância entre si. Eram um caso insólito, e difícil de compreender, parecendo que só tinham vindo ao mundo para derreter os miolos dos investigadores. Gata que os pariu!!

Outras andanças

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A Comunidade Espiritual, um portal rico e diversificado onde principiei a participar com um ou outro artigo ou tópico, assinado com o nick de Sonhâmbulo. É uma experiência nova, como foi um dia a dos blogues, e as palavras custam a aparecer, mas espero conseguir melhorar, aprendendo com a prática e com os outros.

Encruzilhada

A mãe esperou que chegasse a sua vez. Depois da priminha e marido, do colega de Faculdade e namorada, foi a vez dela posar para a fotografia com o filho e a mulher, junto ao altar decorado com flores. Deu-lhe o braço, sorriu para o fotógrafo, uma, duas, três fotografias, e ela sussurrou para o filho. «Preciso de falar contigo, antes de irmos todos para o restaurante». Ele concordou, e não se esqueceu do recado. Quando a maratona fotográfica acabou, ele foi ter com a mãe.
«O que me querias?»
«Sabes, o teu pai, que já não vês há doze anos. Pedi-lhe que viesse cá hoje, para te desejar felicidades. Ele arranjou uma brecha no meio da sua vida no estrangeiro e das suas viagens constantes, e está lá atrás, no último banco da igreja!».
O seu rosto iluminou-se, olhou para o fundo da igreja, e reconheceu o pai pelas fotos de álbum, mais velho e de cabelos brancos e, naquele momento acenava-lhe de sorriso aberto, em pé, entre dois homens altos.
Correu até ele, e deram um abraço forte. O pai chorava …

Comuna

«Tens fêmea?». Perguntou-lhe Gisela, a nova colega de trabalho, na pausa para o café. «Não!», disse, sem entoação nem intenção. «Hoje vou contigo para tua casa. Se quiseres, posso lá ficar a noite!». Concordou. À saída, ela esperava-o. Sentou-se ao seu lado no carro e foi com ele. Mostrou-lhe o apartamento onde morava, e ela gostou, da cozinha moderna, da sala toda equipada, do elevador futurista do prédio e, sobretudo, da cama enorme com quatro por dois metros. Tiraram uma pizza do congelador, aqueceram-no no forno, e comeram-na, acompanhada com um garrafa de tinto que ela descobrira, cheia de pó, no vão das escadas. Ela tirava medidas à casa, planificava as coisas, estimava os espaços. Nessa noite, ela levou-o para a cama e fê-lo passar um bom bocado, tirando um pouco o cheiro a bolor do seu pénis. Na manhã seguinte, deitados preguiçosamente na cama, a comer o pequeno-almoço que ela havia preparado, ela expôs-lhe o seu drama pessoal. Tinha, na cidade, a irmã adulta e a mãe sem tecto…

Ligações preguiçosas

Raul e os amigos tinham poucas coisas em comum, os lugares onde trabalhavam, os interesses e afecções, ou as preferências e antipatias, tudo diferia; nem os clubes de futebol da sua simpatia, ou a fraternidade obtusa das respectivas filiações políticas, ofereciam matéria para longas conversas ou debates. O máximo denominador comum de todos eles, é que eram pessoas desenraizadas, sem laços, tinham família, pais, mulheres e filhos, mas fugiam a estar com ela. Encontravam-se ali todos os dias, na mesma mesa do mesmo bar, bebiam cervejas uma atrás da outra, fumavam, falavam ao acaso e nem sempre sobre as mesmas coisas, por vezes, escapuliam-se para as traseiras para enrolar e fumar um charro, e voltavam ali para mais umas cervejas, ou um uísque ocasional. Raul achava que era uma rotina estúpida, e dava consigo a pensar que não sabia o que continuava a fazer ali. Mas quando se despediam, às horas do fecho do bar, ele e os amigos usavam os mesmas expressões de sempre: - Até amanhã! - Amanhã…

Olhos

Nunca via o mesmo quando olhava pelas janelas da sua casa, através delas, de dentro para fora, tudo mudava em segundos, a cor das folhas, o voo dos pássaros, a aparente quietude dos edifícios de pedra, ela maravilhava-se com esta mutação contínua, por vezes, distinguia mesmo outras formas por entre as formas do mundo, pessoas que andavam em lugares improváveis, na vertical das paredes ou a uns palmos do chão, sombras vagas como de serpentes aladas, silhuetas de pirâmides ou pagodes a insinuarem-se sobre a linha dócil das colinas. Um dia viu-se a si mesma, ou o que parecia ser a sua imagem, com a saia roxa e a blusa de cetim, e o chapéu largo a espanejar sobre os seus cabelos soltos, viu-se a andar pelo jardim e sair pelo portão da rua, com uma mala na mão. Não sofreu nem sentiu receio. Tudo mudava em segundos, sentiu que estava a chegar a sua hora de partir, e viver de alguma forma no outro lado da janela.
Ela acordou de madrugada com o corpo dorido, dobrado e quebrado no assento do carro. Limpou os vidros embaciados com uma ponta da camisola presa entre o indicador e o pulso, e lembrou-se que tinha o carro estacionado junto ao hipermercado. Cheirava mal, a vómito e urina, inclinou-se e anichou a cabeça entre o volante e a porta e confirmou as suspeitas, mijara-se, ainda que não tivesse noção alguma das circunstâncias. Ao seu lado, o pastor evangélico ainda dormia, um polegar enfiado na boca como uma criança de colo e o crucifixo preso entre as pernas, pensou que aquilo devia ter alguma conotação freudiana, e sentiu vontade de lhe vomitar em cima, mas acabou por abrir a porta e vomitou antes na jante duma roda, logo, acocorou-se ao lado e mijou com gosto. Ficou melhor, apesar do fel na boca e da cabeça que lhe doía como se lhe tivessem aplicado um murro. Precisava de um banho, mas a sede era maior. Descobriu uma garrafa ao lado dos pedais, sem tampa, mas deitada, com um resto de precios…

O Fado

O Fado de Lisboa

O seu Fado, o seu destino, não tinha o enlevo dos acordes de uma guitarra, ou os versos inspirados de um boémio bêbedo. Tudo isso ficara para trás, na cave típica e enfumarada, onde ouvira fado e esbanjara dinheiro alegremente.
O seu Fado, esse, conheceu-o na viela escura, onde a amante de ocasião lhe cortou a jugular. Os fados na memória oclusa, fizeram as pedras da calçada chorar sangue.

O Fado de Coimbra

Desde rapaz novo que se habituara a resgatar vidas às águas do Mondego, e fizera disso a sua ocupação de vida como se seguisse um destino traçado do alto. Já ancião, continuava a atirar-se à água para tentar salvar os seus semelhantes, ou percorrer o rio no seu barco para recuperar da dissolução os corpos vencidos dos que se haviam afogado. Uma noite, durante umas cheias tumultuosas, o rio Mondego pareceu exigir em troca a sua própria vida, e arrastou-o nas águas revoltas como um tufo de erva. E foi então que alguém o salvou, nadando com energia e arrastando-o para a m…

Silêncio, que se vai contar o fado!

Telemiligrama Minguante nº 12 stop tema o fado stop sessenta e quatro fadistas em noites de arromba stop projecto-centopeia com muitas pernas para andar non-stop

Telegrama Uma palavra aos e-books editados pela Minguante, uma forma inovadora de dar espaço aos autores, e na qual tive a grata experiência de participar. Se lhe passou despercebido, ou não está actualizado, confira os autores: Luís Ene, Paulo Rodrigues Ferreira, Carlos Seabra, Fernando Gomes, myself, Ana Mello, Rita Tavares de Melo, Angela Schnoor, Edgar Borges, e Carla Ribeiro.


Romantic beliefs

O que existe de menos inefável em encontrarmos a nossa alma-gémea, é a pele dela ser fria ao tacto, como o vidro.

Cluedo

Morreu na Biblioteca, com o crânio esmagado por uma Bíblia do rei Jaime, uma edição monumental com capa dura com um alfa e um ómega em metal dourado.
O inspector não queria acreditar que a Bíblia pudesse ter mudado a vida daquele homem, e manteve a sua suspeita inicial de que ele havia sido mortalmente golpeado na cabeça por alguém com um relógio de ouro.

Dúvida metódica

A reabilitação dos teledependentes, é feita com abraços?

Comer a carne

- Pssst, onde é que ele está? - O seu pai está no quarto, já me perguntou o que está a fazer no lugar da poltrona, a caixa de fruta emborcada no chão. - O que é que disseste? - Que era uma homenagem dos rendeiros da herdade. - Essa foi de génio, mulher! Olha, eu e a mana vamos levar a cómoda Luís XVI. Ele não precisa dela, porque nem consegue dobrar uma camisola. - E a roupa? - Pomos em baixo da cama de rede, em cima do tapete persa...não...o tapete também é vendável, em cima dum lençol velho! Ouvem um barulho nas escadas e calam-se todos. Os irmãos encostam novamente a cómoda à parede, no instante em que o ancião entra, com a bengala na mão e vestido com o seu roupão felpudo, a barba grisalha por fazer. - Ah, são vocês, tão cedo! Ouvi vozes e vim ver. Os dois abraçaram-se a ele, estreitando-o emotivamente nos seus braços. O velho mantém o olhar cego perdido algures, e cochicha. - Queria mesmo falar com vocês, digam à Ana para sair. A mulher não precisou de instruções e saiu pelo próprio pé. - Es…
O indigente acordou enregelado, embrulhado nos cobertores retesados pelo frio. À sua volta desenrolava-se uma grande algazarra, um eclipse havia velado o Sol e as pessoas faziam barulho para afugentar o monstro que havia devorado o astro, pretendo assustá-lo com gritos e uivos, e com o som caótico e pavoroso de cornetas, pandeiretas, pratos metálicos, ferrinhos, bombos, e lãs roçagadas. O desgraçado juntou-se à festa com o bater dos dentes, marfim contra marfim. Quando a luz voltou a inundar o mundo, todos ficaram suspensos num silencioso êxtase religioso, apenas cortado por aquele sacrílego bater de dentes. Inspirados pela suspeita de que o monstro se havia refugiado naquele homem sujo, viraram contra ele as suas armas, e brindaram-no com panelas e pratos, cornetas e baquetas.

Não teve fama, mas teve glória, ou antes, Glória - quinze minutos de Glória, aqueles que demorou a conhecê-la no elevador.

Narrador e tema

De Italo Calvino:

«Em resumo: estava possesso daquela mania característica de quem conta histórias e que, a determinada altura, não sabe já se as mais belas são as verdadeiramente acontecidas e em relação às quais só o recordá-las é o suficiente para arrastar consigo um oceano de horas passadas, de sentimentos minuciosos, tédios, felicidade, incerteza, vanglória, náusea de si próprio, etc., ou as histórias inventadas, em que tudo pode acontecer segundo a vontade de cada um e todas as coisas aparecem fáceis. Mas depois constata-se que, por mais que se invente, já se está a falar novamente de coisas que aconteceram ou cuja compreensão existiu na realidade enquanto elas eram vividas.
Cosimo estava ainda na idade em que a ânsia de contar confere igualmente uma ânsia de viver, e se crê que não se viveu o suficiente para se poder contar tudo aquilo que se deseja
(...)».
("O Barão Trepador", c. 16, Editorial Teorema, Lisboa)
Não se inveja as pessoas cujo íntimo está repleto de mesuras e sentimentos gentis e fraternos, que dão mais valor à colorida flor do cacto do que ao próprio, que deslizam pelos dias como se este fosse um escorrega de geleia doce, e se socorrem de todos os ideais e princípios para desculpar e louvar os monstros que lhes castraram a vida. Não se inveja, porque não conseguiríamos vestir a pele delas, dado que a pele que nos cobre não é macia nem serve para ser tosquiada, porque aprendemos a usar a boca para beijar e rasgar com o mesmo empenho, e a apertar a mão do próximo com as garras recolhidas, mas presentes. Ressumamos em nós o desencanto, o nojo e a fúria - arestas, gumes, espinhos, aguilhões, que podem esfacelar e cortar, ferir e mutilar. O que nos dissocia do sociopata e do cínico empedernido, é que essas arestas vítreas, sob uma dada luz - de pessoas, valores, afectos - se comportam como os laminares cacos de vidro no interior de um caleidoscópio, transmutando os estímulos num ar…
Teve sempre medo das palavras, furtava-se ao seu encontro e escondia-se quando lhe saíam ao caminho, no face oculta de uma esquina, por detrás de uma pedra, duma moita, de uma pessoa, por detrás de si mesma, conseguiu viver uma soma considerável de anos neste lusco-fusco de semi-ocasos e breves eclipses, sem chocar ou sofrer com as palavras, mas sabia ser seu destino que não lhes podia fugir para sempre, e um dia apanhou-as pela frente, nuas e de face descoberta. As palavras corresponderam aos seus medos e terrores, e maltrataram-na com barbaridade, humilharam-na, despiram os seus atavios e guirlandas, esborrataram a maquilhagem dos seus pretextos e ficções. A partir desse dia, perdeu o medo das palavras, mas passou a viver obrigada por estas, a coabitar com a verdade.

Era uma vez...

...um homem que partiu da sua terra para procurar exílio noutra terra sob um outro céu, e não sabia a qual deveria permanecer fiel, se àquela em que nascera e onde as suas raízes latejavam ao som de uma língua diferente e de músicas de uma outra existência, ou à que lhe deu guarida, oficiosa e oficial, a terra que pisava todos os dias, procurando conhecer o ritmo das suas marés minerais.

Era uma vez um homem exilado e dividido, que refugiou todas as partes de si na pátria íntima do amor de uma mulher.

OR

Imagem
(img)Atirou a caneta para um canto do tampo da secretária, e levantou-se. Foi espreitar a mulher. Estava sentada aos pés da cama da filha, que dormia, deitada de lado, com um lenço perfurado a velar-lhe a boca. Ela sentiu a sua presença e reuniu-se a ele no corredor.Voltou à secretária, tentando trabalhar mais um pouco. A mulher sentou-se ao de leve no tampo, e fez-lhe uma afago no ombro, sentia a tensão no seu silêncio.
- Não gosto de ver, faz-me impressão, qualquer dia a tua filha sufoca, além do mais, não é salutar, o lenço está carregado de germes, do ar viciado que lhe sai dos pulmões.
Ela já estava a prever, não era a primeira vez que ele tocava no assunto. Esperava que o seu protesto se desvanecesse como de outras vezes, mas hoje ele estava insatisfeito e rezinga, e não baixou a guarda.
- Eu compreendo que foi assim que foste criada, que lá em África faziam o mesmo contigo, mas já vieste para cá há quatro anos, vocês já falam bem o português, tu tens um emprego e a tua filha anda …

Conversa de refeitório

- Vou-te contar uma coisa, mas não digas a ninguém! - Prometo! - Em breve vou deixar de comer estas comidas sensaboronas que provocam problemas digestivos, também vou deixar de aturar o nosso chefe e de passar oito horas de ansiedade por dia, preso aos riscos do gráfico electrónico da máquina. - Não me digas... - Também não vou precisar de andar sempre na secção de pessoal a reclamar por cortes no ordenado e faltas inexistentes. - Caramba! Arranjaste outro emprego ou saiu-te a sorte grande? Porque é que não estás aos saltos, de contente? - Tenho leucemia!

Ninguém o enganava, era um PRO do Pão por Deus, sabia quem morava onde, o que dava e como davam. Na sua cabecinha de cabelos doirados, os seus trajectos estavam delineados previamente, e os outros miúdos iam-lhe à cola na condição de lhe confiarem uma parte dos seus proventos, mas iam em pequenos grupos faseados para não malbaratar a oferenda. Era um sempre a aviar. Rua da Consolação, Urbanização da Encosta, Bairro das Fontainhas, Bairro da Estrela, davam para a manhã, à tarde, se não chovesse, podiam completar o perímetro, que abrangia os bairros menos faustosos, mas de gente igualmente mãos-largas. Este prédio valia a pena, mas só os apartamentos sete e nove, nos outros não davam nada a não ser maçãs tocadas e ralhos parvos, na vivenda a seguir, como quem desce, era obrigatório, porque choviam para os sacos chocolates e pintarolas com fartura, por vezes, um carro barato da loja dos chineses, na vivenda de muro de hera, não valia a pena pararem, a menos que quisessem ficar grogues co…

(a insularidade é um estado de espírito)

Era um cientista, e estava em férias, mas um cientista nunca tem férias, seria como pedir a um bibliófilo que mantivesse os olhos fechados numa viagem no tempo até à biblioteca de Pérgamo ou Alexandria. Tudo à volta deste homem eram pretextos, estímulos, desafios -objectos e seres mesquinhos, como uma folha de árvore, uma formiga, um cristal de gelo, ou um punhado de areia, eram o suficiente para o arrancarem da inércia, fazendo-o vogar pelos domínios do conhecimento. Rain or shine, ele analisava, observava, registava, e se estava fora da sua formação ou da sua experiência, era bem capaz de enviar um mail ou a uma carta a um investigador x, ou ao professor y, à procura de respostas. A mulher censurava-lhe a obsessão, não sem deixar transparecer uma terna admiração por ela, e habituara-se aos seus devaneios e silêncios pensativos. Quando encontraram o tronco de árvore na areia da praia, ele isolou-se de imediato na sua atenta curiosidade. Enquanto a mulher se sentava no tronco caído, e…