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Which Blair?

Esta manhã, enfrentei o dia com um projecto de projecto a animar-me, pensei a modos que assim: gostava de escrever um argumento, a coisa parece tentadora, mas é difícil para mim empreender semelhante tarefa porque começo sempre por escrever nomes e mais nomes de um genérico virtual a colocar no princípio e no fim da obra, e a tomar o lugar do realizador e dos tipos da fotografia na elaboração da primeira cena, uma coisa simultaneamente artística e sociedade-consumística como um grande plano de uma embalagem de Tetra-Pak com leite em que no meio do prado com vaquinhas da ilustração aparecia a protagonista principal a colher margaridas, ou então, podia ser outro fundo, o rótulo dum frasco de perfume com aquelas divas de roupas vaporosas a dar saltos e piruetas no ar enquanto o herói do filme abria passagem no meio delas, desancando-as com um taco de basebol ao som de La Vie en Rose. Pelo meio-dia, achei que a minha primeira incursão no mundo do celulóide teria de ser mais subtil, sem violência gratuita nem sexo a pagar. Como estive a ver outra vez o Quase Famosos, imaginei o seguinte argumento (com o mesmo título ou um genérico idêntico) - duas estrelas de rock, uma tendo gravado no peito um punho fechado e uma rosa, enquanto o outro exibia umas setas curvilíneas cor-de-laranja, ambas nutrindo uma acesa rivalidade uma pela outra e revezando-se nos charts e nos índices de popularidade. O filme não seria propriamente sobre eles, mas sobre as pessoas que os acompanham, uma multidão de groupies de ambos os sexos, bajulosos, servis, arrebanhados e leais até ao tutano. Pelas suas estrelas, eram capazes de tudo, de serem humilhados, espancados, de limparem o chão com os joelhos e desligarem o micro-interruptor que põe os neurónios a trabalhar. Quando a sua estrela atingia o topo dos topos, saltavam da escuridão dos bastidores para os lugares que ela lhes dispensava no palco e enchiam-no até não se ver mais nada e a maré humana começar a engolir a sala de espectáculos como um tsunami de oportunistas. Devo confessar que ao fim tarde a minha febre argumentista tinha amainado, uma vez que continuava obcecado pelos nomes a colocar no genérico, sem os quais nenhuma ideia me parecia suficientemente boa para arrancar com a história. Para agilizar a aprendizagem do ofício, pensei que podia começar com um vídeo-caseiro para colocar no You-Tube, seria mais fácil porque escusava de pensar mais em nomes, e assim, pensei nisto, uma ideia absolutamente inédita, um filme só com três nomes, o meu o de um primo e de alguma moça que ele conhecesse, jovem e atraente, mas com tiques neuróticos, seria tipo assim uma cena de campismo selvagem no Gerês, num lugar meio sinistro onde havia lendas sobre bruxas e lobisomens, a história seria quase sempre filmada á noite, sob a luz de candeeiros com a sugestão de aproximação pela calada da noite de entidades sobrenaturais para nos raptarem ou tentarem vender A Sentinela. Se conseguir estender o enredo por duas ou três horas, era capaz de arquitectar um espectáculo de argumento.

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