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-É a sua vez, senhor.
Ergueu os olhos ansiosos para a enfermeira e desajeitadamente manobrou a cadeira de rodas pelo corredor, seguindo-a. Ela deteve-se na porta de um dos consultórios e fez-lhe indicação para esperar um pouco. Encostado a uma parede do corredor, uma mulher gemia numa maca, no chão, por baixo, uma larga mancha de urina. Duas enfermeiras debatiam a quem incumbia a responsabilidade daquele caso. Uns breves momentos e a enfermeira voltou com um sorriso artificial, empurrando a sua cadeira para o interior do consultório. A médica quase nem o fitou, já se havia livrado da bata e com um gesto de enfado atirou com a radiografia para cima da mesa
-Tem o pé partido e vai ao gesso - informou - Espera na segunda sala à direita, sempre para o fundo. E, por hoje, fico por aqui.
Rodou a cadeira e dirigiu-se para lá, deixando para trás a voz enérgica doutra médica que dava instruções para lavarem a doente da maca. Encontrou a sala indicada e arrumou-se a um canto com a cadeira enviesada para que não lhe dessem alguma cacetada no pé aleijado. A sala de espera estava cheia de gente. Duas mulheres choravam a um canto, pareciam mãe e filha, os cabelos desalinhados e os rostos encaixados no ombro uma da outra. Nas cadeiras do lado contrário, um jovem pintalgado de tinta branca com a mão enfaixada aguardava sentado ao lado de uma mulher suja e feia, com cabelos curtos e uma camisola lilás puxada quase até aos joelhos de um corpo magro e esticado. Ela falava sem cessar, a boca de maxilares pronunciados abrindo e fechando sem cessar como a boca de um peixe. Aos seus outros companheiros de infortúnio já nem mesmo os tentou mirar, mas pelo meio ainda se ouvia um vozeirão revoltado e uma garganta feminina a tossicar aflitivamente. Para se isolar do que o rodeava, tentou prestar atenção ao ecrã de televisão, mas não se conseguia ouvir nada e as imagens de gente a dançar numa festa ainda o deprimiram mais. O pé latejava-lhe e parecia-lhe que não conseguia respirar como deve ser, o coração aos saltos como se tivesse acabado de apanhar um susto. Fixou o olhar num ponto determinado da sala, o ângulo da parede ao pé de uma flor de plástico com folhas largas e viçosas. Duas horas se escoaram naquele clima dantesco. Apenas o homem de voz cavernosa havia saído, depois de um médico o ter tranquilizado com o argumento do carácter rotineiro de uma qualquer cirurgia. A mulherzinha oculta tossia ainda com mais força mas, de resto, mantinham-se todos nos mesmos lugares, vogando num mar de incertezas. Aquele tempo todo na cadeira foi de um desconforto terrível, e por precaução, movia lentamente o pé estendido quando o sentia a ficar dormente, sempre receando que o osso partido lá dentro rompesse alguma veia. Estava a sentir-se de novo angustiado, como se tivesse no peito um novelo de nervos a comprimir-se. Foi então que viu entrar o homem que o ajudara a sair do carro sinistrado e o acompanhara até ali na ambulância, a falar quase ininterruptamente durante todo o percurso
- Então como vai? – perguntou-lhe, esticando a mão. Balbuciou uma resposta de agradecimento e já ele se sentara na cadeira ao lado – O que é que os médicos dizem?
- Um pé fracturado.
O outro soltou uma pequena risada, que polarizou a atenção de todos
- O seu carro ficou completamente escaqueirado – exclamou – o motor do carro parecia querer abraçar o poste que você apanhou pela frente, e você fica-se pelo pé partido. Você é um homem de sorte... um pé partido... - depois, abaixando a voz para um tom de confidência, inquiriu apontando para o tecto - Diga-me, você tem algum padrinho lá em cima?
Aquela pergunta inesperada deixou-o ainda mais confuso, pareceu-lhe que ele poderia estar a referir-se literalmente aos andares superiores do Hospital e aos longínquos meandros da administração, mas uma nova risada desfez o embaraço. Depois, num tom mais sério, prosseguiu: “Entrei em contacto com a sua esposa como você me pediu, ela deve levar perto de uma hora para cá chegar...”.
Agradeceu-lhe novamente, pela décima vez naquele dia agitado. A ideia de que a mulher vinha a caminho dissipou-lhe os muitos receios, como um sinal de que a vida dava sinais de retomar o seu eixo depois daquele solavanco estúpido em terra-de-ninguém.
- O pessoal daqui esteve todo a jantar – explicou de seguida – isto atrasa a vida a qualquer um.
O seu samaritano era um vendedor de produtos farmacêuticos ou outra coisa qualquer que significava o mesmo. Nele, nada parecia deixado ao acaso, o modo confiante e enérgico como apertava a mão, as expressões adequadas e irrepreensíveis, a boa disposição com que anulava o cansaço ou a impaciência dos seus interlocutores, apoiada por um vasto repertório de anedotas e temas de conversa.
- Está a ser operado um que também se ficou num acidente, mas esse não tem hipóteses, o carro dele foi trucidado por uma semi-trailer – depois meneou a cabeça para as duas mulheres, já exauridas de lágrimas - Aquelas duas choram por um pedreiro que ficou debaixo de uma parede...os ossos dele ficaram como vidro moído. Não passa d’hoje. Quanto a si, não tema, a sua esposa vem a caminho e os seus filhos tem muitas saudades suas.
- Obrigado, muito obrigado!
O vendedor foi chamado com muitos bons modos por uma médica, e, pouco depois veio uma enfermeira que o levou á enfermaria onde lhe enrolaram o gesso. Alguns conselhos de rotina, e a cadeira foi empurrada para a saída, para o excretar daquele organismo vivo que era o Hospital. A enfermeira deixou-a na sala de espera das visitas, e ajudou-o a passar para uma cadeira cinzenta almofadada. Enquanto esperava pela mulher e passavam carpideiras e gente triste e suja, sentiu um aperto no coração e esteve quase a vomitar, com o fel das entranhas a aderir á boca. Sentiu uma mão fria na testa, ergueu os olhos e descobriu a médica que o atendera no final do turno, acocorada junto a si. Estranhou, porque ela lhe parecera alheia e indiferente, com aquela frieza que é induzida, supunha, pela rotina de uma grande hospital.
- Tenha calma consigo - disse-lhe ela, muito serena - você tinha a marca, e a morte passou-lhe ao lado. Não era a sua hora.
Sorriu-lhe, sem saber o que responder. Ela ergueu-se, compôs a saia e saiu do edifício depois de trocar algumas palavras com o segurança à porta. Tenha calma consigo, a marca, virou e revirou os pulsos á procura dalgum signo cabalístico. Quando a mulher chegou, ele estava a mirar as linhas da mão como se as conseguisse ler. Ela ajudou-o a levantar-se e tomaram o caminho do parque de estacionamento. O segurança despediu-se com um aceno como se o conhecesse. Retribuiu, e olhou mecanicamente para o relógio como se isso tivesse alguma importância. Qualquer hora era boa para voltar para casa.

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