Sofrer por antecipação

Era a sua cruz, sentir na pele as coisas que ainda estavam por vir, o que era absurdo e sabia-o, porque o futuro não existe porque ainda não veio a ser e só poderia existir se o tempo fosse uma partida do universo, mas sofria antes, sentia na pele e na alma as dores e os sintomas das desgraças que o iriam assaltar um dia, equimoses, lanhos na pele, dores nos ossos e os dias passavam e vinha a descobrir a que se deviam, uma luta, uma queda, uma faca aguçada que a mulher brandiu diante de si numa discussão violenta. Sofria antes e sofria duas, três vezes, porque se atormentava sobre o que poderia ter pela frente. Tinha medo de sentir de repente uma dor atroz, do peito esmagado nalgum acidente de carro, ou os ossos a quebrar numa queda ou a sensação de um tumor a devorá-lo por dentro, e isto porque aprendera a respeitar a dor como se respeita aquilo que nos transcende e nos amesquinha e nos mostra que não valemos nada. Mas os dias passavam sem grandes dramas, reais ou por antecipação, a sua cruz nem pesava muito, na verdade, começou a andar um pouco adormecido, a sentir-se sedado, como se lhe tivessem dado morfina para as dores ou estivesse a beber Chablis durante um belo banho de banheira. Ainda antes de saber, suspeitava, por antecipação, que os seus dias de dor estavam a chegar ao fim.

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