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O Meduso

Não há modo mais cómodo de conhecer uma pessoa do que pelas suas palavras, evita os contactos imediatos de terceiro grau, ter de ver ou sentir os olhos enormes e as orelhas pontiagudas, o colarinho surrado, os pêlos a sair das ventas, o hálito de bode, as feições de gárgula ou os cascos no remate das pernas. Mas isso nunca ocorre a quem só se prende ao tom da voz ou ao teor das palavras. Para Ana, conhecer pessoalmente o Luís, que começara por ser um contacto de telemarketing, era uma opção tentadora, e disse-lhe - podemos tomar um café, ou uma água, falamos um pouco como costumamos falar ao telefone, sinto apenas curiosidade para conhecer o rosto das palavras que te conheço. Ele tentou demovê-la. Era melhor ficarmos por aqui, tu constróis o teu retrato-robot imaginário, e continuamos amigos nos dois extremos do mundo real, afinal, não é por acaso que só aqui é que encontrei uma hipótese de emprego. Vá lá! - Insistia ela - não podes estar assim tão mal, e mesmo que estivesses, conheço as tuas palavras e é isso que interessa, a beleza interior, a pérola dentro da concha rude e áspera. Está bem, anuiu ele ao fim de alguma insistência, no café de que falamos, ás quinze horas. Hurra! - Gritou ela, no paroxismo da sua curiosidade comichosa. Desligou o telefone e mirou o relógio. Meio-dia. Uma boa hora. Almoçou nas calmas e saiu sem se arranjar ou maquilhar. Queria ir como era, natural como as conversas que costumavam ter, sem fantasias nem figuras de estilo. Desejava apenas conhecê-lo, ver a face da moeda que para ela tinha algum valor. Andou pela cidade a ver montras sob um frio de rachar e, perto da hora combinada, dirigiu-se ao ponto de encontro, um café numa rua pedonal de comércio. Com o tempo mais ameno, a sua esplanada era muito concorrida, mas num dia de Inverno como aquele, poucos eram os bravos que ousavam sentar-se nela. Achou piada que aquele troço da rua fora decorado com estátuas realistas em tamanho natural, de pessoas que caminhavam com os filhos e os sacos de compras pela mão. Sempre era diferente da decoração obsessiva com motivos natalícios. E o engraçado é que algumas das estátuas pareciam de gente que conhecia, do bulício das ruas e do cruzar ocasional nos lugares públicos. Não pareciam apenas, eram as estátuas que as tomaram como modelo. Ou elas próprias, petrificadas? Pela primeira vez naquele dia, começou a achar que aquele encontro podia não ser uma grande ideia e, quase sem dar por isso, passou ao largo, a admirar as montras silenciosas.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...