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O Fantasma do Natal Passado

Registo pessoal. Caldas da Rainha, há tantos anos que me parecem mentira. Trabalhava em comércio e, à noite, estudava no dito Liceu, numa rotina cheia de picos de stress e correrias. Nesse tempo, não sabia o que era ter um carro e, como a minha casa era a doze quilómetros da cidade, durante o tempo da escola vivia num quarto alugado, umas águas-furtadas numa prédio decadente onde a melhor coisa que aí tinha eram duas janelas ogivais, junto ás quais gostava de me sentar ás tantas da noite na companhia de um livro ou de um bloco de notas ou, simplesmente, a olhar preguiçosamente os telhados e as ruas. À segunda-feira chegava de camioneta à cidade com a mala feita (provisão de roupa lavada), e ia logo ao quarto desfazer a mala antes de pegar ao serviço. No final do trabalho, havia dias em que ia directo para a escola em marcha de corrida, e só depois é que trincava qualquer coisa pelos cafés junto á escola, para aguentar o estômago até perto das dez da noite, quando o stress levantava como uma poalha de nevoeiro, e podia dar-me tempo para ir tomar um banho e comer qualquer coisa mais substancial. Numa dessas Segundas de aterrisagem na cidade, a rotina foi um pouco diferente. Começou segundo o roteiro, arrumar, trabalhar, almoçar, trabalhar novamente e...Ála para a escola! No final das aulas, apercebi-me de que não tinha dinheiro nenhum comigo e fui a uma caixa Multibanco. Para entrar num banco, XARAAM!, também não tinha cartão. Deu-me uma luz, deixara-o em casa, estivera a arrumar a carteira e ficou largado em cima da mesa-de-cabeceira, sabia que tinha ficado lá, com uma das pernas do despertador em cima. E eu com uma fome do catano. Corri até ao quarto, rabisquei nos bolsos do casaco e encontrei umas moedinhas, mais duas que tinha na carteira e totalizava vinte e sete escudos certos. Tinha de jantar com aquilo, e de manhã ia ao Banco com o BI e levantava dinheiro. Saí para a rua. O Natal estava a duas semanas e decoração das ruas e lojas não o deixava esquecer. Andei pelas ruas das Caldas ao acaso na vaga esperança de encontrar um amigo ou um colega de escola, mas ninguém parava nas ruas com aquele gelo. Fome é três dias, ocorreu-me o dito, enquanto entrava num café próximo á escola comercial à procura de uma ementa ao alcance da minha bolsa. Costumava ir amiúde àquele café com os colegas de trabalho tomar qualquer coisa. Estacionei diante de um expositor de fritos e snacks, depois de ter constatado que a montra dos bolos estava vazia.
- Um café ou um fino? - Perguntou-me a dona, com um sorriso.
- Não, hoje não, Dona Eunice, jantei muito cedo e vou antes comprar qualquer coisa para comer antes de me deitar.
Estudava os preços, era capaz de me safar.
- Já acabaste as aulas?
Respondi afirmativamente, e só então reparei que ela me olhava atentamente. Ela intuiu, percebeu a fome, talvez eu deixasse transparecer alguma ansiedade na voz, ou no modo como segurava as moedas no punho fechado.
- Então, se já tiveste aulas, entra aí para a cozinha e faz-nos companhia. Estive a fazer moelinhas e íamos agora começar a comer - como eu hesitasse, tolhido pela surpresa, ela insistiu - somos só nós, o meu filho e a namorada.
Contornei o balcão e entrei na cozinha. O marido dela deu-me um aperto de mão que me fez doer os ossos. "Agora somos dois Zés à mesa - gracejou - estamos em vantagem".
Sentei-me num banco de madeira depois de cumprimentar todos. Consegui disfarçar o facto de estar emocionado com aquela oferta inesperada. Um tacho com moelinhas, pão caseiro, vinho de um garrafão branco de cápsula verde que o anfitrião tinha pousado no chão ao nosso lado. As paredes do meu estômago batiam palmas. Nunca comi nada que me soubesse tão bem, e arrisco-me a dizer o mesmo dos dias futuros, mesmo que me seja dado participar em requintadas provas gastronómicas.

(Obrigado, Dona Eunice!)

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...