Não sabendo o que fazer à sua vida, decidiu perder um pouco de tempo com arrumações. Voltou à livraria no Sábado à tardinha, carregando um cartucho de castanhas compradas na praça (não conseguira resistir). A livraria esperava-o como uma confidência ansiosa, comeu as castanhas, rodeado pelos seus livros, lavou e enxugou bem as mãos e deitou-as à obra. Começou por retirar todos os livros das estantes, acastelando-as numa fortaleza de papel bem no centro do estabelecimento, depois, munido com um espanador, voltou a colocá-los nos seus balcões de madeira, mas com a lombada para dentro e de pernas para o ar. Levou horas naquilo, envolvido pela nostalgia metálica da música de Charlie Parker. Como era boa a sensação de mexer em livros, de os sentir como volumes, como ar que se desloca, como caudas de pavão a abrir quando fazia correr as folhas entre os dedos. Alguns, lidos em segredo em outras noites como aquela, demoraram-se nas suas mãos, exibindo uma frase, um verso, uma imagem, como breve relance de um sexo amado. Muitas horas mais tarde, deu a sua tarefa como concluída. Devia ser quase manhã. Como o tempo passa depressa quando estamos com aqueles que nos são queridos! E como ia ter saudades daquele lugar! Deixa-te de sentimentalismos - dizia para si mesmo. Fora despedido, já não era preciso ali. O iliterato, analfabeto e nhurro que o mandara embora, só na semana seguinte é que se iria lembrar que um dia lhe confiara uma cópia da chave da livraria.

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