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A lei moral

"Duas coisas que me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento dela se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim" (Kant).


Bastou abrir a porta e olhar aquele homenzinho de cabeça enterrada entre os ombros, para se sentir mais tranquilo, estava na mesma, tal como se lembrava dele, anónimo, inapercebido, transparente.
- Professor - falou o homúnculo - há quanto tempo! Fiquei admirado quando recebi a sua carta a convidar-me para ser seu assistente. Nunca esperei! Pensava que já não se lembrava de mim...
- Olá, como estás - saudou, estendendo-lhe uma mão frouxa - vamos directos ao que interessa...cumpriste as minhas instruções?
- Á risca! O senhor disse-me que isto era uma pesquisa confidencial, e ninguém sabe que estou aqui. Tirei uma licença sabática. Mas nunca julguei que me chamasse um dia, logo eu no meio de uma multidão de inteligências prodigiosas. Lembra-se do que me disse um dia? Que eu não tinha qualidades para ser um bom investigador, que me faltavam sinapses e que não era capaz de estabelecer relações de causalidade, quanto mais para intuir essas relações antes delas se tornarem evidentes, foi o senhor quem me disse que o melhor que tinha a fazer era dedicar-me ao Ensino.
Não estava igual, a frustração enchera-o de palavras fúteis, provavelmente ensopadas em álcool. Deixou-o falar, enquanto o guiava através da casa até ao jardim das traseiras, um resmungar caótico que se interrompeu quando chegaram ao pé do pavilhão. Ficou, literalmente, sem fala. Um pavilhão semi-esférico, gigantesco, com gigantescos painéis solares e intrincados meandros de tubos e condutas eléctricas. Pasmado, seguiu-o até ao vestíbulo, onde vestiram fatos estanques antes de entrarem no pavilhão através de uma câmara intermédia de descontaminação. O interior era desconcertante, parecia um pequeno zoo, diversos animais eram mantidos em dependências isoladas, onde todos os seus ritmos orgânicos eram registados por sensores ligados ao sistema informático central. A princípio apenas entreviu o sector dos répteis e pequenos mamíferos, com muitos compartimentos vazios, mas a surpresa aumentou quando chegaram à zona dos primatas, onde avistou um chimpanzé e, surpresa das surpresas, um orangotango. Após um pequeno périplo pelo pavilhão, saíram para o vestíbulo.
- Um orangotango, professor! Você tem um orangotango na sua propriedade! Como é que é possível?
Chegou-se até um armário, retirou uma garrafa de uísque e dois copos e serviu um ao seu novo assistente.
- Já ouviste falar em Allan Kardec?
- ...
- Allan Kardec, num trecho clássico, tenta definir a alma e diz, grosso modo, que a alma não pode ser uma coisa imaterial ou não ser nada, a alma, se existe, tem de ter substância, ter peso, ser algo, ou não se pode dizer que exista. A ciência não gosta da palavra alma, porque a considera além-fronteiras, mas isso é um erro, a alma é demonstrável e se demonstramos que a alma existe, reabilitamos a possibilidade de algo existir depois da morte.
- Demonstrar como? Ou antes, como é que o senhor, ateu e iconoclasta, entrou nestes domínios enevoados?
- Não interessa. Adiante! Há uns anos, investigadores independentes descobriram que o corpo humano perde nitidamente peso nos minutos subsequentes à morte, e teorizaram que essa perda de peso podia ser atribuída à saída da alma do seu invólucro físico. Mas ninguém estudou isso cientificamente, ninguém se deu ao trabalho de fazer experiências, quantificar, exumar padrões, construir provas. Foi essa a minha empresa, reuni fundos aparentemente inesgotáveis de muitos religiosos de algibeira e construí estas instalações. Aqui dentro, todos os seres vivos estão expostos a condições ambientais rigorosamente uniformes, e estudo o que sucede aos seus corpos depois da morte. O objectivo é tentar descobrir se o corpo humano revela um processo distinto dos restantes mamíferos e, muito particularmente, doutros primatas que, como mesmo você deve saber, tem um ADN noventa e nove vírgula nove por cento, similar ao nosso. Se houver uma diferença inconciliável com dados objectivos, essa diferença pode ter a alma ou espírito como explicação para-científica, como antes se suspeitava sem procedimentos rigorosos.
- Mas para isso, você não tem de fazer a mesma experiência com um ser humano? Para completar a demonstração?
Touché! O seu aluno medíocre tinha progredido qualquer coisa naqueles anos todos.
- Não necessariamente. Este é um estudo preliminar a ser apresentado à comunidade científica, para se criarem as bases para a fase mais ambiciosa do projecto, na qual se trará para estas instalações algum dos doentes em coma dos grandes hospitais para a hora de desligar as máquinas. Chamei-o porque preciso de ajuda nesta fase do projecto em que vou introduzir os primatas. Há dados para processar, verificações a fazer, o rigor deve raiar a perfeição. Se tudo correr bem, o grande evento está calendarizado para daqui a um mês.
- Pode contar comigo, professor, sinto-me honrado por lhe ser útil, por poder servir uma das pessoas que mais admiro e respeito. Não estou a bajulá-lo, reuni ao longo dos anos todas as suas dissertações e artigos e tenho-os estudado com uma verdadeira veneração.
*
Não! Não podia ser verdade! Durante horas viu e reviu os dados, extraiu gráficos, analisou processos, e o resultado não se alterou. Os primatas e o que mais se parecia com eles, o seu assistente, jaziam mortos na sala final. Não havia nenhuma diferença significativa no seu peso post-mortem. O homem não se destacava do restante reino animal, não havia centelha divina, fogo místico, alma eterna. Abandonou as instalações com a garrafa de uísque e um copo. Sentou-se num pequeno muro do jardim, com as estrelas sobre si. Bebeu um trago. Tinha de haver um erro, devia ter-se esquecido dalguma coisa. Tinha de repetir tudo para se certificar dos resultados. Repetir uma e outra vez até não haver espaço para dúvidas. O problema maior seria arranjar mais primatas.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...