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Dulcinéia

Como é que se foge do Natal, quando ele está por todo o lado? Era uma pergunta estranha para se colocar, agora que se via num centro comercial de Lisboa em pleno Dezembro, e a um Domingo. Mas não tivera opção, tinha uma tardia prenda de aniversário para comprar. Detestava tudo no Natal, os Pais-Natais, árvores, renas, cenas e quejandos de Natal, a música, então, tinha o condão de lhe suscitar cólicas e o Silent Night, esse era o tema mais provável de um dia o levar ao suicídio. Mas já estava despachado das compras e subiu as escadas rolantes até ao último piso, onde a delirante colmeia humana mais parecia próxima de uma supernova psicótica. Assim com’ássim, comeria qualquer coisa, via um filme e debandava dali. Encontrou algo que lhe apetecia comer, um menu de fried chicken, também encontrou uma mesa isolada e instalou-se. Comeu, metido consigo mesmo, ignorou um grupo de estudantes que faziam um peditório para uma viagem de fim-de-ano, e exibiu a sua carantonha de gárgula quando um Pai-Natal se dirigia a si para lhe tentar vender alguma coisa. Puxou de um cigarro e procurou os cinemas. Nas escadas rolantes, ouviu uma voz que o fez estremecer dos pés à cabeça, não era uma voz, era um pensamento que se insurgia entre os seus como uma sopro gelado nas têmporas: “Ajude-me!" – disse-lhe a voz. Olhou em volta, confuso, mas só encontrou rostos fechados, ausentes. De novo a “voz” no seu cérebro: “Ajude-me, por favor! Eles andam atrás de mim, e querem fazer-me mal!”. Continuou a procurar e encontrou por fim uns olhos que o fixavam, os de uma mulher que ascendia nas escadas, a poucos metros. Uns cabelos pintados de negro emoldurando um rosto muito lívido. Os seus olhos choravam, e o apelo repetiu-se quando se cruzaram. Virando-se, correu atrás dela, galgando aos empurrões a escada rolante até atingir novamente o piso dos restaurantes. Descobriu a sua figura e seguiu-a – “Por favor, não me abandone, eles seguem-me”. Enquanto a acompanhava de perto, tentou descobrir quem era a pessoa ou pessoas que a ameaçavam. Talvez o homem de passo apressado com um jornal enrolado na mão? Não, entrou no Play Center. A mulher de gabardina? Mantinha-se atrás da mulher ameaçada, mas também podia não ser ela. Naquele centro comercial, era fácil seguir alguém de longe, a muitos metros de distância. O estafeta de boné vermelho? O velho de andar desenvolto que carregava uma plêiade de sacos?
A mulher do apelo telepático continuava à sua frente, com passos nervosos e olhando amiúde sobre o ombro. Ele estava ali para a proteger e não deixaria que lhe acontecesse alguma coisa. Continuou na sua sombra quando ela voltou a descer mais um piso, numa roda de suspeitos que tomavam o lugar de perseguidores, sempre com ele muito atento e desconfiado. Por fim ela saiu da correnteza de gente e desviou-se para o corredor dos sanitários e fraldário, seguida por uma das pessoas que ele tinha debaixo de olho, um jovem de calças pretas e camisa larga caída em volta. Acelerou o passo e deteve-se junto à entrada dos W.C’s. “Estou aqui dentro. Ajude-me!”, voltou a voz. O aqui era uma porta, num dos lados. Abriu-a de rompante e entrou. Lá dentro estava escuro, sentiu a porta fechar-se atrás de si. A luz acendeu-se e a primeira coisa que viu foi pequenos carros de limpeza com esfregonas e vassouras enfiadas, rodou instintivamente sobre os calcanhares e a sua surpresa não podia ser maior: a mulher que julgava estar a defender, estava diante de si, empunhando uma arma com silenciador apontada à sua cabeça.
- Não compreendo…- disse, completamente aturdido.
- Somos todos, um – explicou ela de viva voz, antes de premir o gatilho.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...