Depois de uma noite a encher o corpo de tantas calorias e toxinas que iria levar uns dois meses a ver-se livre delas, a manhã do dia de Natal pareceu-lhe pesada e angustiante, com um vapor de ressaca e o estômago desarranjado. Pensou ir beber um café e passar o resto do dia a comer coisas saudáveis - laranjas, saladas, iogurtes, mas não! Ainda havia os restos de comidas e lambarices, e o almoço farto a poucas horas de distância. Na rua, conseguiu encontrar um café aberto e bebeu um café que lhe serviram frio, acompanhado de um cigarro que lhe soube mal. A coisa estava a ir bem. Entrou num Banco para levantar dinheiro, já à espera que a Caixa estivesse lisa. No interior, a um canto. estava enroscado um sem-abrigo. Era o Passas, assim o alcunhavam por andar sempre a reciclar beatas que encontrava apagadas na calçada. Costumava vê-lo a levantar-se de manhã do seu ninho de mantas nas arcadas do centro histórico, por vezes, a ler os jornais amarfanhados que empregava nos seus preparos diários, com um cigarro pendurado no canto dos lábios à Humphrey Bogart. Aquela noite passada no quentinho de um Banco devia ser obra dalguma alma caridosa. Tinha uma almofada nova sob a cabeça e, ao lado do corpo, uma caixa de plástico com sonhos e fatias de bolo-rei. Dormia, sonhava talvez. Aproximou-se para o ver melhor. Aquilo era um bom exemplo de uma vida humana em colapso, a inanição mental daquele estilo de vida deviam ter-lhe atrofiado o cérebro, reduzindo-o a um estado vegetativo que quase não o diferenciava dos cães vadios que percorriam as ruas em busca de alimento. Se lhe fizessem testes psicológicos, de certeza que os resultados apresentados indicariam um Q.I. dez vezes inferior ao do seu tempo de vida activa. Talvez já não se lembrasse sequer do nome ou da data de nascimento, reduzido que estava às suas funções orgânicas mais elementares. Notou que o seu gorro sebento estava aberto ao lado da almofada, e que nele reluziam algumas moedas deixadas pelas pessoas. Sacou também do bolso o troco do café e dispôs-se a juntá-lo ao tesouro. Nisto, o corpo do Passas mexeu-se, e ele abriu apenas um dos olhos, fixando-o nele enquanto sorria.
- Espero que isso não seja uma OPA hostil sobre o meu Banco...
- Não - negou - é um pequeno investimento...para você comprar um isqueiro novo.
- De que me serve um isqueiro, se não tenho tabaco?
Foi a sua vez de sorrir, deixou-lhe o resto do maço com o dinheiro, juntando-lhe em seguida o seu próprio isqueiro.
- Obrigado, amigo, agora já posso ler o jornal da manhã como eu gosto. Um bom Natal para si.

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue