INSTRUÇÕES:

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Transferência

A jovem universitária, esguia e de cabelos curtos escorridos, voltou a verificar que não havia ninguém por perto antes de retomar as explicações ao avô, um velhote atarracado de olhar ansioso.
- Noutro dia, quando lhe abri a conta no Banco, pedi este cartão Multibanco que o avô pode usar para vir buscar dinheiro. O senhor sabe ler e isto é muito simples, todas as instruções lhe são dadas - e exemplificou - aqui, quando pedem o código, o avô coloca os quatro primeiro algarismos: 1-2-3-4. É fácil de fixar, não o escreva! Se o avô se enganar, ele pede outra vez. Depois pergunta o que você quer fazer...levantamentos...aqui, escolhe a quantia, carrega e o dinheiro aparece, você tira o dinheiro e o cartão. Agora não vou levantar, é só para você ver. Acha que consegue?
O ancião pegou no cartão como se ele estivesse incandescente.
- O meu dinheiro está todo dentro desta caixa?
- Está! Está melhor aí do que enfiado no colchão ou no bule do louceiro. Você vive sozinho e tem de ter cuidado...
- E quem é que o pôs lá? A senhora que nos atendeu ou o homem de gravata que cheirava a perfume de mulher?
- Foi um deles, avô, mas isso não interessa, o senhor quer tentar usar o cartão?
- Não há uma maneira mais fácil? Tu estudas fora e isto é fácil para ti, mas eu já tenho oitenta e três mil quilómetros...
- Está bem, avô, esqueçamos o cartão. Sei que não deve ser fácil, e é a sua primeira conta. Se você precisar de dinheiro ou lhe quiser juntar mais, vai lá dentro ao balcão. Se precisar de uma ajuda, liga à mãe ou a mim.
- Está bem, eu agradeço muito.
A neta levou-o ao carro e deixou-o à porta de casa, umas ruas mais adiante. Agradeceu novamente, com o seu coração gasto extravasando de ternura pela neta adulta. Entrou em casa. Fazia-se tarde, os dias eram breves e anoitecia já. Comeu umas sopas de café com pão, acomodou o estômago com uma maçã, bebeu o seu copinho de vinho da ordem e decidiu deitar-se. Sentia-se cansado, um pouco nervoso ainda, com aquela história do Banco e do cartão. Teve um sono alvoraçado, ao contrário do que era hábito. Sonhou muito e, a meio da noite, acordou num sobressalto. Sentou-se na cama de olhos muito abertos. Como era estúpido! Ainda não tinha pensado nisso: a Caixa Multibanco tinha uma gaveta ao lado, se alguém a abrisse, conseguia chegar ao dinheiro, o seu dinheiro, que estava ali todo à mão de semear. Tinha de ver melhor aquela gaveta!
Levantou-se e vestiu-se, a preceito, sempre a preceito. Nunca fora capaz de sair de casa com um arremedo de roupa. As suas calças listadas, a camisa impecável que tirou do cabide, o colete lustroso, o par de sapatos de sair à rua que estava sempre a postos e à distância de um braço por debaixo do roupeiro de pés. Verificou as chaves e a carteira, encasquetou o boné cinzento por causa da friagem, e saiu. No seu andar vagaroso, fez o percurso inverso até ao Banco, por ruas mal iluminadas. Não viu ninguém, tão tardia e fria era a hora. Quando chegou junto ao Banco, estranhou a agitação. Um empilhador estava parado em frente à Caixa Multibanco com os faróis apontados a esta. Um homem empoleirado na empena espalhava spray de espuma sobre a sirene do alarme. A uma ordem de um terceiro elemento, o empilhador avançou com força e cravou os garfos na parede, arrancando a Caixa com grande estrondo.
Aproximou-se do que estava a coordenar as operações, envoltos ambos por uma nuvem de caliça e pelo grito abafado do alarme.
- Estão a roubar o dinheiro? - Perguntou
- Não, avozinho - gritou o outro, depois de se refazer do susto - vamos levá-lo para outro Banco!
- Ainda bem, ainda bem -murmurou, virando as costas à cena e tomando o caminho de casa - este Banco nunca me inspirou confiança...

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...