Portão do céu

Recebeu um último aperto de mão, este do guarda de serviço ao portão, deu três passos tímidos e imobilizou-se no pátio. Atrás de si a mole branca dos muros da penitenciária. Aconchegou a si os poucos haveres que transportava, o casaco no braço, a carteira com algum dinheiro em Euros (entrara com escudos e tinham-no trocado), a maleta de James Bond com alguns livros e artigos de higiene pessoal. Olhou em volta. Ninguém! O irmão disse que o ia esperar à saída, pedira-lhe que estivesse lá antes de si, diante do portão. Devia ter tido um furo...ele não lhe ia fazer uma desfeita daquelas. Sem saber o que fazer, avistou o toldo vermelho de um café do outro lado da rua, e achou que seria uma boa opção. Podia haver uma mesa junto ao vidro e, se o irmão chegasse, correria à porta a chamá-lo. Atravessou a rua e instalou-se a uma mesa. Estremeceu ao sentir-se envolvido pelos sons e cheiros banais mas, simultaneamente, épicos, de um café, coisas vagas e imemoriais, o tinir de chávenas, o aroma, o enfermo resfolegar de uma arca de gelados, o papaguear de pessoas à volta de mesas com os jornais abertos a excitar opiniões. Chamou o homem por detrás do balcão e este aproximou-se com má-cara. Pediu-lhe uma torrada e um galão (ás três da tarde), para matar saudades. Enquanto esperava, tirou um guardanapo de papel e dobrou pontas até armar um pequeno barco. Abstraía-se, tentava não pensar nas coisas. O irmão disse que o ajudava. O irmão ficara com aquela que fora a sua mulher, criara o filho que ele gerara e juntara-lhe mais dois para compor o ramalhete, mas prometeu que o ajudaria nos primeiros tempos. Quando saíres, é como se tivesses passado uma borracha em tudo o que ficou para trás! Dissera-lhe o irmão, entre promessas vagas. Só precisava de um lugar para ficar por algum tempo, e um trabalho qualquer para arrancar, que depois arranjava outro que fosse mais do seu agrado.
Quando lhe colocaram o galão e a torrada na mesa, fez uma pausa respeitosa como se pronunciasse uma oração, em seguida, tirou uma migalha ensopada em manteiga do centro da torrada, colocou-a na boca e sentiu-a desfazer-se. Juntou-lhe uma colher cheia de líquido quente do galão, e sorriu de felicidade. Comeu o seu lanche fora-de-horas, recostou-se na cadeira e continuou de sentinela ao exterior. Faltava-lhe, sim, faltava um cigarro, cravou-o a um homem sentado na mesa mais ao pé, cravou-lhe também lume, e voltou a sentar-se no mesmo lugar. Fumou o cigarro, depois foi buscar um dos jornais de cima da arca e nem olhou para a data, para ele, todos aqueles jornais eram do próprio dia, leu e releu as páginas, trocou-o por uma revista cor-de-rosa, enfastiou-se dos sorrisos empalhados e do oco glamour e abandonou a leitura. E o irmão que não chegava! Não queria telefonar-lhe, impor-se, como se o irmão já não lhe tivesse feito muitos favores durante aqueles anos de reclusão. Talvez devesse ir até lá...não queria ver já o filho e ex-mulher porque essas coisas precisam de tempo, mas podia ir ao comunicador do portão e pedir para falar com ele. No fim de contas, a casa não ficava assim tão longe, talvez hora e meia de caminhada, chegaria lá de noite porque anoitecia cedo, e se o irmão tivesse um canto na garagem onde pudesse estender uma manta ou um saco-cama para dormir, o dia ficava salvo e, de manhã, começariam de fresco.
Levantou-se para sair, ouviu um tinir abafado, mas não ligou importância. Chegou-se ao pé da caixa registadora e puxou de um nota de vinte euros (devia chegar, achava). O homem segurou-lhe na nota. Em vez de fazer a conta, contornou o balcão e aproximou-se da mesa onde estivera sentado. Pareceu-lhe que verificava a louça e os talheres. O homem chamou-o, com pretensa discrição.
- O que fez à colher comprida do galão? - Perguntou, num murmúrio.
Sentiu uma ira surda subir dentro de si, a queimar, sentiu ganas de esmurrar aquele homem estúpido, de lhe esmagar a porra da cabeça. Soltou um gemido aterrador, tentando controlá-la. Levou as mãos à cara e esfregou-a como se estivesse a lavá-la com água. Quando abriu os olhos, o homenzinho tinha recuado dois passos, com os lábios a tremer. A fúria deu lugar ao desprezo. Ajoelhou-se, perscrutou o chão e descobriu a colher debaixo da cadeira. Entregou-a ao seu proprietário, que correu para a caixa registadora, fez a operação e correu de volta para lhe entregar o talão e o troco.
Quando se viu na rua, sentiu-se cansado e vazio, como se lhe tivessem extraído as entranhas. O irmão não viria. Tudo o que supusera e imaginara nos últimos anos na prisão tinha-se desmoronado como um castelo de cartas sob o peso de uma colher de metal.
A prisão continuava diante de si, ia carregá-la o resto da vida. Aproximou-se das escadas, descobriu um recanto junto ao muro que a luz do holofote não alcançava, e sentou-se sobre o casaco. Um bom sítio para ler enquanto houvesse luz, e para dormir também. Estava certo de que o seu sono não estranharia o lugar.

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