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Pena

("Numa manhã muito fria, o menino de ouro elevou-se nos ares, chamavam-lhe o menino de ouro porque era o único herdeiro de uma das famílias mais ricas do norte. O menino de ouro levantou voo no seu balão e nunca mais foi visto, morto decerto nalgum alcantilado remoto, ou numa garganta sombria do Douro. Os pais nunca desistiram de o encontrar, enviaram gente e mais gente a procurá-lo. Passaram a pente fino vales e montanhas, chamando pelo seu nome, mas o menino de ouro nunca apareceu, e todos diziam que tinha subido ao céu no seu balão").

Pena que não possa, contar-me as histórias que me contaram com palavras simples, palavras que eram, em si mesmas, histórias, sugestões de histórias, musicalidade, paisagens oníricas. Podia enumerá-las, mas não narrá-las, como se me incumbissem de fazer o levantamento topográfico de um Olimpo despovoado, fotografar as ruínas dos palácios dos deuses e desenhar os motivos frios dos seus frescos abandonados.

("O meu avô viveu até à idade adulta sem saber que era adoptado, que fora largado em bebé na Roda do Porto. Sempre notara que as suas roupas e calçado eram melhores que as dos irmãos, mas desconhecia que elas eram deixadas à noite na porta de casa, pela mulher que o dera à luz. Foi só quando compareceu à inspecção militar que descobriu a verdade, e essa verdade marcou-o para o resto da vida. Por duas vezes ele sentiu que a sua mãe o observava de longe. De uma das vezes, junto à Foz do Douro, notou que uma senhora o contemplava na penumbra do interior de uma carruagem, e teve a certeza de que era ela, mas a carruagem afastou-se quando a tentou confrontar, correu quanto pode atrás dela, mas sem sucesso. Ele dizia-me com uma mágoa profunda que nunca perdoaria à mulher que o pôs no mundo, porque, se ela não o desejava ter, em vez de o largar na Roda, devia ter continuado a caminhar até o poder lançar às águas do rio").

Pena que não possa, contar-me as histórias que me contaram, histórias ouvidas que me ensinaram a procurar o que outras vozes contavam, a ler como se não houvesse mais ninguém além de mim e do narrador - como se as histórias se desenrolassem na quietude de uma sala, ou cá fora, na sombra do jardim, envoltas pelo sussurro das mangueiras frondosas e pelos sons dissipados de uma terra africana prostrada pelo calor.
Pena que a tua mão não tenha escrito essas muitas histórias, mas guardo a felicidade de as ter ouvido, e como era doce a tua voz, mãe!

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...