nove e dezasseis da noite, a selecção de futebol joga, uma merda de jogo, melhor voltar ao trabalho, foda-se, deixei a minha Pen Drive lá em cima no sótão, preciso dela para apagar os indícios, como é que eu vou lá agora? Calma, indo apenas, degrau a degrau, sem excitações, podem estar a dormir, começo a subir as escadas, ouço um som estranho de cortar a respiração, arranham a porta de madeira, ou tentam mordê-la com aqueles dentes salientes, volto a descer a escada e armo-me de uma vassoura para os manter à distância, só preciso dar três passos no sótão para reaver a Pen Drive, deixei-a em cima de uma pilha de livros ao lado da jaula, devo conseguir, tenho de conseguir, não os devia ter deixado à solta, as coisas andavam mais controladas quando eles eram mantidos na jaula, confinados e anestesiados, chega de lamentos, é hora de agir, encosto-me á porta de madeira, ouço o arfar de um deles, deve estar mesmo encostado á porta para ouvir a minha própria respiração, caraças! Rodo a maçaneta e entreabro a porta, cinco centímetros, sete, não avisto nada, adianto o cabo da vassoura, num ápice, sinto uma força enorme a empurrar a porta, aguento-a meio fechada enquanto surge na fresta o rosto do chimpanzé, com os olhos vermelhos e os dentes aguçados a escorrerem saliva, num reflexo tento acertar-lhe com a vassoura, ele sente a ameaça, roda ligeiramente a cabeça e fecha a boca sobre o cabo de madeira, conseguindo prendê-lo com os dentes entre algumas lascas arrancadas, aquilo dá-me tempo porque sinto que há outro atrás da porta, empurro a vassoura e consigo fechá-la, rodo a chave e encosto-me a ela, exausto, desço novamente as escadas, tenho de me acalmar, se eu estiver calmo, eles também ficam, sento-me no tapete do quarto na posição de flor-de-lótus e cumpro uns exercícios respiratórios, respiro como me ensinaram no curso, sinto as batidas cardíacas desacelerarem, mas pode não chegar, bato uma pívia e tomo uns calmantes, deve ser suficiente, subo novamente as escadas, não ouço ruídos estranhos, rodo a maçaneta e entro, os três chimpanzés estão quietos, olham-me com indiferença, um deles tem a cabeça entre as mãos como um dos três macacos alegóricos, o sótão está uma confusão, livros e folhas rasgadas, a estante no chão, restos de comida e excrementos em cima das lombadas, recupero a Pen Drive, escapara incólume ao Armagedão dos símios, penso em retirar-me, mas primeiro fecho-os na jaula grande a um canto do sótão escuro, verifico as correntes e o cadeado, tenho de lhes trazer comida e água e limpar aquela porcaria, mas preciso de trabalhar um pouco, a Pen Drive tem na memória as únicas folhas que me interessam de todos aqueles livros de contabilidade, tenho de esconder aquela informação antes de poder exibir a catástrofe. Abençoados macaquinhos no sótão!

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