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"Just talking over cigarettes and drinking coffee" (Otis)

1
Quando entrou no café ao lado da Gare, descobriu de imediato a sua figura, a silhueta ovóide dos seus cabelos castanhos soltos numa cascata de caracóis, sentou-se casualmente à sua beira, ela quase não reagiu à sua presença, o cigarro consumindo-se sozinho entre dois dedos muito brancos e o olhar escorrendo sobre o exterior como a chuva nas vidraças do café, afagou-lhe a mão espalmada sobre o tampo de mármore, conseguindo que ela olhasse para si, de soslaio, quase incomodada pela sua intrusão, puxou de uma passa, uma luz baça assomou às suas pupilas e debitou um sorriso frouxo, e ficaram assim por largos minutos, ele esfregando-lhe a mão fria enquanto ela olhava a chuva, trouxeram-lhe a aguardente habitual, que ele bebeu timidamente como os pardais que debicam a água na orla dos charcos.
- Olá! - Saudou, arrancando do fundo as palavras - Nós nunca nos falamos, mas vejo-a sempre aqui sentada. Chamo-me Jorge...

2
Quando entrou no café ao lado da Gare, descobriu de imediato a sua figura, a silhueta ovóide dos seus cabelos castanhos soltos numa cascata de caracóis, sentou-se casualmente à sua beira, ela encostou-se a ele num refúgio cúmplice, não tens aparecido por aqui, disse-lhe, venho cá todos os dias, ela passou os dedos da mão pela sua boca, para sossegar as palavras e ficaram em silêncio, ouvindo a chuva que humedecia as vozes e os sons do café, acendeu-lhe um cigarro, a chama do isqueiro agitou as formas pardas e as sombras e ele espevitou e sentiu-se quase coagido a falar, impusera-se a si mesmo falar com ela, ter a conversa das conversas - quando começamos os dois, tinha a esperança de que as coisas progredissem, de deixarmos de ser apenas dois estranhos que conseguem um pouco de sexo quando calha avistarem-se num café, já estivemos na casa um do outro, sabemos de muita coisa...podíamos experimentar viver uns dias ou umas semanas juntos. Ela levantou-se de um salto, como se estivesse a ser anelada por uma anaconda, e pousou no outro lado da mesa, a cabeça baixa com o queixo quase encostado ao tampo, os seus olhos estavam marcados por olheiras fundas, de noites mal dormidas e ressacas mal curadas, uma gotícula de saliva perlava-lhe o canto do lábio. Sabia que virias com essa conversa porque és o macho dominante, mas já sabes o que penso sobre isso, eu preciso do meu espaço, do meu ninho na minha árvore, sufoco se tenho alguém a andar por perto a travar-me os movimentos. Tu és um recanto macio do meu mundo, uma cama de feno onde gosto de repousar as penas, mas nada mais. Percebes o que quero dizer? Não vivo numa mansão, mas é o meu ninho, dali vejo toda a cidade e antevejo os predadores que tentam aproximar-se, as serpentes e os lagartos ovíparos, defendo-me deles ou bato asas para lhes escapar, e é isso que estou a fazer neste momento. Não voltarei tão cedo a este café! Levantou-se, a sua expressão estava menos tensa, como se a tivessem libertado dum peso. Desapareceu do seu ângulo de visão e ele permaneceu sentado, a emburrar mas, pouco depois, correu atrás dela até ao exterior a ver se a apanhava. Na rua, apenas a noite, varreu com o olhar o passeio de um lado e do outro, o alcatrão, o céu escuro de onde a chuva caía sobre ele como uma esteira líquida. Quando voltou ao café, o barman chamou-o.
- Não a encontrou? Se quiser deixar recado...ela vem cá muita vez!
- Ela esqueceu-se de uma coisa em cima do banco, se a vir, diga que eu guardo para ela - e entreabrindo as mãos, mostrou-lhe um ovo muito branco, ainda palpitando de calor.

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