História

Numa manhã fresca de Outono, o jovem seminarista descobriu algo de excepcional enquanto meditava sobre as virtudes teologais. Estava sentado numa degrau da escadaria que levava ao antigo Mosteiro no topo do monte onde funcionava o Seminário. Era uma escadaria dupla com um corrimão de pedra no eixo, desde sempre as pessoas subiam por uma banda e desciam por outra, costume fixado pelo sentido da Via Crucis que aí se celebrava. O que o seminarista constatou foi isto: a escadaria de ambos os lados tinha a mesma idade (verificara a inscrição no primeiro degrau de cada lado), mas os degraus de pedra por onde se subia estavam muito mais gastos do que os degraus no lado oposto. A sua piedosa conclusão foi a seguinte: as pessoas quando subiam iam carregadas com o peso dos seus pecados e com a contaminação subtil do mundo profano mas, lá em cima, a confissão religiosa e os ritos da santa missa tornavam-nos mais leves, o que explicava o menor desgaste dos degraus, visível a olho nu ao fim de centenas de anos
Entusiasmado com a descoberta, revelou-a a um dos seus professores, pedindo-lhe encarecidamente que ele o guiasse numa pequena tese que pensava escrever sobre o tema. O professor não estava tão seguro dessas premissas e declarou-o ao jovem.
- Costuma dizer-se que, a descer, todos os santos ajudam, e talvez as pessoas subissem carregadas com os bens que o Mosteiro lhes cobrava pelo foro...são trezentos e quarenta e oito degraus para galgar com galinhas e cereais, sal e pão.
- Poderei levar isso em linha de conta...
- Então junte-lhe mais este dado, inestimável para quem não tenha a sua percepção do sagrado: este era um Mosteiro de monjas, um Mosteiro no feminino. A partir do século XVII e até à dissolução das ordens religiosas funcionou como um prostíbulo da nobreza e dos burgueses ricos deste país. Gente desse calibre e seus protegidos subiam a escadaria para conhecer carnalmente as monjas. Haver uma escadaria mais gasta do que a outra poderá parecer a um espírito laico, que se deve à circunstância dessa gente libertar no Mosteiro a sua semente vital.

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