INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Eixo do mal

De regresso do trabalho, a pé, decidiu demorar os passos e auscultar o coração da cidade. Andou ao acaso, parando numa ou noutra loja ainda aberta. Espiou um livro novo, cobiçou um fato e acabou por comprar um fato-de-treino, juntamente com um livrinho sobre o enfarte miocárdio (não sabia bem porquê, mas sempre sentira que morreria fulminado, ou esmagado por um meteoro). Quando estava quase a chegar a casa, deu de caras com um graffiti pouco usual: um poema de Cesariny que servia de anónimo memorial ao poeta. Gostou da ideia, Cesariny era-lhe caro. Só isso valeu o passeio, e teve como consequência voltar a sair do seu caminho de regresso. Foi admirar os graffitis da cidade, com a bonomia de um visitante de uma galeria de arte. Outro graffiti fê-lo deter-se, uma frase, evasiva: "Liberta-te! Os mortos não conhecem o peso da dor". Sentiu um sobressalto. Escrevera-a recentemente num caderno, que estava fechado na gaveta de uma escrivaninha. Lembrava-se de a ter escrito, era capaz de recriar mentalmente tudo o que o rodeava nesse dia, o que ouvia no rádio, a luz a entrar pela janela de sacada, tudo. Um pouco nervoso, inflectiu novamente para casa, meditando sobre a coincidência e a sincronicidade, mas o seu devaneio esmagou-se contra um novo graffiti, mais uma frase, um trocadilho: "Conhece-te a ti a esmo". Empalideceu, sentindo o sangue a correr mais depressa nas veias. Era sua, ou pensava que sim. Largou o saco com a roupa e o livro e correu para casa. Entrou no prédio e galgou as escadas. No apartamento, desabotoou a camisa, sentindo que estava à beira de um enfarte. Enquanto a respiração regularizava, abriu as janelas para entrar mais ar. O apartamento parecia sufocar, devido sobretudo ao cheiro da tinta. Havia sprays de tinta por tudo quanto era sítio, e retalhos de papel canelado no qual ensaiara estilos de letra e desenhos intrincados. Resgatou o seu caderno de notas, maculado por dedadas de tinta, e tentou relativizar as coisas. Alguém entrara ali, copiara alguns dos seus gatafunhos e divertira-se a pintá-los pela cidade fora. Só para o perturbar, sabendo como a sua saúde era débil. Tinha de ser alguém que o detestasse, que o queria morto. Podia ser muita gente, tantos que já nem se lembrava de metade deles. Mas tinha de ripostar de alguma forma. Mudaria as fechaduras do apartamento, e semearia pela cidade os seus graffitis, as frases intactas do seu caderno. Para ver se alguém se acusava.

2 comentários:

  1. O Mario Quintana tem uns versos breves e proféticos que dizem algo neste sentido: A mente humana sempre dá as mesmas voltas, nenhuma bobagem nos terá acometido, que já não tenha pensado algum sábio grego(a ausência de aspas deve-se a a minha pouca memória para reproduzir o poema fielmente). O Borges em um conto, dizia que todas nossas palavras não passam de um sistema citações. Mesmo as idéias que ainda não foram contaminadas com outras, inevitávelmente repetem algo que foi pensando por alguma outra mente.
    Adorei o conto, é de sua autoria?

    ResponderEliminar
  2. José Lopes20:33:00

    Sim, um texto despoletado por um graffiti a homenagear Cesariny na cidade onde vivo. Achei curioso, porque também eu poderia ter sido o seu autor, como é curioso que mencione Borges, uma das minhas referências pessoais(círculos e mais círculos).
    Um abraço

    ResponderEliminar

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...