A desarte da fuga

Amílcar dos Santos Neves, que todos os conhecidos conhecem apenas pelo seu primeiro nome, tem um mantra pessoal. Não é em sânscrito ou tibetano, nem fala de flores-de-lótus ou despertares de luz. O seu mantra é elementar: "O-A-míl-car-des-pe-diu-se". Entoa-o interiormente vezes sem conta no encadear de rotinas vazias de um trabalho mecânico que abomina. Consegue imaginá-lo dito em voz alta pelos seus colegas, na hora do café ou na do prego para o caixão. O Amílcar despediu-se! Mas o Amílcar não se despede nunca, porque precisa ou porque não é capaz. O seu mantra continua a acompanhá-lo, até à hora da reforma, ou até atingir o Nirvana.

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