Á deriva

Fica doente, só de pensar que pode ficar doente, enche-se de antibióticos para as eventuais contaminações, e ansiolíticos para os nervos, depura-se com tintura de iodo no peito-e-costas, uma infusão de ervas medicinais, e abre finalmente a porta para enfrentar a tempestade, chuva e vento com força - corre com o seu impermeável e as galochas e enfia-se na camioneta que faz um compasso de espera na paragem. Treme, não de frio, mas de pavor. Quantos milhões de micróbios e vírus não se terão aninhado nele só naqueles breves metros de percurso. Está abrigado, recolhido, dentro de múltiplos agasalhos e protecções, e é pior, sabe que é pior. Os germes enregelados nos charcos de água fria ou nos corpos mal vestidos dos outros passageiros da camioneta, devem ver nele uma incubadora à temperatura ideal. Vamos saltar para o gajo, imagina-os a gritar em uníssono. O que o assusta ainda mais são os seres microscópicos potencialmente mortíferos, o chinoca junto à janela, por exemplo, pode ter o vírus da gripe das aves a desenvolver-se lentamente, à espera de migrar, enquanto ele está ali a olhar a paisagem a caminho da milionésima loja da família. Levanta-se do banco e senta-se mais atrás e só então se apercebe que se sentou ao lado de um preto. Diacho! Não é daquelas bandas o Ebola e outros vírus de febre hemorrágica? Volta a levantar-se, e vai para os primeiros bancos da camioneta sob o olhar carrancudo do motorista no espelho retrovisor. Enquanto anda pausadamente, procura o lugar ideal para se sentar. Evita um mulato (também é negro, pode ter meio vírus Ebola no corpo), uma senhora de raça indefinível e um homem de aparência eslava (desconfia desses brancos de países em guerra civil cheio de cadáveres a apodrecer nas ruas), e senta-se ao lado de um branco como ele, casaco apertado e gorro sobre a cabeça. Tem as mãos manchadas, o branco. “Por acaso, você não é portador de HIV, pois não?” – Pergunta-lhe, à queima-roupa. O outro estranha e depois, pessoanamente, deixa entranhar a pergunta antes de responder: “Não! Mas sou leproso…”. “Ah! Okei! – reage, encurralado naquela armadilha – Também...ninguém é perfeito!”.

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue