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Apontamentos de uma jornalista regional

Notas tiradas no Casal do Outeiro, semana das festas da Senhora do Ó, artigos para o Correio do Oeste (para transcrever para o diário).


Dia 5, Terça-Feira - Pedem-me para fazer umas entrevistas entre os romeiros e festeiros da festa, e tirar fotos. A igreja da terra está construída no alto de um morro, onde já houve um castro e um templo romano a Ceres. A festa é no adro e em volta. Á tarde surgem os primeiros sinais estranhos, a terra treme ou ressoa, o povo tem medo e diz que por debaixo da igreja é terra oca, subterrâneos e criptas do tempo dos pagãos, se a terra tremer muito, a igreja pode ruir como na época do grande terramoto. Enviei primeiro texto e fotos, por mail, para redacção.


Dia 6, Quarta - A terra estremeceu novamente, e surgiram rachas no empedrado do adro donde saíram poeiras violáceas. Junto á barraca das rifas saiu um cortejo de ratos de um buraco de esgoto que lançou o terror nas pessoas. O pároco, padre Rui, mandou decorar com palmas e postes engalanados um terreno paroquial junto á aldeia, e diz que se as coisas continuarem assim, reza ali missa campal no dia da santa. Gravei a entrevista. Não esquecer de o citar quando diz que acima dos anjos e santos está Deus e que a casa de Deus é em todo o lado, sobretudo, no coração das pessoas. Novo artigo, não escrevi sobre os preparativos para a missa campal.


Dia 7, Quinta, dia central das celebrações - as pessoas da terra tiveram uma manhã de consternação. Apareceram mais ratos, desta vez no interior da igreja, e cobras, uma dezena delas, que saíram pelas escadas que conduzem à cripta subterrânea e cujo acesso se faz por umas escadas na abside. Missa campal. A procissão saiu daí para a capela de Santa Quitéria. Ninguém quer entrar na igreja enquanto ela estiver invadida por bichos. Há muito falatório em volta destes fenómenos. A terra vibra, perceptivelmente, e perto do meio-dia voltou-se a sentir estremecer o chão. Tirei fotos da procissão e do andor da santa, decorado por tradição com espigas de cereal e com um cesto com flores e frutos. Á tardinha, a imagem foi recolocada na igreja. Encorajado pelo padre, dei uma olhada na cripta. É uma sala rectangular acanhada que se situa no eixo do altar, tem inscrições tumulares nas paredes e no chão. Do lado nascente há um semi-arco a meio da parede, sai vento dali. O padre Rui explicou-me que do outro lado há uma cisterna rectangular com várias aberturas na rocha, que se acredita ser o que resta de um tanque cerimonial romano, reaproveitado por mouros e cristãos. Pedi-lhe para irmos embora antes que aparecessem mais cobras.


Dia 8, último dia da festa - O padre Rui pediu para me chamar. Junto á casa paroquial apresenta-me ao engenheiro Francisco Simões, que faz parte do executivo camarário. O engenheiro conta-me que fora alertado por um Irmão (ele é maçónico) para o que se estava a passar no Casal do Outeiro, e que possui uma explicação Occâmica para o fenómeno. A causa de tudo aquilo é a exploração mineira. As minas de cobre de Azinhaga dos Mouros iniciaram a abertura de uma nova galeria que tomou o sentido do Casal do Outeiro e cuja frente está muito próxima à base do monte. As vibrações dos martelos pneumáticos e as detonações subterrâneas teriam levado o pânico aos ratos e cobras do subsolo da igreja, levando-os a sair á luz do dia. Não era preciso invocar mais nada. Último artigo sobre a festa, enviei entrevista com o pároco e as palavras ouvidas á festeira do próximo ano.


Dia 10 - Recebi carta do padre Rui, agradecendo o carácter objectivo dos artigos. E mais me conta. Ontem de manhã, quando chegou á igreja, o sacristão já a tinha aberto, o que lhe causou muita estranheza. Quando entrou, ficou perplexo, havia duas raposas dentro da igreja a comer os frutos da cesta da santa. Ele afastou-se para um lado a pensar que as raposas iriam querer fugir pela porta, mas não, fugiram pelas escadas que dão para a cripta. Deixou passar algum tempo, porque não achou prudente isolar-se com elas no cubículo da cripta, mas quando finalmente as seguiu, não voltou a vê-las. Ele acha que entraram pelo arco da cisterna. Terminou a carta, referindo a cadeia alimentar do templo: cobras que comem ratos, raposas que comem frutos, ratos e cobras. Por sorte, remata com ironia, a carne de raposa não é muito apreciada pelas pessoas.


Dia 16 - Carta do padre Rui, que começa por me pedir desculpas, porque eu devo ser uma pessoa muito ocupada. Diz que ficou intrigado por lhe ter parecido que as duas raposas possuíam uma lista branca na cauda e que, á primeira vista, quase parecia uma fita atada em volta. Procurou fotos e gravuras de raposas numa biblioteca e chegou pela lista de ilustrações de um livro sobre caça, a uma gravura de fins do século dezanove inspirada num fresco de uma villa romana em Córdoba. A gravura representa a deusa romana Ceres junto á entrada para o mundo inferior, o chão está atapetado com feixes de cereais, tem diante de si um cesto com flores e frutos, e diversas raposas com uma fita branca em volta da cauda. O padre Rui diz-me que não sabe o que pensar. Eu também não, e escrevo-lhe para lho dizer, solicitando que me envie uma reprodução da fotocópia da gravura.


Dia 18 - Nova carta do pároco, não tem nenhuma fotocópia da gravura, achou melhor não pedir porque há coisas que é preferível manter enterradas, como os mortos da cripta. Está a pensar mandar emparedar o arco da cisterna porque o sacristão agora lhe está sempre a dizer que o vento no arco lhe soa a risos e a música de cordas. Parece-me muito perturbado. Acho que não volto a escrever-lhe.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...