Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2007

O Terror volta ás salas de cinema:

Imagem
"Sei o que Fizeste no Inverno Passado"
Como tivesse nascido sem braços, sempre que alguém lhe fazia mal, tentava assestar-lhe um pontapé bem dado. Era o seu modo peculiar de tentar fazer justiça pelas próprias mãos.
Em vida, escolheu a frase que iria figurar na sua lápide funerária, logo a seguir ao nome:

"Finalmente, enfrentou os seus medos!"

Circuito fechado

«Tenho um molho de chaves que parece o de um carcereiro, mas estou do lado de dentro. Todos os dias abro e fecho dezenas de portas, e ainda não consegui sair disto»
Para explicar ao filho os seus factos da vida, escolheu uma forma alegórica, oferecendo-lhe um exemplar d' "Os Miseráveis" de Vitor Hugo e um cartão de crédito ilimitado.
*
Para explicar ao filho os factos da vida, queria levá-lo naquele dia ao parque para ver os rituais de acasalamento dos pombos e cisnes, mas o filho avisou-o logo que só podia ir no final do filme pornográfico.

JFK e a cataplana

"Não perguntem o que o cação pode fazer por vocês, mas sim, o que vocês podem fazer pelo cação".

Monólogo

Não gosto nada de moscas, são nojentas e dão mau aspecto, as pessoas costumam vir aqui um pouco contrariadas e ainda por cima encontram isto cheio de moscas, não sei o que as atrai. Sim, porque ninguém vem aqui por gostar, não se gosta de ir a um Lar de Idosos, vai-se por obrigação, porque se tem lá alguém que os criou toda uma vida, ou porque sabem que os recrimina publicamente se não forem lá vezes que chegue, e aquilo pode chegar aos ouvidos das pessoas do seu trato diário e parecer mal, as pessoas não gostam, não é que tenham nojo dos velhos, mesmo daqueles que estão todos tortos ou já não estão muito bem da cabecinha, as pessoas tem medo é da velhice e de ficarem como eles, virem aqui é como serem obrigados a espreitar um morto a apodrecer numa campa e verem ao que vão chegar. O que falava eu? Ah, as moscas! Não sei o que fazer, é desesperante. Já pus remédio nas paredes como me aconselharam, e mandei arrancar a hera do alpendre por me terem dito que aquilo é o ideal para criar b…

Alma lusa

Se isto for motivo de suspeita, desconfio que metade dos portugueses podem passar por terroristas.

O próprio

Entrou no stand à beira da estrada e passeou a vista pelos carros expostos. Muito caro, idem , idem, idem, muito escafiado com massa nas mossas e riscos fundos, muito velho, muito caro...Hum! Este não está mau!
- O preço é mesmo este? Não se pode fazer uma pequena atenção em função do aumento do custo de vida, e da crise no Golfo Pérsico?
- Não, lamento, mas não posso, este carro é uma retoma, pertencia a um velhote, estava sempre guardado debaixo de telha num celeiro e só saía com ele para ir á missa, e não era todos os Domingos!
- Pensava que isso era apenas um conto tradiconal português...
- Não, engana-se. O carro ainda não foi limpo e pode encontrar vestígios disso, penas, feno e caca de galinha, o terço enrolado no espelho retrovisor. É pessoa que conhecemos, gente boa e trabalhadora que estima os seus bens e que não vive á toa. Você leva um carro de confiança.
- Aquilo no assento são manchas de sangue?
- Como lhe dizia, trata-se de gente simples que trabalha de sol a sol, que todos …

Definição:

Palavrulho: Palavra que cai num texto como um pedregulho; palavra extensa por contraste, e/ou de sentido hermético, e/ou demasiado rebuscada. Exemplo: palavrulho.

Crime e castigo

Nos trabalhos da Faculdade era só net e copiar-colar, copiar-colar, copiar-colar. Formou-se, mas agora trabalha numa casa de fotocópias, e é só copi-canola, copi-canola, copi-canola.

Monstros

-Tenho medo, mãe! - Murmurou no escuro, aliviando a cabeça fusiforme do peso do seu décimo tentáculo com olhos - Tenho medo do que está lá em cima. -Não tenhas medo, hás-de ver que não é nada, sombras caprichosas, as molas do colchão que rangem por estar tensas. -Não, não é verdade, eu vi! Tinha só uma cabeça, dois braços e duas pernas e deitou-se em cima da nossa cama! -Parvoíces! É da idade! Imaginas monstros em cima da cama e no alto das escadas da cave, semelhante coisa não existe, vá lá, fecha os teus trezentos e vinte olhinhos e tenta dormir. De manhã, as coisas vão parecer menos assustadoras.
Estende a toalha de linho na corda sob uma luz outonal, cantando como nos anúncios antigos de detergente, deixa-se estar escondida, a matrona arrasta o cesto da roupa com o pé, esconde-se ainda mais, temendo que ela a veja ou suspeite da sua presença, continua a ouvi-la, e vê as peças de roupa a serem meticulosamente presas com molas de madeira, calças, cuecas, meias, saias, blusas, continua a cantoria até o cesto estar vazio, pára um momento, depois volta à ponta da corda, desprende umas quantas peças que vai recolocando na outra extremidade até esgotar o sortido colorido de molas de roupa, sabe que deixou molas sem função na corda, dá uma fugida à horta e arranca folhas de couve das couves de Natal e pendura-as alegremente na corda a enxugar, retoma a operação porque lhe parece que as primeiras peças de roupa que pendurou estão mais que secas e retira-as para o cesto, o que dá como resultado ter mais molas vazias no bolso do avental, volta novamente à horta e a filha sai do seu esco…

Respostas esforçadas a perguntas que trazem gente a este blog

"Queria fazer umas perguntas sobre os produtos duma pastelaria" Sobre quais deles? Bolos? Pastéis? Tortas? Intoxicações adocicadas?

"Caixas da madeira recompensada?" Reward! Madeira morta ou viva! 10000 dólares de recompensa.

"Num copo vazio existe ar? Como Prová-lo?" Experimente ingerir enxofre e gasear para dentro do copo.

"Como saber se uma lâmapada fluorescente está avarida?" Se a lâmapada não acender, pode estar avarida, mas também pode ser do arrancador ou do motor de arranque.

"Rituais de acasalamento das andorinhas do mar". Não conheço mas, se forem muito barulhentos, é bom que não se aproximem do iate do rei de Espanha.

"Os 4 cavaleiros do apocalifo". Não consegui chegar a uma resposta cabal, mas suponho que sejam quatro cavaleiros com um pifo apocalíptico.

Ray Charles - In The Evening

Apontamentos de uma jornalista regional

Notas tiradas no Casal do Outeiro, semana das festas da Senhora do Ó, artigos para o Correio do Oeste (para transcrever para o diário).

Dia 5, Terça-Feira - Pedem-me para fazer umas entrevistas entre os romeiros e festeiros da festa, e tirar fotos. A igreja da terra está construída no alto de um morro, onde já houve um castro e um templo romano a Ceres. A festa é no adro e em volta. Á tarde surgem os primeiros sinais estranhos, a terra treme ou ressoa, o povo tem medo e diz que por debaixo da igreja é terra oca, subterrâneos e criptas do tempo dos pagãos, se a terra tremer muito, a igreja pode ruir como na época do grande terramoto. Enviei primeiro texto e fotos, por mail, para redacção.

Dia 6, Quarta - A terra estremeceu novamente, e surgiram rachas no empedrado do adro donde saíram poeiras violáceas. Junto á barraca das rifas saiu um cortejo de ratos de um buraco de esgoto que lançou o terror nas pessoas. O pároco, padre Rui, mandou decorar com palmas e postes engalanados um terreno p…

Simbiose eutanásica

Ser o vento nos plátanos de Outono que desafecta as últimas folhas secas. Ser as folhas secas nos ramos do plátano, que só esperam um vento que as ajude.
nove e dezasseis da noite, a selecção de futebol joga, uma merda de jogo, melhor voltar ao trabalho, foda-se, deixei a minha Pen Drive lá em cima no sótão, preciso dela para apagar os indícios, como é que eu vou lá agora? Calma, indo apenas, degrau a degrau, sem excitações, podem estar a dormir, começo a subir as escadas, ouço um som estranho de cortar a respiração, arranham a porta de madeira, ou tentam mordê-la com aqueles dentes salientes, volto a descer a escada e armo-me de uma vassoura para os manter à distância, só preciso dar três passos no sótão para reaver a Pen Drive, deixei-a em cima de uma pilha de livros ao lado da jaula, devo conseguir, tenho de conseguir, não os devia ter deixado à solta, as coisas andavam mais controladas quando eles eram mantidos na jaula, confinados e anestesiados, chega de lamentos, é hora de agir, encosto-me á porta de madeira, ouço o arfar de um deles, deve estar mesmo encostado á porta para ouvir a minha própria respiração, caraças! Rodo a maçan…

Nova geração

As primeiras zebras que aderiram á Internet, ficaram roídas de inveja quando chegou ao Zoo a primeira zebra cibernauta com riscas de banda larga.

Comunicado

Vinte e cinco presos evadidos da prisão. A polícia política foi no seu encalço, e capturou-os a todos. Recambiou quatro para as celas, e fuzilou os restantes no meio do pinhal, deixando-os lá, numa pirâmide de corpos, à mercê dos predadores. Quatro inimigos do regime foram capturados - rezava o comunicado oficial - os outros continuam a monte.

Á deriva

Fica doente, só de pensar que pode ficar doente, enche-se de antibióticos para as eventuais contaminações, e ansiolíticos para os nervos, depura-se com tintura de iodo no peito-e-costas, uma infusão de ervas medicinais, e abre finalmente a porta para enfrentar a tempestade, chuva e vento com força - corre com o seu impermeável e as galochas e enfia-se na camioneta que faz um compasso de espera na paragem. Treme, não de frio, mas de pavor. Quantos milhões de micróbios e vírus não se terão aninhado nele só naqueles breves metros de percurso. Está abrigado, recolhido, dentro de múltiplos agasalhos e protecções, e é pior, sabe que é pior. Os germes enregelados nos charcos de água fria ou nos corpos mal vestidos dos outros passageiros da camioneta, devem ver nele uma incubadora à temperatura ideal. Vamos saltar para o gajo, imagina-os a gritar em uníssono. O que o assusta ainda mais são os seres microscópicos potencialmente mortíferos, o chinoca junto à janela, por exemplo, pode ter o víru…

A desarte da fuga

Amílcar dos Santos Neves, que todos os conhecidos conhecem apenas pelo seu primeiro nome, tem um mantra pessoal. Não é em sânscrito ou tibetano, nem fala de flores-de-lótus ou despertares de luz. O seu mantra é elementar: "O-A-míl-car-des-pe-diu-se". Entoa-o interiormente vezes sem conta no encadear de rotinas vazias de um trabalho mecânico que abomina. Consegue imaginá-lo dito em voz alta pelos seus colegas, na hora do café ou na do prego para o caixão. O Amílcar despediu-se! Mas o Amílcar não se despede nunca, porque precisa ou porque não é capaz. O seu mantra continua a acompanhá-lo, até à hora da reforma, ou até atingir o Nirvana.

Regresso

"Vamos apanhar um pouco de ar" disse o patriarca no final do almoço de Domingo, almoço não, almoçarada, pança cheia a sacolejar, a comida já em digestão acelerada pelos digestivos a volatizar-se em peidos rebeldes muito antes do bolo alimentar estar convertido em bola de bosta. Enfiaram-se todos no carro e rumaram ao cais marinho do porto. Era Inverno e, apesar do Sol débil e da aragem fria, havia por lá muitos carros parados. Achou um lugar e parou o carro na beira do cais, abriu-se uma nesga de vidro para arejar o ambiente e prepararam-se para uma tarde de regresso à vida pura e às benesses da natureza. Ele puxou do jornal desportivo, levantou-o como um cenário de teatro e começou a ler, a mulher, ao lado, hesitou entre uma sorna e uma revista feminina e acabou por se entreter com o croché. No banco de trás, os três filhos, anularam a seca de estarem diante do estúpido mar com os seus estúpidos barcos e puxaram dos telemóveis e começaram todos a jogar. Ao fim de umas horas…

Novembro / Nueve Hembras

Nove ninfas, filhas da Memória, estavam guardadas para quem as procurasse, todas elas eram voláteis e leves, conduzindo os artistas na esteira da sua música ou das suas vozes, a resplandecer no brilho das estrelas e na beleza das flores. Iravam-se quando alguém as tentava igualar, mas mais iradas ficavam se algum mortal se mostrava indiferente à sua presença. Numa manhã de Maio, quando dançavam entre as faias do monte Hélicon encontraram um jovem guerreiro que as observava sem expressão, sentado sobre o escudo. Concentraram nele as suas artes mágicas, e tentaram que ele sentisse emoções, que dançasse ou sentisse a doçura dos versos e, quando isso falhou, procuraram instilar desejo nas suas veias e visões edénicas na sua alma. A fúria culminou a vanidade do seu esforço e metamorfosearam-no. O guerreiro, já morto em cima do seu escudo, foi transformado num loureiro, a mesma madeira com que fora afeiçoado o cabo da lança que lhe trespassara o ventre.

"Just talking over cigarettes and drinking coffee" (Otis)

1
Quando entrou no café ao lado da Gare, descobriu de imediato a sua figura, a silhueta ovóide dos seus cabelos castanhos soltos numa cascata de caracóis, sentou-se casualmente à sua beira, ela quase não reagiu à sua presença, o cigarro consumindo-se sozinho entre dois dedos muito brancos e o olhar escorrendo sobre o exterior como a chuva nas vidraças do café, afagou-lhe a mão espalmada sobre o tampo de mármore, conseguindo que ela olhasse para si, de soslaio, quase incomodada pela sua intrusão, puxou de uma passa, uma luz baça assomou às suas pupilas e debitou um sorriso frouxo, e ficaram assim por largos minutos, ele esfregando-lhe a mão fria enquanto ela olhava a chuva, trouxeram-lhe a aguardente habitual, que ele bebeu timidamente como os pardais que debicam a água na orla dos charcos.
- Olá! - Saudou, arrancando do fundo as palavras - Nós nunca nos falamos, mas vejo-a sempre aqui sentada. Chamo-me Jorge...
2
Quando entrou no café ao lado da Gare, descobriu de imediato a sua figura, a…

Clivagem

- Pareces desanimado...tens o ego em baixo?
- Não, o meu ego está de licença, foi passar férias a Trindade e Tobego.

Arma de fogo

Imagem
Dúvida:
Comprei uma coisa destas para o fogão lá de casa, e estou na dúvida se devo pedir uma licença de porte de arma...

História

Numa manhã fresca de Outono, o jovem seminarista descobriu algo de excepcional enquanto meditava sobre as virtudes teologais. Estava sentado numa degrau da escadaria que levava ao antigo Mosteiro no topo do monte onde funcionava o Seminário. Era uma escadaria dupla com um corrimão de pedra no eixo, desde sempre as pessoas subiam por uma banda e desciam por outra, costume fixado pelo sentido da Via Crucis que aí se celebrava. O que o seminarista constatou foi isto: a escadaria de ambos os lados tinha a mesma idade (verificara a inscrição no primeiro degrau de cada lado), mas os degraus de pedra por onde se subia estavam muito mais gastos do que os degraus no lado oposto. A sua piedosa conclusão foi a seguinte: as pessoas quando subiam iam carregadas com o peso dos seus pecados e com a contaminação subtil do mundo profano mas, lá em cima, a confissão religiosa e os ritos da santa missa tornavam-nos mais leves, o que explicava o menor desgaste dos degraus, visível a olho nu ao fim de cen…

Tonterias

“Não tenho palavras”, declarou ao editor, para justificar o atraso na entrega do original prometido.


Entrou nessa de saber o futuro, mas não gostou da experiência. Esperava notícias melhores. Em casa, com um estilete afiado, tentou retocar algumas linhas da mão antes de consultar novamente a quiromante.


Pandora abriu a caixa e libertou tudo o que havia de mau. No final, quando já desesperava, saiu lá de dentro um génio verde que se uniu a ela e a deixou de esperanças.


Sempre tivera o costume de dormir de olhos abertos. Faleceu numa manhã de Sábado, e a família só descobriu o óbito quatro dias depois.


“Também foi bom para ti?” – Perguntou ela à amiga, depois da troca de vibradores.


Ela decidiu ir trabalhar como mulher-a-dias para um Seminário, por achar que, por ali, devia haver muito sémen mal parado.


"É altura de acabarmos o nosso romance". O escritor escutou as últimas palavras da heroína principal e colocou o "Fim" no dito do romance.


Lembrou-se que nos filmes românti…

Portão do céu

Recebeu um último aperto de mão, este do guarda de serviço ao portão, deu três passos tímidos e imobilizou-se no pátio. Atrás de si a mole branca dos muros da penitenciária. Aconchegou a si os poucos haveres que transportava, o casaco no braço, a carteira com algum dinheiro em Euros (entrara com escudos e tinham-no trocado), a maleta de James Bond com alguns livros e artigos de higiene pessoal. Olhou em volta. Ninguém! O irmão disse que o ia esperar à saída, pedira-lhe que estivesse lá antes de si, diante do portão. Devia ter tido um furo...ele não lhe ia fazer uma desfeita daquelas. Sem saber o que fazer, avistou o toldo vermelho de um café do outro lado da rua, e achou que seria uma boa opção. Podia haver uma mesa junto ao vidro e, se o irmão chegasse, correria à porta a chamá-lo. Atravessou a rua e instalou-se a uma mesa. Estremeceu ao sentir-se envolvido pelos sons e cheiros banais mas, simultaneamente, épicos, de um café, coisas vagas e imemoriais, o tinir de chávenas, o aroma, o…

Transferência

A jovem universitária, esguia e de cabelos curtos escorridos, voltou a verificar que não havia ninguém por perto antes de retomar as explicações ao avô, um velhote atarracado de olhar ansioso. - Noutro dia, quando lhe abri a conta no Banco, pedi este cartão Multibanco que o avô pode usar para vir buscar dinheiro. O senhor sabe ler e isto é muito simples, todas as instruções lhe são dadas - e exemplificou - aqui, quando pedem o código, o avô coloca os quatro primeiro algarismos: 1-2-3-4. É fácil de fixar, não o escreva! Se o avô se enganar, ele pede outra vez. Depois pergunta o que você quer fazer...levantamentos...aqui, escolhe a quantia, carrega e o dinheiro aparece, você tira o dinheiro e o cartão. Agora não vou levantar, é só para você ver. Acha que consegue? O ancião pegou no cartão como se ele estivesse incandescente. - O meu dinheiro está todo dentro desta caixa? - Está! Está melhor aí do que enfiado no colchão ou no bule do louceiro. Você vive sozinho e tem de ter cuidado... - E que…

Piaget

Diante de um cão com um abajur cónico em volta da cabeça, é preciso muita psicologia para ensinar uma criança de quatro anos a não lhe puxar o rabo para acender a luz.

Conta Homero,

, que na ilha de Trinácria, o ardiloso Ulisses se deu a conhecer a um Ciclope como se o seu nome fosse Ninguém. O Ninguém que era Ulisses vazou o olho do alguém que era um Ciclope, mas cujo nome desconhecemos. Em seguida, Ulisses e os seus homens passaram pelos outros Ciclopes escondidos pelos corpos de um rebanho de cabras. Quando os outros Ciclopes viram o seu irmão cego à porta da caverna, perguntaram-lhe quem lhe tinha feito aquilo - "Um grego com crise de identidade - respondeu o Ciclope - o cabrão e os seus homens vão a caminho dos barcos no meio do nosso rebanho. Ouço-os balir como cães". Os gigantes correram atrás deles e capturaram-nos antes que se fizessem ao mar. Pegando nos seus cabelos como se pega numa mecha de pêlos, arrastaram-nos para o seu covil aterrador para uma pantagruélica sessão de terapia de grupo.

Eternet

Designação convencional da Internet de baixa velocidade onde as páginas, quando chegam a carregar, só o fazem ao fim de uma eternidade.

Burocracia

O nome Jaime Luís Vagos apareceu na lista de pessoas que deveria comparecer na Inspecção Militar. Os pais, muito constrangidos, esclareceram que Jaime Luís havia falecido três anos antes. Preencheram uma declaração e assinaram. Pouco depois, no mesmo expositor da parede da Junta de Freguesia, apareceu um edital em que Jaime Luís Vagos era acusado de crime de contumácia, e os pais receberam em sua casa uma carta em que se declarava que a ausência injustificada do mancebo na Inspecção Militar podia ser considerado um acto de deserção, passível de prisão e serviço militar acrescido. Os pais preencheram novas declarações que seguiram as vias oficiais, mas o rastilho estava ateado. As suas vidas sofreram com o crime do filho, sendo alvos de um subtil e crescente ostracismo. Viram-se privados de todo e qualquer papel na vida da comunidade, mesmo das reuniões de condóminos e noites de canasta, ninguém lhes falava na rua e até os seus nomes foram arrancados da caixa de correio por um carteiro…

Burocracia 1 1/2

No hall de entrada do Céu, não existe nada, apenas um espaço em branco no lugar que antes se designava por Limbo - um nada deprimente: uma planura deserta, sem vegetação nem rios. Deserta, mas não de almas, são aos milhões, pré-cristãs, não-católicas, crianças de berço. Fecharam-lhes o acesso ao condomínio fechado dos eleitos, com uma decisão terrena que os ultrapassa. A geografia mudou, as linhas e marcos de fronteira foram alterados, e ninguém sabe como sair dali. Há milhares de candidatos para cada vaga. Os burocratas lá do sítio tentam encontrar uma solução, distribuem impressos, em triplicado, que as almas preenchem para formalizar a candidatura. Os que conseguem admissão vêem os seus nomes afixados em listas que flutuam nos ares, penduradas dos cascos bifurcados dos angélicos mangas-de-alpaca. Os que protestam contra o sistema recebem destes um celestial escarro que dissolve de imediato a sua inscrição, obrigando-os a repetir o processo, com a agravante de penalizações que os fa…

Eixo do mal

De regresso do trabalho, a pé, decidiu demorar os passos e auscultar o coração da cidade. Andou ao acaso, parando numa ou noutra loja ainda aberta. Espiou um livro novo, cobiçou um fato e acabou por comprar um fato-de-treino, juntamente com um livrinho sobre o enfarte miocárdio (não sabia bem porquê, mas sempre sentira que morreria fulminado, ou esmagado por um meteoro). Quando estava quase a chegar a casa, deu de caras com um graffiti pouco usual: um poema de Cesariny que servia de anónimo memorial ao poeta. Gostou da ideia, Cesariny era-lhe caro. Só isso valeu o passeio, e teve como consequência voltar a sair do seu caminho de regresso. Foi admirar os graffitis da cidade, com a bonomia de um visitante de uma galeria de arte. Outro graffiti fê-lo deter-se, uma frase, evasiva: "Liberta-te! Os mortos não conhecem o peso da dor". Sentiu um sobressalto. Escrevera-a recentemente num caderno, que estava fechado na gaveta de uma escrivaninha. Lembrava-se de a ter escrito, era capa…

Males

- Sabes que, ao ler a publicidade que me chega pelo correio, descobri que sofro de apneia obstrutiva das vias respiratórias?
- Isso é grave?
- Acho que não. Quando durmo, a minha respiração interrompe-se por momentos, para se reatar em seguida. Isso faz com que ande sempre muito cansado.
- Porquê? Provoca insónia?
- De certa forma...a minha mulher não se coíbe de bater palmas de cada vez que julga que deixei de respirar...

Peritagem

Entretinha-se a organizar o mostruário de moedas portuguesas, quando a mulher entrou na sua loja de uma forma um pouco invulgar, às arrecuas, com um volume longo escondido atrás das costas. Não havia ninguém na loja e parecia querer certificar-se de que ninguém a seguia. Fingiu estar curiosa nuns pratos de louça e numa estatueta de granito de uma santa, e de armário em armário foi rodando pela loja até se ver diante de si.
- Tenho uma coisa para lhe mostrar, porque queria saber a sua opinião - anunciou, colocando o volume em cima da mesa, despiu-o dos papéis que o envolviam e revelou uma espada comprida, carcomida pelo tempo - acabei de a comprar, disseram-me que foi deixada pelo D. Afonso Henriques quando andou por aqui à conquista, parece mesmo igual à da estátua dele em Guimarães, a primeira. Veja a inscrição na lâmina e diga-me se não fiz uma boa compra! Deve valer uma fortuna!
Examinou-a à luz do candeeiro com um monóculo de relojoeiro.
- A inscrição é credível, ou seja, a grafia: A…

Blind Date 1

- Gostas do lugar que escolhi - perguntou-lhe ele num tom meloso. - Sim, sem dúvida, a comida é excelente e a música de violino é...não sei, acho que nunca tinha ouvido antes, mas estou a gostar. Os empregados também são muito simpáticos, principalmente a rapariga, tem uma voz delicada, de quem se preocupa mesmo com o que os clientes desejam. - Também estou a gostar, só poderia ser mais perfeito se os nossos cães-guia não rosnassem tanto um para o outro.

Blind Date 2

Estranhos, apresentaram-se na mesa do restaurante, ambos pre-dispostos para uma relação breve e intensa. Jantaram numa atmosfera artificialmente romântica, e ele segurou-lhe nas mãos enquanto esperavam pelas sobremesas. Sentiu que ela mirava os seus dedos.
-Tens uns dedos bonitos, mas as unhas...são muito pálidas e de aspecto doentio, sabes que pode ser das lacunas na tua alimentação...Oh! Desculpa! É o ónus do meu trabalho, trabalho num salão de beleza e estou sempre a reparar nestas coisas.
- Não tem problema, são ossos do ofício...
Não houve constrangimento nem anti-clímax. Saíram do restaurante, deram um giro por um ou dois bares e acabaram no apartamento dele, a ver um filme na cama. O ambiente proporcionou-se e fizeram sexo. Depois, ela deitou-se sobre o seu peito, para verem o resto do filme. Ele hesitou um pouco, mas acabou por falar
- Sabes...há pouco, antes de coisarmos, reparei num corrimento de cor estranha que tu tens...é como tu disseste, é o ónus do trabalho. Se quiseres, a…

Pena

("Numa manhã muito fria, o menino de ouro elevou-se nos ares, chamavam-lhe o menino de ouro porque era o único herdeiro de uma das famílias mais ricas do norte. O menino de ouro levantou voo no seu balão e nunca mais foi visto, morto decerto nalgum alcantilado remoto, ou numa garganta sombria do Douro. Os pais nunca desistiram de o encontrar, enviaram gente e mais gente a procurá-lo. Passaram a pente fino vales e montanhas, chamando pelo seu nome, mas o menino de ouro nunca apareceu, e todos diziam que tinha subido ao céu no seu balão").

Pena que não possa, contar-me as histórias que me contaram com palavras simples, palavras que eram, em si mesmas, histórias, sugestões de histórias, musicalidade, paisagens oníricas. Podia enumerá-las, mas não narrá-las, como se me incumbissem de fazer o levantamento topográfico de um Olimpo despovoado, fotografar as ruínas dos palácios dos deuses e desenhar os motivos frios dos seus frescos abandonados.

("O meu avô viveu até à idade adul…

Sshhhhhh!

Mandavam-no calar, sempre que a linguagem adquiria formas inconvenientes ou blasfesmas. Os pais, quando era pequeno, mas também os mestres, os chefes, os vizinhos, a polícia política, o jornaleiro, o pedinte, os irmãos e os filhos...Sshhhhh!...Dedo levantado trespassando os lábios com o seu silêncio. Começou a ganhar medo às palavras como se tem medo do escuro, fugia delas, refundia-as no seu íntimo como a um vento aprisionado. Quando morreu, foi triste e prolongado o seu último suspiro ...Sssssssssssssssshhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! - tantas eram as palavras que teve de soltar.

Compincha

Assim rezava o texto: "Jantar de reformados da empresa Solino. Traje informal, presença do gestor da firma, despesas comparticipadas pela empresa. Vinte e uma horas no átrio do restaurante Repasto". Depois de diversos sms's, mail's e cartas lacradas a reforçar o convite, decidiu-se finalmente a comparecer. Procurou nos armários do W.C. alguns comprimidos para os nervos, não encontrando, tomou dois analgésicos para a dor de dentes, que fariam o mesmo efeito. Calmo, calmíssimo, lá entrou no tal átrio pré-repasto. Aperto de mão, beijoca, aperto de mão, duas beijocas. Um velha muito pintada, arranhou-lhe a face com um anel de pedrarias, no acto desastrado de lhe fazer uma festa. Entre salvadores e Judas, conseguiu um lugar na coxia da mesa, um sítio ideal para iniciar uma fuga. Começou o repasto, com as entradas e aperitivos, seguidos de diversos pratos de peixe e carne regados com vinho de vários tons, pelo meio, alguns discursos para enrolar a tripa e bloquear as artér…

Minguante nº 8

Imagem
Andou a levedar por mais algum tempo, mas não é por isso que está menos leve - podemos levá-la para qualquer lado. O Minguante agora é uma revista trimestral, sob a égide do três, como o Levítico, o terceiro livro. E se mais razões fossem precisas, este Minguante tem como tema… a LEVEZA


Pão, por Deus!

Imagem
(Mendigo, gravura de Rembrandt)