INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

O Terror volta ás salas de cinema:

"Sei o que Fizeste no Inverno Passado"
Como tivesse nascido sem braços, sempre que alguém lhe fazia mal, tentava assestar-lhe um pontapé bem dado. Era o seu modo peculiar de tentar fazer justiça pelas próprias mãos.

Circuito fechado

«Tenho um molho de chaves que parece o de um carcereiro, mas estou do lado de dentro. Todos os dias abro e fecho dezenas de portas, e ainda não consegui sair disto»
Para explicar ao filho os seus factos da vida, escolheu uma forma alegórica, oferecendo-lhe um exemplar d' "Os Miseráveis" de Vitor Hugo e um cartão de crédito ilimitado.

*

Para explicar ao filho os factos da vida, queria levá-lo naquele dia ao parque para ver os rituais de acasalamento dos pombos e cisnes, mas o filho avisou-o logo que só podia ir no final do filme pornográfico.

Monólogo

Não gosto nada de moscas, são nojentas e dão mau aspecto, as pessoas costumam vir aqui um pouco contrariadas e ainda por cima encontram isto cheio de moscas, não sei o que as atrai. Sim, porque ninguém vem aqui por gostar, não se gosta de ir a um Lar de Idosos, vai-se por obrigação, porque se tem lá alguém que os criou toda uma vida, ou porque sabem que os recrimina publicamente se não forem lá vezes que chegue, e aquilo pode chegar aos ouvidos das pessoas do seu trato diário e parecer mal, as pessoas não gostam, não é que tenham nojo dos velhos, mesmo daqueles que estão todos tortos ou já não estão muito bem da cabecinha, as pessoas tem medo é da velhice e de ficarem como eles, virem aqui é como serem obrigados a espreitar um morto a apodrecer numa campa e verem ao que vão chegar. O que falava eu? Ah, as moscas! Não sei o que fazer, é desesperante. Já pus remédio nas paredes como me aconselharam, e mandei arrancar a hera do alpendre por me terem dito que aquilo é o ideal para criar bicharada, e também mandei podar o chorão pelo mesmo motivo, mas as moscas continuam...Hã? Só um momento, professor...(...)...Sim, desculpe, professor, era uma empregada a fazer-me uma pergunta, ela perguntava se eu não queria chamar o médico por causa da Dona Deolinda, o senhor sabe quem é, é a mãe do Vargas da farmácia (...) não ela não está doente, é teimosa, arranha-se toda nos braços e nas pernas até ficar em carne viva, fazemos os curativos e ela volta a arranhar-se, as moscas em cima dela parecem um manto negro, o melhor é deixá-la ficar assim uns tempos para aprender, não podemos estar sempre a chamar o médico por causa disso, nem ele conseguia sair daqui se fosse só para cuidar dela. Em relação ao assunto das moscas, se o senhor tiver alguma ideia ou tiver ouvido falar de alguma coisa que seja bom para acabar com essa praga, faça o favor de me dizer. Obrigado, professor, e cumprimentos à esposa...adeus professor, saúde, adeus!

O próprio

Entrou no stand à beira da estrada e passeou a vista pelos carros expostos. Muito caro, idem , idem, idem, muito escafiado com massa nas mossas e riscos fundos, muito velho, muito caro...Hum! Este não está mau!
- O preço é mesmo este? Não se pode fazer uma pequena atenção em função do aumento do custo de vida, e da crise no Golfo Pérsico?
- Não, lamento, mas não posso, este carro é uma retoma, pertencia a um velhote, estava sempre guardado debaixo de telha num celeiro e só saía com ele para ir á missa, e não era todos os Domingos!
- Pensava que isso era apenas um conto tradiconal português...
- Não, engana-se. O carro ainda não foi limpo e pode encontrar vestígios disso, penas, feno e caca de galinha, o terço enrolado no espelho retrovisor. É pessoa que conhecemos, gente boa e trabalhadora que estima os seus bens e que não vive á toa. Você leva um carro de confiança.
- Aquilo no assento são manchas de sangue?
- Como lhe dizia, trata-se de gente simples que trabalha de sol a sol, que todos os dias da semana se levanta de madrugada para trabalhar e que se deita com as galinhas.

Definição:

Palavrulho: Palavra que cai num texto como um pedregulho; palavra extensa por contraste, e/ou de sentido hermético, e/ou demasiado rebuscada. Exemplo: palavrulho.

Monstros

-Tenho medo, mãe! - Murmurou no escuro, aliviando a cabeça fusiforme do peso do seu décimo tentáculo com olhos - Tenho medo do que está lá em cima.
-Não tenhas medo, hás-de ver que não é nada, sombras caprichosas, as molas do colchão que rangem por estar tensas.
-Não, não é verdade, eu vi! Tinha só uma cabeça, dois braços e duas pernas e deitou-se em cima da nossa cama!
-Parvoíces! É da idade! Imaginas monstros em cima da cama e no alto das escadas da cave, semelhante coisa não existe, vá lá, fecha os teus trezentos e vinte olhinhos e tenta dormir. De manhã, as coisas vão parecer menos assustadoras.
Estende a toalha de linho na corda sob uma luz outonal, cantando como nos anúncios antigos de detergente, deixa-se estar escondida, a matrona arrasta o cesto da roupa com o pé, esconde-se ainda mais, temendo que ela a veja ou suspeite da sua presença, continua a ouvi-la, e vê as peças de roupa a serem meticulosamente presas com molas de madeira, calças, cuecas, meias, saias, blusas, continua a cantoria até o cesto estar vazio, pára um momento, depois volta à ponta da corda, desprende umas quantas peças que vai recolocando na outra extremidade até esgotar o sortido colorido de molas de roupa, sabe que deixou molas sem função na corda, dá uma fugida à horta e arranca folhas de couve das couves de Natal e pendura-as alegremente na corda a enxugar, retoma a operação porque lhe parece que as primeiras peças de roupa que pendurou estão mais que secas e retira-as para o cesto, o que dá como resultado ter mais molas vazias no bolso do avental, volta novamente à horta e a filha sai do seu esconderijo, vestida com roupa andrajosa e rasgada e surripia duas ou três peças para se vestir depois do banho, todas as roupas da corda estão igualmente velhas e rasgadas, queimadas do Sol e da geada da noite, a matrona volta, espantando os seus males com uma voz angelical, passa por cima de um monte de vegetais secos (folhas de couve e alface, ramos de eucalipto, folhas secas de árvore) e completa o trabalho, ou julga completar porque, já o dia declina, e ela começa a retirar as folhas de couve para pendurar a roupa do cesto, convencida que está que saiu do tanque da roupa e está a precisar de bom Sol e vento.

Apontamentos de uma jornalista regional

Notas tiradas no Casal do Outeiro, semana das festas da Senhora do Ó, artigos para o Correio do Oeste (para transcrever para o diário).


Dia 5, Terça-Feira - Pedem-me para fazer umas entrevistas entre os romeiros e festeiros da festa, e tirar fotos. A igreja da terra está construída no alto de um morro, onde já houve um castro e um templo romano a Ceres. A festa é no adro e em volta. Á tarde surgem os primeiros sinais estranhos, a terra treme ou ressoa, o povo tem medo e diz que por debaixo da igreja é terra oca, subterrâneos e criptas do tempo dos pagãos, se a terra tremer muito, a igreja pode ruir como na época do grande terramoto. Enviei primeiro texto e fotos, por mail, para redacção.


Dia 6, Quarta - A terra estremeceu novamente, e surgiram rachas no empedrado do adro donde saíram poeiras violáceas. Junto á barraca das rifas saiu um cortejo de ratos de um buraco de esgoto que lançou o terror nas pessoas. O pároco, padre Rui, mandou decorar com palmas e postes engalanados um terreno paroquial junto á aldeia, e diz que se as coisas continuarem assim, reza ali missa campal no dia da santa. Gravei a entrevista. Não esquecer de o citar quando diz que acima dos anjos e santos está Deus e que a casa de Deus é em todo o lado, sobretudo, no coração das pessoas. Novo artigo, não escrevi sobre os preparativos para a missa campal.


Dia 7, Quinta, dia central das celebrações - as pessoas da terra tiveram uma manhã de consternação. Apareceram mais ratos, desta vez no interior da igreja, e cobras, uma dezena delas, que saíram pelas escadas que conduzem à cripta subterrânea e cujo acesso se faz por umas escadas na abside. Missa campal. A procissão saiu daí para a capela de Santa Quitéria. Ninguém quer entrar na igreja enquanto ela estiver invadida por bichos. Há muito falatório em volta destes fenómenos. A terra vibra, perceptivelmente, e perto do meio-dia voltou-se a sentir estremecer o chão. Tirei fotos da procissão e do andor da santa, decorado por tradição com espigas de cereal e com um cesto com flores e frutos. Á tardinha, a imagem foi recolocada na igreja. Encorajado pelo padre, dei uma olhada na cripta. É uma sala rectangular acanhada que se situa no eixo do altar, tem inscrições tumulares nas paredes e no chão. Do lado nascente há um semi-arco a meio da parede, sai vento dali. O padre Rui explicou-me que do outro lado há uma cisterna rectangular com várias aberturas na rocha, que se acredita ser o que resta de um tanque cerimonial romano, reaproveitado por mouros e cristãos. Pedi-lhe para irmos embora antes que aparecessem mais cobras.


Dia 8, último dia da festa - O padre Rui pediu para me chamar. Junto á casa paroquial apresenta-me ao engenheiro Francisco Simões, que faz parte do executivo camarário. O engenheiro conta-me que fora alertado por um Irmão (ele é maçónico) para o que se estava a passar no Casal do Outeiro, e que possui uma explicação Occâmica para o fenómeno. A causa de tudo aquilo é a exploração mineira. As minas de cobre de Azinhaga dos Mouros iniciaram a abertura de uma nova galeria que tomou o sentido do Casal do Outeiro e cuja frente está muito próxima à base do monte. As vibrações dos martelos pneumáticos e as detonações subterrâneas teriam levado o pânico aos ratos e cobras do subsolo da igreja, levando-os a sair á luz do dia. Não era preciso invocar mais nada. Último artigo sobre a festa, enviei entrevista com o pároco e as palavras ouvidas á festeira do próximo ano.


Dia 10 - Recebi carta do padre Rui, agradecendo o carácter objectivo dos artigos. E mais me conta. Ontem de manhã, quando chegou á igreja, o sacristão já a tinha aberto, o que lhe causou muita estranheza. Quando entrou, ficou perplexo, havia duas raposas dentro da igreja a comer os frutos da cesta da santa. Ele afastou-se para um lado a pensar que as raposas iriam querer fugir pela porta, mas não, fugiram pelas escadas que dão para a cripta. Deixou passar algum tempo, porque não achou prudente isolar-se com elas no cubículo da cripta, mas quando finalmente as seguiu, não voltou a vê-las. Ele acha que entraram pelo arco da cisterna. Terminou a carta, referindo a cadeia alimentar do templo: cobras que comem ratos, raposas que comem frutos, ratos e cobras. Por sorte, remata com ironia, a carne de raposa não é muito apreciada pelas pessoas.


Dia 16 - Carta do padre Rui, que começa por me pedir desculpas, porque eu devo ser uma pessoa muito ocupada. Diz que ficou intrigado por lhe ter parecido que as duas raposas possuíam uma lista branca na cauda e que, á primeira vista, quase parecia uma fita atada em volta. Procurou fotos e gravuras de raposas numa biblioteca e chegou pela lista de ilustrações de um livro sobre caça, a uma gravura de fins do século dezanove inspirada num fresco de uma villa romana em Córdoba. A gravura representa a deusa romana Ceres junto á entrada para o mundo inferior, o chão está atapetado com feixes de cereais, tem diante de si um cesto com flores e frutos, e diversas raposas com uma fita branca em volta da cauda. O padre Rui diz-me que não sabe o que pensar. Eu também não, e escrevo-lhe para lho dizer, solicitando que me envie uma reprodução da fotocópia da gravura.


Dia 18 - Nova carta do pároco, não tem nenhuma fotocópia da gravura, achou melhor não pedir porque há coisas que é preferível manter enterradas, como os mortos da cripta. Está a pensar mandar emparedar o arco da cisterna porque o sacristão agora lhe está sempre a dizer que o vento no arco lhe soa a risos e a música de cordas. Parece-me muito perturbado. Acho que não volto a escrever-lhe.

Simbiose eutanásica

Ser o vento nos plátanos de Outono que desafecta as últimas folhas secas.
Ser as folhas secas nos ramos do plátano, que só esperam um vento que as ajude.
nove e dezasseis da noite, a selecção de futebol joga, uma merda de jogo, melhor voltar ao trabalho, foda-se, deixei a minha Pen Drive lá em cima no sótão, preciso dela para apagar os indícios, como é que eu vou lá agora? Calma, indo apenas, degrau a degrau, sem excitações, podem estar a dormir, começo a subir as escadas, ouço um som estranho de cortar a respiração, arranham a porta de madeira, ou tentam mordê-la com aqueles dentes salientes, volto a descer a escada e armo-me de uma vassoura para os manter à distância, só preciso dar três passos no sótão para reaver a Pen Drive, deixei-a em cima de uma pilha de livros ao lado da jaula, devo conseguir, tenho de conseguir, não os devia ter deixado à solta, as coisas andavam mais controladas quando eles eram mantidos na jaula, confinados e anestesiados, chega de lamentos, é hora de agir, encosto-me á porta de madeira, ouço o arfar de um deles, deve estar mesmo encostado á porta para ouvir a minha própria respiração, caraças! Rodo a maçaneta e entreabro a porta, cinco centímetros, sete, não avisto nada, adianto o cabo da vassoura, num ápice, sinto uma força enorme a empurrar a porta, aguento-a meio fechada enquanto surge na fresta o rosto do chimpanzé, com os olhos vermelhos e os dentes aguçados a escorrerem saliva, num reflexo tento acertar-lhe com a vassoura, ele sente a ameaça, roda ligeiramente a cabeça e fecha a boca sobre o cabo de madeira, conseguindo prendê-lo com os dentes entre algumas lascas arrancadas, aquilo dá-me tempo porque sinto que há outro atrás da porta, empurro a vassoura e consigo fechá-la, rodo a chave e encosto-me a ela, exausto, desço novamente as escadas, tenho de me acalmar, se eu estiver calmo, eles também ficam, sento-me no tapete do quarto na posição de flor-de-lótus e cumpro uns exercícios respiratórios, respiro como me ensinaram no curso, sinto as batidas cardíacas desacelerarem, mas pode não chegar, bato uma pívia e tomo uns calmantes, deve ser suficiente, subo novamente as escadas, não ouço ruídos estranhos, rodo a maçaneta e entro, os três chimpanzés estão quietos, olham-me com indiferença, um deles tem a cabeça entre as mãos como um dos três macacos alegóricos, o sótão está uma confusão, livros e folhas rasgadas, a estante no chão, restos de comida e excrementos em cima das lombadas, recupero a Pen Drive, escapara incólume ao Armagedão dos símios, penso em retirar-me, mas primeiro fecho-os na jaula grande a um canto do sótão escuro, verifico as correntes e o cadeado, tenho de lhes trazer comida e água e limpar aquela porcaria, mas preciso de trabalhar um pouco, a Pen Drive tem na memória as únicas folhas que me interessam de todos aqueles livros de contabilidade, tenho de esconder aquela informação antes de poder exibir a catástrofe. Abençoados macaquinhos no sótão!

Comunicado

Vinte e cinco presos evadidos da prisão. A polícia política foi no seu encalço, e capturou-os a todos. Recambiou quatro para as celas, e fuzilou os restantes no meio do pinhal, deixando-os lá, numa pirâmide de corpos, à mercê dos predadores. Quatro inimigos do regime foram capturados - rezava o comunicado oficial - os outros continuam a monte.

A desarte da fuga

Amílcar dos Santos Neves, que todos os conhecidos conhecem apenas pelo seu primeiro nome, tem um mantra pessoal. Não é em sânscrito ou tibetano, nem fala de flores-de-lótus ou despertares de luz. O seu mantra é elementar: "O-A-míl-car-des-pe-diu-se". Entoa-o interiormente vezes sem conta no encadear de rotinas vazias de um trabalho mecânico que abomina. Consegue imaginá-lo dito em voz alta pelos seus colegas, na hora do café ou na do prego para o caixão. O Amílcar despediu-se! Mas o Amílcar não se despede nunca, porque precisa ou porque não é capaz. O seu mantra continua a acompanhá-lo, até à hora da reforma, ou até atingir o Nirvana.

Regresso

"Vamos apanhar um pouco de ar" disse o patriarca no final do almoço de Domingo, almoço não, almoçarada, pança cheia a sacolejar, a comida já em digestão acelerada pelos digestivos a volatizar-se em peidos rebeldes muito antes do bolo alimentar estar convertido em bola de bosta. Enfiaram-se todos no carro e rumaram ao cais marinho do porto. Era Inverno e, apesar do Sol débil e da aragem fria, havia por lá muitos carros parados. Achou um lugar e parou o carro na beira do cais, abriu-se uma nesga de vidro para arejar o ambiente e prepararam-se para uma tarde de regresso à vida pura e às benesses da natureza. Ele puxou do jornal desportivo, levantou-o como um cenário de teatro e começou a ler, a mulher, ao lado, hesitou entre uma sorna e uma revista feminina e acabou por se entreter com o croché. No banco de trás, os três filhos, anularam a seca de estarem diante do estúpido mar com os seus estúpidos barcos e puxaram dos telemóveis e começaram todos a jogar. Ao fim de umas horas, os pais passavam pelas brasas no banco da frente, enquanto os filhos escalavam níveis nos seus jogos infindáveis. O patriarca, por fim, abriu os olhos de par em par e descobriu que um homem com uma cana de pesca se interpusera entre ele e o mar, o que lhe pareceu uma ofensa pessoal grave. "Vamos embora! - rugiu com uma autoridade mosaica - Já ninguém respeita ninguém nos dias de hoje!".

Novembro / Nueve Hembras

Nove ninfas, filhas da Memória, estavam guardadas para quem as procurasse, todas elas eram voláteis e leves, conduzindo os artistas na esteira da sua música ou das suas vozes, a resplandecer no brilho das estrelas e na beleza das flores. Iravam-se quando alguém as tentava igualar, mas mais iradas ficavam se algum mortal se mostrava indiferente à sua presença. Numa manhã de Maio, quando dançavam entre as faias do monte Hélicon encontraram um jovem guerreiro que as observava sem expressão, sentado sobre o escudo. Concentraram nele as suas artes mágicas, e tentaram que ele sentisse emoções, que dançasse ou sentisse a doçura dos versos e, quando isso falhou, procuraram instilar desejo nas suas veias e visões edénicas na sua alma. A fúria culminou a vanidade do seu esforço e metamorfosearam-no. O guerreiro, já morto em cima do seu escudo, foi transformado num loureiro, a mesma madeira com que fora afeiçoado o cabo da lança que lhe trespassara o ventre.

"Just talking over cigarettes and drinking coffee" (Otis)

1
Quando entrou no café ao lado da Gare, descobriu de imediato a sua figura, a silhueta ovóide dos seus cabelos castanhos soltos numa cascata de caracóis, sentou-se casualmente à sua beira, ela quase não reagiu à sua presença, o cigarro consumindo-se sozinho entre dois dedos muito brancos e o olhar escorrendo sobre o exterior como a chuva nas vidraças do café, afagou-lhe a mão espalmada sobre o tampo de mármore, conseguindo que ela olhasse para si, de soslaio, quase incomodada pela sua intrusão, puxou de uma passa, uma luz baça assomou às suas pupilas e debitou um sorriso frouxo, e ficaram assim por largos minutos, ele esfregando-lhe a mão fria enquanto ela olhava a chuva, trouxeram-lhe a aguardente habitual, que ele bebeu timidamente como os pardais que debicam a água na orla dos charcos.
- Olá! - Saudou, arrancando do fundo as palavras - Nós nunca nos falamos, mas vejo-a sempre aqui sentada. Chamo-me Jorge...

2
Quando entrou no café ao lado da Gare, descobriu de imediato a sua figura, a silhueta ovóide dos seus cabelos castanhos soltos numa cascata de caracóis, sentou-se casualmente à sua beira, ela encostou-se a ele num refúgio cúmplice, não tens aparecido por aqui, disse-lhe, venho cá todos os dias, ela passou os dedos da mão pela sua boca, para sossegar as palavras e ficaram em silêncio, ouvindo a chuva que humedecia as vozes e os sons do café, acendeu-lhe um cigarro, a chama do isqueiro agitou as formas pardas e as sombras e ele espevitou e sentiu-se quase coagido a falar, impusera-se a si mesmo falar com ela, ter a conversa das conversas - quando começamos os dois, tinha a esperança de que as coisas progredissem, de deixarmos de ser apenas dois estranhos que conseguem um pouco de sexo quando calha avistarem-se num café, já estivemos na casa um do outro, sabemos de muita coisa...podíamos experimentar viver uns dias ou umas semanas juntos. Ela levantou-se de um salto, como se estivesse a ser anelada por uma anaconda, e pousou no outro lado da mesa, a cabeça baixa com o queixo quase encostado ao tampo, os seus olhos estavam marcados por olheiras fundas, de noites mal dormidas e ressacas mal curadas, uma gotícula de saliva perlava-lhe o canto do lábio. Sabia que virias com essa conversa porque és o macho dominante, mas já sabes o que penso sobre isso, eu preciso do meu espaço, do meu ninho na minha árvore, sufoco se tenho alguém a andar por perto a travar-me os movimentos. Tu és um recanto macio do meu mundo, uma cama de feno onde gosto de repousar as penas, mas nada mais. Percebes o que quero dizer? Não vivo numa mansão, mas é o meu ninho, dali vejo toda a cidade e antevejo os predadores que tentam aproximar-se, as serpentes e os lagartos ovíparos, defendo-me deles ou bato asas para lhes escapar, e é isso que estou a fazer neste momento. Não voltarei tão cedo a este café! Levantou-se, a sua expressão estava menos tensa, como se a tivessem libertado dum peso. Desapareceu do seu ângulo de visão e ele permaneceu sentado, a emburrar mas, pouco depois, correu atrás dela até ao exterior a ver se a apanhava. Na rua, apenas a noite, varreu com o olhar o passeio de um lado e do outro, o alcatrão, o céu escuro de onde a chuva caía sobre ele como uma esteira líquida. Quando voltou ao café, o barman chamou-o.
- Não a encontrou? Se quiser deixar recado...ela vem cá muita vez!
- Ela esqueceu-se de uma coisa em cima do banco, se a vir, diga que eu guardo para ela - e entreabrindo as mãos, mostrou-lhe um ovo muito branco, ainda palpitando de calor.

Clivagem

- Pareces desanimado...tens o ego em baixo?
- Não, o meu ego está de licença, foi passar férias a Trindade e Tobego.

História

Numa manhã fresca de Outono, o jovem seminarista descobriu algo de excepcional enquanto meditava sobre as virtudes teologais. Estava sentado numa degrau da escadaria que levava ao antigo Mosteiro no topo do monte onde funcionava o Seminário. Era uma escadaria dupla com um corrimão de pedra no eixo, desde sempre as pessoas subiam por uma banda e desciam por outra, costume fixado pelo sentido da Via Crucis que aí se celebrava. O que o seminarista constatou foi isto: a escadaria de ambos os lados tinha a mesma idade (verificara a inscrição no primeiro degrau de cada lado), mas os degraus de pedra por onde se subia estavam muito mais gastos do que os degraus no lado oposto. A sua piedosa conclusão foi a seguinte: as pessoas quando subiam iam carregadas com o peso dos seus pecados e com a contaminação subtil do mundo profano mas, lá em cima, a confissão religiosa e os ritos da santa missa tornavam-nos mais leves, o que explicava o menor desgaste dos degraus, visível a olho nu ao fim de centenas de anos
Entusiasmado com a descoberta, revelou-a a um dos seus professores, pedindo-lhe encarecidamente que ele o guiasse numa pequena tese que pensava escrever sobre o tema. O professor não estava tão seguro dessas premissas e declarou-o ao jovem.
- Costuma dizer-se que, a descer, todos os santos ajudam, e talvez as pessoas subissem carregadas com os bens que o Mosteiro lhes cobrava pelo foro...são trezentos e quarenta e oito degraus para galgar com galinhas e cereais, sal e pão.
- Poderei levar isso em linha de conta...
- Então junte-lhe mais este dado, inestimável para quem não tenha a sua percepção do sagrado: este era um Mosteiro de monjas, um Mosteiro no feminino. A partir do século XVII e até à dissolução das ordens religiosas funcionou como um prostíbulo da nobreza e dos burgueses ricos deste país. Gente desse calibre e seus protegidos subiam a escadaria para conhecer carnalmente as monjas. Haver uma escadaria mais gasta do que a outra poderá parecer a um espírito laico, que se deve à circunstância dessa gente libertar no Mosteiro a sua semente vital.

Tonterias

“Não tenho palavras”, declarou ao editor, para justificar o atraso na entrega do original prometido.


Entrou nessa de saber o futuro, mas não gostou da experiência. Esperava notícias melhores. Em casa, com um estilete afiado, tentou retocar algumas linhas da mão antes de consultar novamente a quiromante.


Pandora abriu a caixa e libertou tudo o que havia de mau. No final, quando já desesperava, saiu lá de dentro um génio verde que se uniu a ela e a deixou de esperanças.


Sempre tivera o costume de dormir de olhos abertos. Faleceu numa manhã de Sábado, e a família só descobriu o óbito quatro dias depois.


“Também foi bom para ti?” – Perguntou ela à amiga, depois da troca de vibradores.


Ela decidiu ir trabalhar como mulher-a-dias para um Seminário, por achar que, por ali, devia haver muito sémen mal parado.


"É altura de acabarmos o nosso romance". O escritor escutou as últimas palavras da heroína principal e colocou o "Fim" no dito do romance.


Lembrou-se que nos filmes românticos, a pessoa amada nunca chega a partir no avião: desce correndo pela escadaria com rodas ou se acha no meio da pista depois do avião descolar. Teimou em ficar olhando o avião partir, sabendo que a vida não era um filme.


Para disfarçar a mancha de sangue do crime, tingiu o passeio com Ketchup.


(para actualização
desta página)

Portão do céu

Recebeu um último aperto de mão, este do guarda de serviço ao portão, deu três passos tímidos e imobilizou-se no pátio. Atrás de si a mole branca dos muros da penitenciária. Aconchegou a si os poucos haveres que transportava, o casaco no braço, a carteira com algum dinheiro em Euros (entrara com escudos e tinham-no trocado), a maleta de James Bond com alguns livros e artigos de higiene pessoal. Olhou em volta. Ninguém! O irmão disse que o ia esperar à saída, pedira-lhe que estivesse lá antes de si, diante do portão. Devia ter tido um furo...ele não lhe ia fazer uma desfeita daquelas. Sem saber o que fazer, avistou o toldo vermelho de um café do outro lado da rua, e achou que seria uma boa opção. Podia haver uma mesa junto ao vidro e, se o irmão chegasse, correria à porta a chamá-lo. Atravessou a rua e instalou-se a uma mesa. Estremeceu ao sentir-se envolvido pelos sons e cheiros banais mas, simultaneamente, épicos, de um café, coisas vagas e imemoriais, o tinir de chávenas, o aroma, o enfermo resfolegar de uma arca de gelados, o papaguear de pessoas à volta de mesas com os jornais abertos a excitar opiniões. Chamou o homem por detrás do balcão e este aproximou-se com má-cara. Pediu-lhe uma torrada e um galão (ás três da tarde), para matar saudades. Enquanto esperava, tirou um guardanapo de papel e dobrou pontas até armar um pequeno barco. Abstraía-se, tentava não pensar nas coisas. O irmão disse que o ajudava. O irmão ficara com aquela que fora a sua mulher, criara o filho que ele gerara e juntara-lhe mais dois para compor o ramalhete, mas prometeu que o ajudaria nos primeiros tempos. Quando saíres, é como se tivesses passado uma borracha em tudo o que ficou para trás! Dissera-lhe o irmão, entre promessas vagas. Só precisava de um lugar para ficar por algum tempo, e um trabalho qualquer para arrancar, que depois arranjava outro que fosse mais do seu agrado.
Quando lhe colocaram o galão e a torrada na mesa, fez uma pausa respeitosa como se pronunciasse uma oração, em seguida, tirou uma migalha ensopada em manteiga do centro da torrada, colocou-a na boca e sentiu-a desfazer-se. Juntou-lhe uma colher cheia de líquido quente do galão, e sorriu de felicidade. Comeu o seu lanche fora-de-horas, recostou-se na cadeira e continuou de sentinela ao exterior. Faltava-lhe, sim, faltava um cigarro, cravou-o a um homem sentado na mesa mais ao pé, cravou-lhe também lume, e voltou a sentar-se no mesmo lugar. Fumou o cigarro, depois foi buscar um dos jornais de cima da arca e nem olhou para a data, para ele, todos aqueles jornais eram do próprio dia, leu e releu as páginas, trocou-o por uma revista cor-de-rosa, enfastiou-se dos sorrisos empalhados e do oco glamour e abandonou a leitura. E o irmão que não chegava! Não queria telefonar-lhe, impor-se, como se o irmão já não lhe tivesse feito muitos favores durante aqueles anos de reclusão. Talvez devesse ir até lá...não queria ver já o filho e ex-mulher porque essas coisas precisam de tempo, mas podia ir ao comunicador do portão e pedir para falar com ele. No fim de contas, a casa não ficava assim tão longe, talvez hora e meia de caminhada, chegaria lá de noite porque anoitecia cedo, e se o irmão tivesse um canto na garagem onde pudesse estender uma manta ou um saco-cama para dormir, o dia ficava salvo e, de manhã, começariam de fresco.
Levantou-se para sair, ouviu um tinir abafado, mas não ligou importância. Chegou-se ao pé da caixa registadora e puxou de um nota de vinte euros (devia chegar, achava). O homem segurou-lhe na nota. Em vez de fazer a conta, contornou o balcão e aproximou-se da mesa onde estivera sentado. Pareceu-lhe que verificava a louça e os talheres. O homem chamou-o, com pretensa discrição.
- O que fez à colher comprida do galão? - Perguntou, num murmúrio.
Sentiu uma ira surda subir dentro de si, a queimar, sentiu ganas de esmurrar aquele homem estúpido, de lhe esmagar a porra da cabeça. Soltou um gemido aterrador, tentando controlá-la. Levou as mãos à cara e esfregou-a como se estivesse a lavá-la com água. Quando abriu os olhos, o homenzinho tinha recuado dois passos, com os lábios a tremer. A fúria deu lugar ao desprezo. Ajoelhou-se, perscrutou o chão e descobriu a colher debaixo da cadeira. Entregou-a ao seu proprietário, que correu para a caixa registadora, fez a operação e correu de volta para lhe entregar o talão e o troco.
Quando se viu na rua, sentiu-se cansado e vazio, como se lhe tivessem extraído as entranhas. O irmão não viria. Tudo o que supusera e imaginara nos últimos anos na prisão tinha-se desmoronado como um castelo de cartas sob o peso de uma colher de metal.
A prisão continuava diante de si, ia carregá-la o resto da vida. Aproximou-se das escadas, descobriu um recanto junto ao muro que a luz do holofote não alcançava, e sentou-se sobre o casaco. Um bom sítio para ler enquanto houvesse luz, e para dormir também. Estava certo de que o seu sono não estranharia o lugar.

Transferência

A jovem universitária, esguia e de cabelos curtos escorridos, voltou a verificar que não havia ninguém por perto antes de retomar as explicações ao avô, um velhote atarracado de olhar ansioso.
- Noutro dia, quando lhe abri a conta no Banco, pedi este cartão Multibanco que o avô pode usar para vir buscar dinheiro. O senhor sabe ler e isto é muito simples, todas as instruções lhe são dadas - e exemplificou - aqui, quando pedem o código, o avô coloca os quatro primeiro algarismos: 1-2-3-4. É fácil de fixar, não o escreva! Se o avô se enganar, ele pede outra vez. Depois pergunta o que você quer fazer...levantamentos...aqui, escolhe a quantia, carrega e o dinheiro aparece, você tira o dinheiro e o cartão. Agora não vou levantar, é só para você ver. Acha que consegue?
O ancião pegou no cartão como se ele estivesse incandescente.
- O meu dinheiro está todo dentro desta caixa?
- Está! Está melhor aí do que enfiado no colchão ou no bule do louceiro. Você vive sozinho e tem de ter cuidado...
- E quem é que o pôs lá? A senhora que nos atendeu ou o homem de gravata que cheirava a perfume de mulher?
- Foi um deles, avô, mas isso não interessa, o senhor quer tentar usar o cartão?
- Não há uma maneira mais fácil? Tu estudas fora e isto é fácil para ti, mas eu já tenho oitenta e três mil quilómetros...
- Está bem, avô, esqueçamos o cartão. Sei que não deve ser fácil, e é a sua primeira conta. Se você precisar de dinheiro ou lhe quiser juntar mais, vai lá dentro ao balcão. Se precisar de uma ajuda, liga à mãe ou a mim.
- Está bem, eu agradeço muito.
A neta levou-o ao carro e deixou-o à porta de casa, umas ruas mais adiante. Agradeceu novamente, com o seu coração gasto extravasando de ternura pela neta adulta. Entrou em casa. Fazia-se tarde, os dias eram breves e anoitecia já. Comeu umas sopas de café com pão, acomodou o estômago com uma maçã, bebeu o seu copinho de vinho da ordem e decidiu deitar-se. Sentia-se cansado, um pouco nervoso ainda, com aquela história do Banco e do cartão. Teve um sono alvoraçado, ao contrário do que era hábito. Sonhou muito e, a meio da noite, acordou num sobressalto. Sentou-se na cama de olhos muito abertos. Como era estúpido! Ainda não tinha pensado nisso: a Caixa Multibanco tinha uma gaveta ao lado, se alguém a abrisse, conseguia chegar ao dinheiro, o seu dinheiro, que estava ali todo à mão de semear. Tinha de ver melhor aquela gaveta!
Levantou-se e vestiu-se, a preceito, sempre a preceito. Nunca fora capaz de sair de casa com um arremedo de roupa. As suas calças listadas, a camisa impecável que tirou do cabide, o colete lustroso, o par de sapatos de sair à rua que estava sempre a postos e à distância de um braço por debaixo do roupeiro de pés. Verificou as chaves e a carteira, encasquetou o boné cinzento por causa da friagem, e saiu. No seu andar vagaroso, fez o percurso inverso até ao Banco, por ruas mal iluminadas. Não viu ninguém, tão tardia e fria era a hora. Quando chegou junto ao Banco, estranhou a agitação. Um empilhador estava parado em frente à Caixa Multibanco com os faróis apontados a esta. Um homem empoleirado na empena espalhava spray de espuma sobre a sirene do alarme. A uma ordem de um terceiro elemento, o empilhador avançou com força e cravou os garfos na parede, arrancando a Caixa com grande estrondo.
Aproximou-se do que estava a coordenar as operações, envoltos ambos por uma nuvem de caliça e pelo grito abafado do alarme.
- Estão a roubar o dinheiro? - Perguntou
- Não, avozinho - gritou o outro, depois de se refazer do susto - vamos levá-lo para outro Banco!
- Ainda bem, ainda bem -murmurou, virando as costas à cena e tomando o caminho de casa - este Banco nunca me inspirou confiança...

Piaget

Diante de um cão com um abajur cónico em volta da cabeça, é preciso muita psicologia para ensinar uma criança de quatro anos a não lhe puxar o rabo para acender a luz.

Conta Homero,

, que na ilha de Trinácria, o ardiloso Ulisses se deu a conhecer a um Ciclope como se o seu nome fosse Ninguém. O Ninguém que era Ulisses vazou o olho do alguém que era um Ciclope, mas cujo nome desconhecemos. Em seguida, Ulisses e os seus homens passaram pelos outros Ciclopes escondidos pelos corpos de um rebanho de cabras. Quando os outros Ciclopes viram o seu irmão cego à porta da caverna, perguntaram-lhe quem lhe tinha feito aquilo - "Um grego com crise de identidade - respondeu o Ciclope - o cabrão e os seus homens vão a caminho dos barcos no meio do nosso rebanho. Ouço-os balir como cães". Os gigantes correram atrás deles e capturaram-nos antes que se fizessem ao mar. Pegando nos seus cabelos como se pega numa mecha de pêlos, arrastaram-nos para o seu covil aterrador para uma pantagruélica sessão de terapia de grupo.

Eternet

Designação convencional da Internet de baixa velocidade onde as páginas, quando chegam a carregar, só o fazem ao fim de uma eternidade.

Burocracia

O nome Jaime Luís Vagos apareceu na lista de pessoas que deveria comparecer na Inspecção Militar. Os pais, muito constrangidos, esclareceram que Jaime Luís havia falecido três anos antes. Preencheram uma declaração e assinaram. Pouco depois, no mesmo expositor da parede da Junta de Freguesia, apareceu um edital em que Jaime Luís Vagos era acusado de crime de contumácia, e os pais receberam em sua casa uma carta em que se declarava que a ausência injustificada do mancebo na Inspecção Militar podia ser considerado um acto de deserção, passível de prisão e serviço militar acrescido.
Os pais preencheram novas declarações que seguiram as vias oficiais, mas o rastilho estava ateado. As suas vidas sofreram com o crime do filho, sendo alvos de um subtil e crescente ostracismo. Viram-se privados de todo e qualquer papel na vida da comunidade, mesmo das reuniões de condóminos e noites de canasta, ninguém lhes falava na rua e até os seus nomes foram arrancados da caixa de correio por um carteiro mais patriota.
Para acabar com essa perseguição, Jaime Luís Vagos deu à costa, para grande alegria e comoção dos pais. Apresentou-se ás autoridades, justificando os motivos da sua ausência mas, ainda assim, foi julgado e condenado a seis meses de prisão efectiva, com os quais se consideraria saldada a sua dívida à comunidade. Depois disso, Jaime Luís seria livre para iniciar uma nova vida.

Burocracia 1 1/2

No hall de entrada do Céu, não existe nada, apenas um espaço em branco no lugar que antes se designava por Limbo - um nada deprimente: uma planura deserta, sem vegetação nem rios. Deserta, mas não de almas, são aos milhões, pré-cristãs, não-católicas, crianças de berço. Fecharam-lhes o acesso ao condomínio fechado dos eleitos, com uma decisão terrena que os ultrapassa. A geografia mudou, as linhas e marcos de fronteira foram alterados, e ninguém sabe como sair dali. Há milhares de candidatos para cada vaga. Os burocratas lá do sítio tentam encontrar uma solução, distribuem impressos, em triplicado, que as almas preenchem para formalizar a candidatura. Os que conseguem admissão vêem os seus nomes afixados em listas que flutuam nos ares, penduradas dos cascos bifurcados dos angélicos mangas-de-alpaca. Os que protestam contra o sistema recebem destes um celestial escarro que dissolve de imediato a sua inscrição, obrigando-os a repetir o processo, com a agravante de penalizações que os fazem descer na classificação oficial. Mas no geral, o processo é bastante pacífico. Há toda uma eternidade para esperar e, por vezes, boas-novas, como os anjos arpoarem uma ou outra alma, levando-os para o Céu por terem sido repescados no rol de admissões.

Eixo do mal

De regresso do trabalho, a pé, decidiu demorar os passos e auscultar o coração da cidade. Andou ao acaso, parando numa ou noutra loja ainda aberta. Espiou um livro novo, cobiçou um fato e acabou por comprar um fato-de-treino, juntamente com um livrinho sobre o enfarte miocárdio (não sabia bem porquê, mas sempre sentira que morreria fulminado, ou esmagado por um meteoro). Quando estava quase a chegar a casa, deu de caras com um graffiti pouco usual: um poema de Cesariny que servia de anónimo memorial ao poeta. Gostou da ideia, Cesariny era-lhe caro. Só isso valeu o passeio, e teve como consequência voltar a sair do seu caminho de regresso. Foi admirar os graffitis da cidade, com a bonomia de um visitante de uma galeria de arte. Outro graffiti fê-lo deter-se, uma frase, evasiva: "Liberta-te! Os mortos não conhecem o peso da dor". Sentiu um sobressalto. Escrevera-a recentemente num caderno, que estava fechado na gaveta de uma escrivaninha. Lembrava-se de a ter escrito, era capaz de recriar mentalmente tudo o que o rodeava nesse dia, o que ouvia no rádio, a luz a entrar pela janela de sacada, tudo. Um pouco nervoso, inflectiu novamente para casa, meditando sobre a coincidência e a sincronicidade, mas o seu devaneio esmagou-se contra um novo graffiti, mais uma frase, um trocadilho: "Conhece-te a ti a esmo". Empalideceu, sentindo o sangue a correr mais depressa nas veias. Era sua, ou pensava que sim. Largou o saco com a roupa e o livro e correu para casa. Entrou no prédio e galgou as escadas. No apartamento, desabotoou a camisa, sentindo que estava à beira de um enfarte. Enquanto a respiração regularizava, abriu as janelas para entrar mais ar. O apartamento parecia sufocar, devido sobretudo ao cheiro da tinta. Havia sprays de tinta por tudo quanto era sítio, e retalhos de papel canelado no qual ensaiara estilos de letra e desenhos intrincados. Resgatou o seu caderno de notas, maculado por dedadas de tinta, e tentou relativizar as coisas. Alguém entrara ali, copiara alguns dos seus gatafunhos e divertira-se a pintá-los pela cidade fora. Só para o perturbar, sabendo como a sua saúde era débil. Tinha de ser alguém que o detestasse, que o queria morto. Podia ser muita gente, tantos que já nem se lembrava de metade deles. Mas tinha de ripostar de alguma forma. Mudaria as fechaduras do apartamento, e semearia pela cidade os seus graffitis, as frases intactas do seu caderno. Para ver se alguém se acusava.

Males

- Sabes que, ao ler a publicidade que me chega pelo correio, descobri que sofro de apneia obstrutiva das vias respiratórias?
- Isso é grave?
- Acho que não. Quando durmo, a minha respiração interrompe-se por momentos, para se reatar em seguida. Isso faz com que ande sempre muito cansado.
- Porquê? Provoca insónia?
- De certa forma...a minha mulher não se coíbe de bater palmas de cada vez que julga que deixei de respirar...

Peritagem

Entretinha-se a organizar o mostruário de moedas portuguesas, quando a mulher entrou na sua loja de uma forma um pouco invulgar, às arrecuas, com um volume longo escondido atrás das costas. Não havia ninguém na loja e parecia querer certificar-se de que ninguém a seguia. Fingiu estar curiosa nuns pratos de louça e numa estatueta de granito de uma santa, e de armário em armário foi rodando pela loja até se ver diante de si.
- Tenho uma coisa para lhe mostrar, porque queria saber a sua opinião - anunciou, colocando o volume em cima da mesa, despiu-o dos papéis que o envolviam e revelou uma espada comprida, carcomida pelo tempo - acabei de a comprar, disseram-me que foi deixada pelo D. Afonso Henriques quando andou por aqui à conquista, parece mesmo igual à da estátua dele em Guimarães, a primeira. Veja a inscrição na lâmina e diga-me se não fiz uma boa compra! Deve valer uma fortuna!
Examinou-a à luz do candeeiro com um monóculo de relojoeiro.
- A inscrição é credível, ou seja, a grafia: Alphonsus, como em Alphonsus Rex, como era nomeado nos documentos coevos.
- E foi dele?
- Ficaria admirado, trata-se de uma espada decorativa tratada com ácido. No punho, tem a mesma inscrição que o meu computador: Made in Taiwan.
Seguiu-se um longo e desolado silêncio.
- E acha que eu consigo vendê-la a alguém?

Blind Date 1

- Gostas do lugar que escolhi - perguntou-lhe ele num tom meloso.
- Sim, sem dúvida, a comida é excelente e a música de violino é...não sei, acho que nunca tinha ouvido antes, mas estou a gostar. Os empregados também são muito simpáticos, principalmente a rapariga, tem uma voz delicada, de quem se preocupa mesmo com o que os clientes desejam.
- Também estou a gostar, só poderia ser mais perfeito se os nossos cães-guia não rosnassem tanto um para o outro.

Blind Date 2

Estranhos, apresentaram-se na mesa do restaurante, ambos pre-dispostos para uma relação breve e intensa. Jantaram numa atmosfera artificialmente romântica, e ele segurou-lhe nas mãos enquanto esperavam pelas sobremesas. Sentiu que ela mirava os seus dedos.
-Tens uns dedos bonitos, mas as unhas...são muito pálidas e de aspecto doentio, sabes que pode ser das lacunas na tua alimentação...Oh! Desculpa! É o ónus do meu trabalho, trabalho num salão de beleza e estou sempre a reparar nestas coisas.
- Não tem problema, são ossos do ofício...
Não houve constrangimento nem anti-clímax. Saíram do restaurante, deram um giro por um ou dois bares e acabaram no apartamento dele, a ver um filme na cama. O ambiente proporcionou-se e fizeram sexo. Depois, ela deitou-se sobre o seu peito, para verem o resto do filme. Ele hesitou um pouco, mas acabou por falar
- Sabes...há pouco, antes de coisarmos, reparei num corrimento de cor estranha que tu tens...é como tu disseste, é o ónus do trabalho. Se quiseres, abres as pernas, que eu vou buscar uma lanterna e um bico-de-pato.

Pena

("Numa manhã muito fria, o menino de ouro elevou-se nos ares, chamavam-lhe o menino de ouro porque era o único herdeiro de uma das famílias mais ricas do norte. O menino de ouro levantou voo no seu balão e nunca mais foi visto, morto decerto nalgum alcantilado remoto, ou numa garganta sombria do Douro. Os pais nunca desistiram de o encontrar, enviaram gente e mais gente a procurá-lo. Passaram a pente fino vales e montanhas, chamando pelo seu nome, mas o menino de ouro nunca apareceu, e todos diziam que tinha subido ao céu no seu balão").

Pena que não possa, contar-me as histórias que me contaram com palavras simples, palavras que eram, em si mesmas, histórias, sugestões de histórias, musicalidade, paisagens oníricas. Podia enumerá-las, mas não narrá-las, como se me incumbissem de fazer o levantamento topográfico de um Olimpo despovoado, fotografar as ruínas dos palácios dos deuses e desenhar os motivos frios dos seus frescos abandonados.

("O meu avô viveu até à idade adulta sem saber que era adoptado, que fora largado em bebé na Roda do Porto. Sempre notara que as suas roupas e calçado eram melhores que as dos irmãos, mas desconhecia que elas eram deixadas à noite na porta de casa, pela mulher que o dera à luz. Foi só quando compareceu à inspecção militar que descobriu a verdade, e essa verdade marcou-o para o resto da vida. Por duas vezes ele sentiu que a sua mãe o observava de longe. De uma das vezes, junto à Foz do Douro, notou que uma senhora o contemplava na penumbra do interior de uma carruagem, e teve a certeza de que era ela, mas a carruagem afastou-se quando a tentou confrontar, correu quanto pode atrás dela, mas sem sucesso. Ele dizia-me com uma mágoa profunda que nunca perdoaria à mulher que o pôs no mundo, porque, se ela não o desejava ter, em vez de o largar na Roda, devia ter continuado a caminhar até o poder lançar às águas do rio").

Pena que não possa, contar-me as histórias que me contaram, histórias ouvidas que me ensinaram a procurar o que outras vozes contavam, a ler como se não houvesse mais ninguém além de mim e do narrador - como se as histórias se desenrolassem na quietude de uma sala, ou cá fora, na sombra do jardim, envoltas pelo sussurro das mangueiras frondosas e pelos sons dissipados de uma terra africana prostrada pelo calor.
Pena que a tua mão não tenha escrito essas muitas histórias, mas guardo a felicidade de as ter ouvido, e como era doce a tua voz, mãe!

Sshhhhhh!

Mandavam-no calar, sempre que a linguagem adquiria formas inconvenientes ou blasfesmas. Os pais, quando era pequeno, mas também os mestres, os chefes, os vizinhos, a polícia política, o jornaleiro, o pedinte, os irmãos e os filhos...Sshhhhh!...Dedo levantado trespassando os lábios com o seu silêncio. Começou a ganhar medo às palavras como se tem medo do escuro, fugia delas, refundia-as no seu íntimo como a um vento aprisionado. Quando morreu, foi triste e prolongado o seu último suspiro
...Sssssssssssssssshhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
- tantas eram as palavras que teve de soltar.

Compincha

Assim rezava o texto: "Jantar de reformados da empresa Solino. Traje informal, presença do gestor da firma, despesas comparticipadas pela empresa. Vinte e uma horas no átrio do restaurante Repasto". Depois de diversos sms's, mail's e cartas lacradas a reforçar o convite, decidiu-se finalmente a comparecer.
Procurou nos armários do W.C. alguns comprimidos para os nervos, não encontrando, tomou dois analgésicos para a dor de dentes, que fariam o mesmo efeito. Calmo, calmíssimo, lá entrou no tal átrio pré-repasto. Aperto de mão, beijoca, aperto de mão, duas beijocas. Um velha muito pintada, arranhou-lhe a face com um anel de pedrarias, no acto desastrado de lhe fazer uma festa. Entre salvadores e Judas, conseguiu um lugar na coxia da mesa, um sítio ideal para iniciar uma fuga. Começou o repasto, com as entradas e aperitivos, seguidos de diversos pratos de peixe e carne regados com vinho de vários tons, pelo meio, alguns discursos para enrolar a tripa e bloquear as artérias; alguém de nome Matos contou uma anedota, porque era seu costume contar anedotas; outro, aliás, uma senhora, lembrou os tempos saudosos em que era um elemento útil da sociedade, numa oratória fungante que acabou num pranto de carpideira. O gestor tomou a palavra para impor alguma serenidade, afirmou que o trabalho de todos fora a matéria nobre com que se moldara a empresa, anunciou que esta arcaria com a despesa dos cafés e avançou a proposta de tornar o evento num jantar anual das velhas glórias da firma Solino.
Quando se sentou novamente, no meio de um coro de aplausos, fixou-se nele.
- Não me lembro de si... você é muito novo. Foi pré-reforma?
- Não, pós-reforma - respondeu, engolindo em seco. Não sabendo se fora convincente, prosseguiu - eu não era para vir, mas não paravam de chover convites.
- Não seja acanhado, já todos fizemos isto alguma vez. A velha guarda está toda contente, e é isso que interessa. Depois das bebidas no final, vamos todos para a night. Aí, já posso descontrair-me um pouco e deixar de fingir que sou gestor.

Minguante nº 8

Andou a levedar por mais algum tempo, mas não é por isso que está menos leve - podemos levá-la para qualquer lado. O Minguante agora é uma revista trimestral, sob a égide do três, como o Levítico, o terceiro livro. E se mais razões fossem precisas, este Minguante tem como tema… a LEVEZA


Pão, por Deus!


(Mendigo, gravura de Rembrandt)

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...