Viagem

Firmou os pés contra a base do assento e preparou-se. Começou a mover-se, conseguia sentir que se movia, sozinho, no vagão da montanha-russa, uns poucos metros apenas, e despenhou-se, uma descida abrupta, em parafuso, acumulando energia, depois o cotovelo do final da descida e logo uma subida a pique, enquanto o coração parecia ter deixado de bater no nadir precedente. Terminada a subida, um desaceleramento, para respirar um pouco, e uma nova descida, um looping de cortar a respiração, coroado com uma série alternada de parafusos, durante a qual passava rente a outros vagões, que ressoavam perto, num efeito de storm. Tentou engolir golfadas de ar, e sentiu os lábios molhados, e a cabeça. Abriu os olhos. Nunca mais se despachavam. Estava preso á cadeira eléctrica, com os eléctrodos já ligados ao corpo. Um funcionário aspergia o seu corpo com um líquido próprio para acelerar a electrocução. Olhou em volta, sem emoção. Vou fechar os olhos, disse para si, não porque tenha medo, mas porque já não suporto mais olhar para as vossas caras, meus cabrões. Voltou á montanha-russa do seu devaneio, a cadeira eléctrica era o seu vagão, pensando só nisso, iniciou um novo looping, agarrando com força os braços da cadeira. O céu escurecera, nuvens plúmbeas de tempestade, carregadas de electricidade. Iniciou um troço coberto, mergulhando em espiral num túnel em total escuridão. Quando saiu á luz, percebeu que a tempestade eléctrica estava eminente. Ele bem a viu, a nuvem negra no topo da subida, passou por ela com a energia a zunir á sua volta e os pêlos dos braços eriçados. Cruzou-a sem sentir a descarga, depois, uma nova descida, suave, mas o vagão foi desacelerando, a electricidade da nuvem puxava-o de volta, e o vagão começou a subir em marcha-atrás. É agora, disse para si mesmo, enquanto os acumuladores de energia chiavam em volta. Recostou-se na cadeira eléctrica do vagão com um sorriso firme, e estreitou na mão direita a mão decepada de Sarah, a sua última vítima, a doce e esguia Sarah de longos cabelos fulvos. Sarah guiava-o para a morte com a mão fria, áspera do sangue seco sobre a pele.

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