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Um cão perdido

Às treze horas de Sábado, tocou a sirene e os operários da fábrica de tecelagem picaram alegremente o cartão, passando de fugida pelos balneários antes de mergulharem no almejado fim-de-semana. Havia de tudo nas suas mentes, os almoços de família, a pescaria para a manhã de Domingo, o jogo da Selecção, a amante, as promoções dos hipermercados, o Sol lá fora. Enquanto estavam longe, o destino trocou-lhes as voltas. O dono da fábrica entrou nela com uma caravana de camiões. Valendo-se do isolamento do lugar, teve o recolhimento e a tranquilidade para organizar tudo: carregaram as máquinas, devidamente embaladas, o resto da produção, a matéria-prima, os acessórios e equipamentos do escritório, carregaram até um pequeno televisor que ele tinha adquirido para o refeitório da rapaziada.
Na Segunda-Feira de manhã foi o cataclismo, noventa e duas pessoas ficaram aos portões da fábrica encerrada, lendo e relendo um pequeno cartaz onde o empresário lhes explicava que fora obrigado a fechar a fábrica devido a dívidas pendentes. As pessoas lamentavam-se choravam, alguns, desorientados, demandaram-no na sua casa, que encontraram igualmente vazia e fechada.
Chegaram os jornalistas das televisões, fizeram entrevistas, gravações, mais de meia hora de falas e prantos que seriam montadas para produzir uma peça de quatro minutos nos noticiários televisivos.
No meio da multidão e dos seus dramas, havia um operário particularmente inconsolável, o Alcobaça, como lhe chamavam. Alcobaça não era um operário como os outros, era o anti-operário, pouco trabalhava porque não era essa a sua função, a função para que fora treinado era agradar aos chefes e os patrões, comunicando-lhes tudo o que se falava de mau e de péssimo a seu respeito. Foram dezoito anos de um trabalho diligente e maquiavélico. Alcobaça, o intriguista e milandeiro, tirando nabos da púcara aos seus camaradas para os servir aos poderosos, já recheados de veneno e fel, Alcobaça, o dissimulado, o imaginativo, inventando conspirações e calúnias que derrubavam quem lhe fizesse sombra ou lhe descobrisse a máscara. Agora, Alcobaça era um ser digno de dó, sentia-se um órfão, um excomungado á porta do templo, um exilado admirando a sua pátria da popa de um navio.
Devido ao seu ar desesperado, Alcobaça foi abordado por uma jornalista. Queria saber dos seus dramas, da sua história. Alcobaça não se conteve e começou a chorar baba e ranho. Ele sabia que não merecia ter ficado para trás, se tinham levado o recheio da fábrica para outra empresa ou país, ele podia ter ajudado como um cúmplice feliz, não era justo. Mas não foi isso que falou para as câmaras: se fecharam a fábrica, lá tinham as suas razões, ele não sabia de nada, mas não era verdade que ele tinha levado todas as máquinas: porque havia sido forçado a agir assim, o patrão tinha deixado junto á casa do segurança, a máquina do café e a máquina das águas, para lhes demonstrar a sua simpatia.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...