Ponto de honra

Na estação de comboios semi-deserta, a criança cigana aproximou-se de um homem na sala de espera, estendendo-lhe a mão aberta. Ele arregalou os olhos. Não dou esmola, nunca dou esmola, explicou pacientemente, e não é porque não tenha dinheiro ou não seja um homem generoso, mas apenas por opção filosófica. É o Estado e as suas instituições, que tem o dever de sanar a fome e as injustiças sociais, de dar uma solução a todos os dramas e problemas que afligem as pessoas enquanto súbditos do poder instituído. Eu sou apenas um cidadão comum, consciente e responsável, e por isso digo e repito: se precisa de ajuda, recorra às instituições oficiais, é para isso que elas existem. Ainda as suas palavras não se tinham dissipado nos ângulos bolorentos da sala de espera, e irromperam na divisão dois enfermeiros de bata branca que o agarraram com determinação, enfiando-o dentro de uma camisa-de-forças. Enquanto era arrastado para a saída, concluiu a sua dissertação: "E nunca se esqueça disto: há instituições para tudo".

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