Perfeitos estranhos

Puxou de um papel e sentou-se à secretária. Limpou o vidro da janela como se limpasse o ecrã de uma televisão. A ver o que dava. Esperou, vazio e cheio de si mesmo. Lembrou-se de registar o que via. Os telhados mais próximos, já arqueados pela velhice, com algumas manchas esbranquiçadas dos líquenes. Uma fiada de casas na banda esquerda. Diante de si, para lá da cumeada de telhas, um pomar disperso, a que se sucedia um terreno ondulado, não muito verde, com algumas casas solitárias. Nada de invulgar. Ah! Havia também a linha arroxeada de colinas no horizonte que morria no promontório de Santa Ana, um dos braços que fecham a concha de S. Martinho do Porto. Da enseada e do mar, não distinguia quase nada, uma fusão opalescente de água e neblina. Deixou o mar e regressou ao resto da paisagem. Do resto, não tinha nada para minuciar, a não ser a coroa ondulante de duas palmeiras que se erguiam por entre o casario. Mais...mais...as pombas no pomar, e os latidos dos cães, distinguia três, dois episódicos, fracos, de cão pequeno, talvez rafeiro, e um ladrar insistente de cão de barba-rija, quase de certeza um pastor-alemão. Ia desistir da sua vigília entediada, quando viu o Afonso, que saía da sua casa no meio dos campos e tomava o caminho de gravilha para a estrada de alcatrão, a calva reluzindo ao sol. Trazia uma mala grande numa das mãos e o casaco dobrado sobre o outro braço. Devia ir a pé para a cidade, talvez para apanhar o Expresso para a terra da família, ainda eram uns três quilómetros até lá sob um calor tardio e enfermiço de Outono. Há mais de vinte anos que conhecia o Afonso de vista, conhecia-o pelo nome, e isto porque um dia ele o ajudara quando mudava o pneu do carro. No resto do tempo, cruzara-se com ele na rua ou no café, com um Bom Dia! Como vai? / Bem, obrigado, e o senhor? E um Então até logo! na despedida, quando nenhum dos dois fazia intenção de se encontrar nos dias e anos mais próximos. Ele e o Afonso eram como as pombas e as árvores daquele pomar, uma presença e um esvoaçar para nunca mais se verem. Se o Afonso ou ele próprio morressem, o outro nem daria por isso. Essa ideia tomou-o de assalto, e entristeceu-o. Parecia tudo tão definitivo, condenado à dissolução.
Levantou-se da cadeira, trocou num ápice o pijama por um fato-de-treino e muniu-se dos seus documentos e chaves antes de entrar no carro. As coisas não tinham de ser assim, pensou, enquanto saía para a estrada no encalço do vizinho. Encontrou-o no fim da serventia que ele tomara para chegar ao alcatrão. Tinha-se detido na berma da estrada a tossir a cigarreira. Ofereceu-lhe boleia. Também ia para a cidade, explicou-lhe. O vizinho agradeceu, colocou a mala no assento de trás, e instalou-se no pendura.
- Vai à terra? - Perguntou - Ou, se calhar, vai a Lisboa.
- Para a terra...de vez. Com sessenta anos, vou-me instalar na casa que foi dos meus pais.
- Não me diga!
- É verdade. Tenho um irmão gémeo, que me veio visitar, e vai ficar por uns tempos na minha casa, vamos, por assim dizer, trocar de papéis. Eu vou para a terra, morar onde ele morava. Ele é como eu, celibatário e pouco amigo de companhias, principalmente agora.
Apercebeu-se que o Afonso podia estar a colocar um travão às suas perguntas, e fez o resto do percurso em silêncio. Na cidade, deixou-o ao pé da garagem. O Afonso ofereceu-lhe um café, e ele aceitou, ainda inseguro do terreno que pisava. Instalaram-se numa das mesas do café dos Claras, o Afonso com o rosto erguido a admirar a figura esverdeada de um centauro numa parede. Talvez pensasse que já a vira muitas vezes, mas nunca como naquele momento. Era uma situação bizarra, sentira o impulso de deixar de ser um completo estranho para um vizinho que lhe anuncia que vai partir de vez.
- Posso pedir-lhe um favor? - Diz o Afonso, com um ar grave.
- Com certeza - garantiu-lhe - tudo o que estiver ao meu alcance, será feito...
- Não preciso que me cuide de nenhum canário - fez uma pausa, como se o preparasse para o que se seguiria - preciso que deite fogo à minha casa.
Deveria ter feito um ar muito siderado. O Afonso pormenorizou:
- Nas traseiras da minha casa, há um anexo em madeira com toros para a lareira e ramos de eucalipto. Junto à porta, deve lá andar uma lata de diluente. Só precisa de derramar o diluente e deitar-lhe um fósforo. Em minutos, aquilo transforma-se numa tocha e pode ligar aos bombeiros para o fogo não alastrar pelos campos.
- Você falou de um irmão...
- O meu irmão gémeo. Faleceu ontem à noite, uma infelicidade. Está lá, deitado num sofá, vestido com um pijama meu, com o meu relógio no pulso.
- Os meus sentimentos!
- Obrigado!
Ficaram os dois em silêncio. Beberam os cafés, ouvindo os anúncios de partidas e chegadas nos altifalantes.
- Diga-me porquê!
Fez uma pausa, escolhendo cuidadosamente as palavras como se limpasse o arroz.
- Há umas coisas no meu passado, uns crimes de sangue. Pensei que já estivessem esquecidos, mas chegaram até mim. A Pê-Jota já me interrogou, mas ainda não têm provas que cheguem. Quando o meu irmão se lembrou de morrer na minha sala, pensei que seria uma altura oportuna para desaparecer. Não creio que chamem o C.S.I. ou que façam exames à dentadura. Se você concordar em deitar fogo ao estaminé, irão pensar nalgum ajuste de contas, caso contrário, alguém, anónimo, ligará para a polícia porque o Afonso não aparece ao trabalho há vários dias.
Estendeu-lhe a mão.
- Será feito! - Garantiu - Juro-lhe pela minha saúde!
O outro apertou-lha com vigor. Pagou os cafés e despediram-se cá fora como velhos amigos. Viu-o entrar no Expresso e acenou quando a viatura saiu da garagem. Sentia-se exultante. O Afonso já não era um estranho, os dois estavam unidos por um pacto de sangue que duraria mais do que muitos laços de amizade que os homens julgam eternos.

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