Pensar pequeno

Depois de muito namorar os bonsais que via nas floristas e nas lojas de decoração, comprou finalmente um, e levou-o para casa com mil cuidados, mais um guia de bonsais, e uma lista de contactos para emergências e necessidades bonsaístas. O seu bonsai ficou em lugar de destaque na sala, num lugar escolhido segundo os princípios do Feng-Shui. Seguiu todas as instruções sobre a água, a luz, o corte das folhas por uma especialista, e telefonava sempre que via uma mancha que podia ser uma praga, ou uma coloração mais triste num ramo que poderia ser sinal de enfraquecimento da planta.
De tanto contemplar a pequena árvore, descobriu que ela dera um fruto, uma maçã em miniatura. Fora numa manhã de Outono, enquanto se vestia para ir para o trabalho. Extasiada com o prodígio, ajoelhou-se diante do bonsai para o ver melhor, e admirou uma ofídica minhoca que se enrolara no ramo do pequeno fruto e agitava o corpo como se quisesse atrair a sua atenção. Com duas unhas compridas e pintadas de rosa, colheu a pequena maçã e depositou-a na língua como se fosse uma pevide. Sem se atrever a provar o sabor, engoliu-a, e ála para o trabalho!
No Metro, a caminho do emprego, Eva pensou nas ressonâncias bíblicas do acto. O bonsai não era, decerto, a Árvore do Conhecimento, mas o facto é que, nunca como naquela manhã, lhe pareceram tão fáceis os problemas de Sudoku.

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