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O rato roeu a rolha

Momento 1
As planícies são para os eleitos e os bem-aventurados, as serras são para os que têm coragem e pulso para viver nelas. Quem conhece a Serra de Aire e Candeeiros, sabe como é difícil viver nela nos meses quentes de Verão, quando o Sol aquece as partículas de poeira no ar e os rochedos que marcam a paisagem como ossadas. Quando se lembrou de ir para a Serra fazer um piquenique com a família, Marcos desesperava de não encontrar uma sombra que parecesse convidativa, para pararem um pouco, saírem do carro transformado em fornalha e comer qualquer coisa. O tempo passava, com as crianças transtornadas a terem birras titânicas no banco traseiro e, no meio daquele quase-desespero, lembrou-se de Alcobertas, lá no alto, havia um parque de merendas em Alcobertas, tinha sombra e um Olho-de-Água, uma nascente agradável que visitara em tempo de Invernia. Conseguiu chegar ao parque de merendas antes que o metal da carroçaria derretesse sobre eles. Instalaram-se numa mesa à fresca, e comeram deliciados a comida trazida de casa. Com o estômago saciado, Marcos quis levar os miúdos a ver a nascente ao pé, mas não encontrou nenhum entusiasmo, o mais velho agarrou-se logo ao jogo portátil, enquanto o mais pequeno dormitava no regaço da mãe. Foi até à beira da água. De Verão não era tão bonito. Estava por ali a olhar distraído o borbulhar da nascente, quando reparou num detalhe menos turístico: na parte do pequeno reservatório do lado da capela, duas ratazanas enormes como coelhos pareciam brincar junto a um amontoado de canas cortadas. Mediu distâncias, cinco metros entre elas e as crianças, mas também não podia dizer à mulher, ela ia ter um ataque de nervos, e iriam seguir-se as reprimendas até casa: só eu para ir atrás das tuas ideias, tiras a mim e às crianças da cidade para vir para este lugar que é um inferno, e ainda por cima com ratos perigosos e outros bichos...Tinha de ser diplomata. Que tal irmos, amor? Perguntou finalmente. Agora não, respondeu-lhe a mulher, ainda está muito calor, e o Marquinhos adormeceu, mais uma horita ou duas e vamos. Uma horita ou duas, de nervos e sentinela. Não quis jogar ao Uno, nem conversar, nem nada. Postou-se entre a água e a sua família, admirando com um falso interesse o relevo da Serra e atirando de tempos a tempos uma pedra para o território das ratazanas. Que fazes? perguntava a mulher. Estou a ver se passa o tempo, respondia, sem convicção.
Momento 2
A ama esperou pelo namorado no resguardo de sombra do parque de merendas, o bebé dormia no carrinho junto à mesa de madeira. Estava inquieta. Ele tinha dito para não se ir embora sem se verem, mas o tempo estava a passar e tinha de regressar à casa dos patrões. Finalmente, ouviu o trabalhar característico do tractor que descia a estrada de terra batida ao lado da capela. Ele deixou-o ao lado do templo e foi ter com ela, olhando para um lado e para o outro, com as precauções rotineiras de um adúltero experiente. Beijaram-se e ele apontou a plantação de milho ao lado do parque. Tinham tempo para uma rapidinha.
«E o bebé? Não posso deixá-lo aqui sozinho!
«Não está cá ninguém e, com este calor, só gente doida é que sai de casa. Anda. Nós ouvimo-lo!
Pularam por cima do pequeno canal de água e adentraram-se no milheiral. Deitaram-se na terra e ele despiu-a sumariamente da cintura para baixo, quase rasgando a porcaria da saia ao tirá-la, esboçaram umas carícias vagas, enquanto ele se encaixava entre as suas pernas. O bebé começou a chorar, muito, um continuado choro de dor. A ama tentava endireitar o torso para o espreitar enquanto o namorado a penetrava com energia.
«Ele chora muito...não sei...
«Deixa-o lá - rosnava ele - deve ser dentes».

4 comentários:

  1. Entre extremos as variações são múltiplas. É assim com as ideias também.Já não há ideias originais há apenas formas diferentes de as trabalhar e isso já depende do background de cada um. So, trabalhem-se ideias, apure-se a forma que é isso que vende.

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  2. José Lopes21:49:00

    É como um teatro de sombras - o que é que produz as formas? as nossas mãos? a luz que incide sobre elas? Meditamos ociosamente sobre isso no nosso orgulho de sombras animadas

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  3. maria.c19:44:00

    E o que nos resta senão o nosso orgulho e o prazer da moldagem de figuras? A ociosidade pode ser produtiva e essencial se nos proporcionar prazer.

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  4. José Lopes15:28:00

    Completamente de acordo...como a ociosidade bizantina: "Gabriel era um anjo ou um arcanjo?...qual era o sexo dos anjos?...Quem são aqueles invasores que estão a degolar os nossos criados?" ;-)

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Rainha

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