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O mundo de Tlön, segundo Borges

« (...) O anterior refere-se aos idiomas do hemisfério austral [de Tlön]. Nos do hemisfério boreal (de cuja Ursprache há pouquíssimos dados no Tomo Onze) a célula primordial não é o verbo, mas o adjectivo monossilábico. O substantivo forma-se por acumulação de adjectivos. Não se diz lua: diz-se aéreo-claro sobre escuro-redondo ou celeste alaranjado-ténue ou qualquer outra combinação. No caso que escolhi a massa de adjectivos corresponde a um objecto real; o facto é puramente fortuito. Na literatura deste hemisfério (tal como no mundo subsistente de Meinong) abundam os objectos ideais, convocados ou dissolvidos num momento, conforme as necessidades poéticas. Determina-os, às vezes, a mera simultaneidade. Há objectos compostos de dois termos, um de carácter visual e outro auditivo: a cor do nascente e o remoto grito de uma ave. Há-os de muitos termos: o sol e a água contra o peito do nadador, o vago rosa trémulo que se vê com os olhos fechados, a sensação de quem se deixa levar por um rio e também pelo sonho. Estes objectos de segundo grau podem combinar-se com outros; o processo, por meio de certas abreviaturas, é praticamente infinito. Há poemas famosos compostos de uma única enorme palavra. Esta palavra integra um objecto poético criado pelo autor. O facto de ninguém acreditar na realidade dos adjectivos, paradoxalmente, faz com que seja interminável o seu número.
« (...) Os metafísicos de Tlön não procuram a verdade, nem sequer a verosimilhança: procuram o assombro. Julgam que a metafísica é um ramo da literatura fantástica. Sabem que um sistema não é outra coisa senão a subordinação de todos os aspectos do universo a um qualquer deles. Até a frase "todos os aspectos" é inaceitável, porque pressupõe outra operação impossível...Uma das escolas de Tlön chega a negar o tempo: raciocina que o presente é indefinido, que o futuro não tem realidade senão como esperança presente, e que o passado não tem realidade senão como recordação presente. Outra escola declara que já decorreu todo o tempo e que a nossa vida é apenas a lembrança ou reflexo crepuscular, e sem dúvida falseado ou mutilado, de um processo irrecuperável. Outra, que a história do universo - e nela as nossas vidas e o pormenor mais ténue das nossas vidas - é a escrita que produz um deus subalterno para se entender com um demónio. Outra, que o universo é comparável a essas criptografias em que não valem senão os símbolos e que só é verdade o que sucede de trezentas em trezentas noites. Outra, que enquanto dormimos aqui, estamos acordados noutro lado e que assim cada homem é dois homens.
« (...) Nos hábitos literários também é omnipotente a ideia de um sujeito único. É raro que os livros sejam assinados. Não existe o conceito de plágio: estabeleceu-se que todas as obras são obra de um só autor, que é intemporal e anónimo. A crítica costuma inventar autores: escolhe duas obras dissemelhantes - o Tao Te King e as 1001 Noites, digamos - atribui-as a um mesmo escritor e a seguir determina com probidade a psicologia desse interessante homme de lettres...Também são diferentes os livros. Os de ficção abrangem um só assunto, com todas as permutações imagináveis. Os de natureza filosófica invariavelmente contêm a tese e a antítese, os rigorosos prós e contras de uma doutrina. Um livro que não contenha o seu contralivro é considerado incompleto.
« (...) As coisas duplicam-se em Tlön; propendem igualmente para se apagarem e para perderem os pormenores quando as esquecem as pessoas. É clássico o exemplo de uma ombreira que perdurou enquanto a frequentava um mendigo e que se perdeu de vista à sua morte. Às vezes uns pássaros, ou um cavalo, já salvaram as ruínas de um anfiteatro»


Jorge Luis Borges, "Ficções", I, 2

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