INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Ferro-Velho

Chegou-se á frente quando ela lhe segurou pela mão como a um neófito, entraram no bar, o balcão iluminado, o empregado que a conhecia, mais duas ou três aves penduradas nos bancos como falcões desasados, todos conhecidos dela, beijo para aqui e para acolá, os seus lábios rubros abertos num largo sorriso, tudo cheio, e cheio de fumo, ela apontou-lhe uma mesa a um canto, a única vazia, rumaram até ela, não sem ela semear pelo caminho uns quantos beijos e sorrisos de ninfa, sentaram-se na mesa, desprezada devido a um altifalante gigantesco suspenso sobre eles, os seus dedos brincavam com o cinzeiro de louça, estranhos pousavam nos lugares vazios da mesa para falarem com ela e logo se anonimizavam outra vez na confusão enevoada, reparou que o sinal dela junto ao lábio parecia ter uma coloração diferente sob aquela luz. Ela pediu uma bebida, e ele gritou que queria o mesmo que ela. As bebidas chegaram ao mesmo tempo que os decibéis ensurdecedores de um solo de guitarra, mirou-a, cheirou, provou a bebida sem a fazer dançar no ouvido, mas não conseguiu identificá-la. A sua amiga bebericava-a ao de leve, como um cisne aflorando a água com o seu bico. Mulheres! Bebeu-a de enfiada - Biiaacc! - Ouviu-a rir-se das suas caretas. Pediu outra, que emborcou em desafio, outra, e outra ainda. Os olhos dela luziam, divertidos. Chegou-se ao pé dele, roçando os lábios pela sua face. "Bebe com calma" - avisou - "O absinto não é para qualquer um". Absinto!! Encolheu os ombros, como um bebedor experimentado: "Só o primeiro é que me faz efeito, os outros são só cócegas". Ia pedir outro, mas ela susteve o seu gesto. "Isto hoje está uma merda. Vamos até à Dreamer's?". Aceitou a sugestão, e levantou-se da cadeira. Nesse instante, toda a sala pareceu levantar-se com ele, as pessoas, as mesas, as paredes. Ficou em pé, estarrecido, sentiu-a abraçar-se a ele e ajudá-lo no caminho para a saída, os pés a pisar nuvens ou algodão. Esbarrou em pessoas e mesas, e quando ela o largou ao pé do balcão para pagar a despesa, teve de se sentar um pouco no chão, porque os músculos das pernas tinham derretido. Ela ajudou-o novamente e conseguiram alcançar o exterior. Sentou-se no passeio, e começou a chorar convulsivamente, entre lamentos sobre a sua desgraça: os estudos que não teve, os amores que não aconteceram, os lugares onde nunca tinha ido. Chorava em crescendo, como numa birra de criança. Ela abraçou-o docemente, e fazendo-o encará-la, disse-lhe: "Tu és a pessoa mais patética com quem já andei, mas isso não me chateia nada!". Ele enxugou as lágrimas e confessou: "Isso foi a coisa mais bela que alguém já me disse, aliás, acho que foi a única coisa bonita que me disseram". E recomeçou a chorar, uma criança grande junto à sua mãe improvisada, confiando mágoas ao discreto alcatrão.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...