credo

O advogado perfilou-se por um momento, quando a anciã foi introduzida no seu gabinete. Cumprimentou-a com deferência e ofereceu-lhe uma cadeira diante da secretária. Sentaram-se os dois e ele estudou-a veladamente enquanto ela tentava habituar a vista à penumbra da sala. Apesar da idade, possuía um rosto de traços finos e delicados, com uns olhos grandes de pupilas negras e brilhantes. Deveria ter sido deslumbrante na sua juventude.
- Minha senhora - principiou - a sua presença aqui deve-se a uma disposição testamentária que eu fui incumbido de executar. O meu extinto cliente conheceu-a há muitos anos atrás e eu preciso saber se guarda disso alguma memória. O seu nome era Bernardo Rodrigues.
O rosto da anciã crispou-se. Os seus olhos desviaram-se para o chão, e assim permaneceram, como se toda a sua atenção estivesse concentrada nalgum ponto do mosaico.
- Sinto muito se essa má notícia a perturbou mas um dos itens deste apenso testamentário estabelece como condição que a senhora confirme que se recorda da existência do falecido. Com grande pesar, sinto-me forçado a insistir.
Ela ergueu os olhos e fitou-o. Aos poucos foi readquirindo a expressão serena e altiva que envergava quando entrou.
- O senhor Rodrigues não me era nada - atalhou - era um triste e um desgraçado. Só desejava nunca o ter conhecido.
O advogado pareceu ficar desapontado. Retirou algumas folhas manuscritas de uma pasta e agitou-as no ar como se exibisse uma prova numa sala de audiências.
- O meu cliente tinha uma opinião diferente e deixou apenso ao testamento uma evocação pormenorizada dos tempos em que vocês os dois estiveram comprometidos. Eu poderia ler-lhe o que estas folhas contêm mas, além de advogado de Bernardo Rodrigues, fui seu amigo pessoal durante muitos anos e é em nome dessa amizade que eu lhe peço, como um favor inestimável, que seja a senhora a narrar-me uma história que eu já conheço pelas palavras dele.
Ela manteve-se calada durante algum tempo, como se medisse a conveniência das palavras. A luz que se filtrava por entre os cortinados suavizara-lhe as feições. A voz tremia-lhe quando começou a falar.
- Repito o que já lhe disse. O senhor Rodrigues não me era nada! Nunca estivemos comprometidos, nem tivemos qualquer tipo de ligação que se assemelhe. Mas suponho que ele tenha narrado ou grafado uma versão muito diferente...
- Como lhe dizia, éramos amigos, convivíamos regularmente, e posso afirmar, com alguma segurança, que o conhecia bem. Sempre tive dele a impressão de um homem sereno e bom, algo triste, mas muito humano. O que ele me disse e repetiu, é que vocês dois chegaram a ficar noivos, e que a senhora acabou por se casar com outra pessoa, movida pelo interesse. Admito que isso possa ter sido uma afirmação feita por despeito ou ciúme, mas era essa a sua versão.
- Até que ponto o conhecia?
- Como a um irmão ou um camarada de armas. Frequentamos o mesmo clube durante anos a fio, onde jogávamos dominó e snooker, e fomos amigos pessoais, veio diversas vezes jantar a minha casa e foi professor de piano da minha mulher e, anos mais tarde, da minha filha. Devido a essas circunstâncias, não consigo deixar de ser um pouco parcial neste caso específico, motivo pelo qual me penitencio e pedia-lhe que me revelasse a sua própria versão dos acontecimentos.
- O seu cliente, e note que me custa mesmo a pronunciar o seu nome, vivia na mesma terra que eu, e quase fomos criados juntos, a escola, os amigos, as ócios simples de uma aldeia do interior. Nem amigos éramos, apenas conhecidos. As coisas mudaram quando comecei a andar com aquele que seria o meu marido. Esse homem, que você definiu como humano e bom, começou a perseguir-me. Meteu na cabeça que eu era a mulher da vida dele e transformou isso numa obsessão - queria à viva força que eu fugisse com ele, que nos casássemos. Quando eu tentei explicar-lhe que isso era inconcebível, seguiram-se as cenas de ciúme, as ameaças, o sangue de galinha pintado nos muros da minha casa.
- E a senhora não encorajou, mesmo inadvertidamente, essa paixão do Rodrigues?
- Nunca, juro por tudo o que há de mais sagrado. Esse homem era louco. Casei-me e fui viver para a capital, mas mesmo aí me chegavam cartas dele, e tentativas de me convencer, por telefone, que eu devia reparar um erro grave e refazer com ele a minha vida.
- E não tentou recorrer á polícia?
- Achei que não daria em nada, não havia crime nem ofensas corporais e, naquele tempo, ninguém accionava uma ordem de restrição. Anos mais tarde, apareceu-me lá o seu amigo e tentou persuadir-me a ir embora com ele, começou muito bem a argumentar e aí alimentei a esperança de que lhe conseguiria demonstrar como o seu comportamento era absurdo, mas depressa vieram os gritos e as ameaças, finalmente, agarrou pelo pescoço o meu filho de sete anos e ameaçou que o matava ali mesmo se eu não mudasse de ideias.
-E...?
-Tinham acorrido muitos vizinhos ao apartamento e, entre gritos e insultos de pessoas amigas, ele amedrontou-se, largou o meu filho e fugiu. O senhor não me conhece mas eu posso afiançar-lhe isto: eu daria a vida pelos meus filhos, eles são o que há de mais importante na vida, e aquele acto fez-me repensar as prioridades. Eu e o meu marido emigramos então, e lá por fora temos vivido até aos dias de hoje, quase como expatriados. Exigimos aos nossos familiares segredo absoluto sobre o nosso paradeiro, mas ainda assim, mantivemos o íntimo receio de que ele nos encontrasse.
- E nunca mais soube nada dele ?
- Falava-se coisas. Vim a saber que ele se tinha casado e tive a esperança de que o pesadelo tivesse terminado, mas os meus pais escreveram-me a contar que ele tinha voltado á aldeia, e andara a inquirir a este e aquele se sabiam de mim, porque tinha ficado com umas coisas minhas que queria devolver.
O advogado voltou a guardar as folhas amarelecidas. Tinham sido elas que o haviam persuadido a aceitar o estranho pedido do seu amigo, ainda que a narrativa que ouvira não fizesse justiça ao que ele escrevera e narrara. Com um suspiro de fadiga contornou a secretária e dirigiu-se a uma das paredes do gabinete. Pôs a descoberto um cofre por detrás de um quadro com uma natureza morta e abriu-o, retirando do seu interior um objecto envolto num saco de plástico.
- O Rodrigues parece nunca ter realmente recuperado de a ter perdido. Casou-se duas vezes e passou a vida a errar de ocupação em ocupação e, para o fim, doente mas ainda relativamente novo, confinou-se numa Casa de Repouso, onde permaneceu até à morte. Os poucos bens que o senhor Rodrigues conseguiu reunir foram destinados ao dote para a Casa de Repouso e a herança de que fez beneficiárias as suas duas ex-mulheres. O mesmo testamento contém um apenso de que resulta a existência deste objecto que deve ser confiado à senhora - enquanto falava, tirou do saco a miniatura de uma arca em jaspe com aplicações em prata - Talvez este objecto lhe seja familiar, o Bernardo Rodrigues dizia que lhe tinha oferecido ou tentado oferecer, mas que a senhora recusara por já estar comprometida com um homem endinheirado. Esta arca contém as cinzas do coração do senhor Rodrigues".
Ela deu um salto, apoiando-se com força ao encosto da cadeira e só então o advogado se deu conta da sua brusquidão. Arrependido, ofereceu-lhe um copo de água e fez uma pausa, para permitir que ela se refizesse do choque.
- A senhora está neste país temporariamente e acedeu a vir a esta entrevista sem conhecer o seu verdadeiro teor, atitude pela qual lhe estou profundamente grato. O testamento do falecido confere-lhe a posse deste objecto, mas isso continua a ser uma decisão sua que eu respeitarei inteiramente. O senhor Rodrigues deixou indicações meticulosas para que o seu coração fosse extraído do seu cadáver, cremado e as suas cinzas depositadas nesta arquinha. Porque era sua vontade expressa que fosse entregue à senhora, o coração que sempre lhe pertenceu. Isto era, para ele, uma questão de justiça.
Ela respirou fundo, erguendo-se da cadeira com gestos firmes. Com o braço afastou de si a arca, fazendo-a deslizar sobre o tampo de vidro da secretária.
- Eu não o quero, não quero a arca, nem as cinzas. Deite as cinzas á terra da sua horta, se a tiver, dizem que a cinza é boa para os legumes, e, quanto á arca, talvez lhe sirva para guardar clipes, ou charutos. Um bom dia para si, doutor.
Ele pronunciou entre dentes uma despedida em resposta. Fechou a porta do gabinete e contemplou a pequena arca sobre a mesa.
- Já me tinhas avisado, velho amigo - murmurou - ela não passa de uma cabra mentirosa!

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