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A mostrar mensagens de Outubro, 2007

Canto Nahuatl

Eu, por minha parte, digo: Como a efémera flor desabrochamos sobre a terra: Para secar-nos um dia, amigos.

- Que desapareça toda amargura, Todo sinal de angústia!

Mas de que modo comer E como haveremos de festejar?

Nossos cantos são engendrados Lá onde nascem nossos tambores. Sofro sobre a terra. Lá onde eles vivem se há de tecer a amizade, A sociedade dos poetas, em meio aos tambores.

Por acaso eu verei de novo a luz do sol E poderei entoar novamente o meu canto? Sozinho aqui, todos ausentes já, Um dia eu também serei oferecido À névoa e às sombras.

Escutemos o nosso coração: É nossa casa esta terra? Ou vivemos apenas em meio à miséria e à angústia?

Por isso, solitário, eu vou cantando e implorando: Como flor me esparzirão em sementes de novo? Como o grão de milho me enterrarão, Ou brotarão meus pais, e eu deles, Espiga de espigas sobre a terra?

Por isso eu choro. Não há ninguém aí, Deixaram-nos órfãos sobre a terra. (reproduzido aqui)

Romagem

Religioso Se a vida me bastasse, não esperava por outra. Escrevinhador Se a vida me bastasse, não dava vida às palavras. Espírita Se a vida me bastasse, não ligava o receptor. Blogger deprimido Se a vida me bastasse, não vivia ansioso por comentários. Navegador solitário Se a vida me bastasse, não tinham em alto-som o alerta de mails. Pessoa Se a vida me bastasse, não tinha de inventar outros gajos. Pessoas Se a vida me bastasse, não tinha de plagiar tanta gente. Masturbatório Se a vida me bastasse, não tinha de agitar o bastão. Budista Se a vida me bastasse, atingia o Nirvana ou, na falta, a caçadeira do Kurt. Morto Se a vida me bastasse, não voltava no Dia de Finados.

Passarada

Noite de Allô Winn

Perfeitos estranhos

Puxou de um papel e sentou-se à secretária. Limpou o vidro da janela como se limpasse o ecrã de uma televisão. A ver o que dava. Esperou, vazio e cheio de si mesmo. Lembrou-se de registar o que via. Os telhados mais próximos, já arqueados pela velhice, com algumas manchas esbranquiçadas dos líquenes. Uma fiada de casas na banda esquerda. Diante de si, para lá da cumeada de telhas, um pomar disperso, a que se sucedia um terreno ondulado, não muito verde, com algumas casas solitárias. Nada de invulgar. Ah! Havia também a linha arroxeada de colinas no horizonte que morria no promontório de Santa Ana, um dos braços que fecham a concha de S. Martinho do Porto. Da enseada e do mar, não distinguia quase nada, uma fusão opalescente de água e neblina. Deixou o mar e regressou ao resto da paisagem. Do resto, não tinha nada para minuciar, a não ser a coroa ondulante de duas palmeiras que se erguiam por entre o casario. Mais...mais...as pombas no pomar, e os latidos dos cães, distinguia três, doi…

Máscara

Sem receio, cedo ao impulso, abro a porta de casa, fechada à chave, a porta interior da cozinha, à chave fechada. Sobre o balcão, um cofre, rodo o disco com a chave - 3 direita, 14 esquerda, novamente para a direita, sete, e para acabar, 666 cliques para a esquerda - ouço um estalido, um suspiro metálico de mecanismo que cede, olho em redor, ninguém me viu nem ouviu. Para me certificar, levanto o telefone, à escuta de estalidos suspeitos, mas não ouvi nada de suspeito. Mais descansado, volto à cozinha, ao cofre esfíngico, abro a sua porta trans-dimensional, um vórtex luminoso encadeia-me a vista por instantes, protejo os olhos com uma mão e desligo o interruptor de efeitos especiais, e o ventre do cofre revela-me o seu segredo: uma enorme barra de chocolate que me faz crescer água na boca. Não por muito tempo, devoro o chocolate tão depressa que me escorre um fio castanho-escuro nos cantos da boca. Limpo-a, limpo as mãos, e volto a fechar o cofre. Não há vestígios! Ou haverá? Passo as…

Fénix

Quando Félix de Andrada (o apelido não era o original), irrompeu no cenário cultural português, quase nada se sabia dele. Fizera fortuna em França, e em tal grau que lhe permitiu tornar-se um mecenas e patrono das artes. Os maledicentes afirmavam que a sua fortuna tinha por origem a agiotagem e o tráfico de droga, os mais acomodados, propagavam a lenda áurea que fazia dele um membro da antiga aristocracia nacional, um sempre-rico que passara uns anos em França para enriquecer a sua colecção de arte. A verdade, ignorada, sobre Félix de Andrada, é que a origem da sua fortuna fora um roubo audacioso - subira à força de braços, pelos cabos de aço de um ascensor avariado, para chegar ao Penthouse de um Hotel, e roubar a fortuna em jóias guardada nos aposentos de um barão da droga. Essas jóias quase não tinham protecção (excesso de confiança do seu proprietário), e enquanto a polícia e inquiridores privados se debatiam com um crime que continuaria sem solução, Félix instalava-se em França, l…

(Isilda)

Sempre que surgia
tornava irreal
a geometria dos sólidos

Suspendendo o peso
físico das coisas

Aprendi como eram irreais os seus cabelos, a
delícia táctil e quase
mística da sua face

provei dos seus lábios e
renasci,
semente criada para germinar

doce adolescência de sardas

Moral e bons-costumes

Do meu parco e profano conhecimento do comércio de antiguidades, um dos objectos mais curiosos que já tive em mãos foi um conta-passos. Não se trata de um pedómetro dos utilizados pelos ginastas e adeptos do fitness, o que admirei fora construído nos anos trinta, era semelhante a um relógio de bolso e a sua função era precisamente essa: contar os passos. Era usado pelos pais, que o colocavam nas filhas (adolescentes e jovens) quando elas saíam de casa. Permitia-lhes consultar no regresso, as andanças que ela tinha tido, e de algum modo, salvaguardar a sua "virtude". O curioso desse objecto é que a sua função era risível. Se a filha era enviada a casa de uma tia para pedir um pouco de arroz, e se essa casa se situava a cinquenta passos, o que a impedia de entrar numa casa ou embrenhar-se numa caneira para ter um pouco de sexo desenfreado?

Ferro-Velho

Chegou-se á frente quando ela lhe segurou pela mão como a um neófito, entraram no bar, o balcão iluminado, o empregado que a conhecia, mais duas ou três aves penduradas nos bancos como falcões desasados, todos conhecidos dela, beijo para aqui e para acolá, os seus lábios rubros abertos num largo sorriso, tudo cheio, e cheio de fumo, ela apontou-lhe uma mesa a um canto, a única vazia, rumaram até ela, não sem ela semear pelo caminho uns quantos beijos e sorrisos de ninfa, sentaram-se na mesa, desprezada devido a um altifalante gigantesco suspenso sobre eles, os seus dedos brincavam com o cinzeiro de louça, estranhos pousavam nos lugares vazios da mesa para falarem com ela e logo se anonimizavam outra vez na confusão enevoada, reparou que o sinal dela junto ao lábio parecia ter uma coloração diferente sob aquela luz. Ela pediu uma bebida, e ele gritou que queria o mesmo que ela. As bebidas chegaram ao mesmo tempo que os decibéis ensurdecedores de um solo de guitarra, mirou-a, cheirou, p…

Web-adictos

Ela: Passamos a vida nisto. Devíamos arranjar outra ocupação, jogar qualquer coisa no mundo real.
Ele: Podias jogar à estátua na Baixa. Pintavas-te de branco e ficavas lá quietinha enquanto eu jogo aqui um pouco, depois, ia-te buscar e almoçávamos com o dinheiro que tivesses ganho.

Mais tarde
Ele: devias deixar um pouco o computador, podíamos ir lá para fora, jogar ao berlinde, como quando eu era miúdo...
Ela: Só se me arranjares um blogo-berlinde.

Horas depois
Ela: Enquanto esperas pela tua vez, podias jogar á apanha.
Ele: Como é que se joga?
Ela: Tentas apanhar uma borboleta de olhos fechados numa loja de cactos.

Algumas horas depois
Ela: Já estás aí há muito tempo, agora devia ser eu.
Ele: Só mais um pouco, tenho quinze pessoas no Messenger. Sei que estás aborrecida, mas daqui a pouco já te compenso.
Ela: Mais um jogo tradicional?
Ele: Cabra-cega. Pões uma venda e jogamos no corredor, ao pé do poço do elevador.

Karaoke 1: Bob Dylan

Karaoke 2: "Weird Al" Yancovic

Etimologia popular

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Obélix: Um obeso lixado

E o seu cão de ideias fixas

O rato roeu a rolha

Momento 1 As planícies são para os eleitos e os bem-aventurados, as serras são para os que têm coragem e pulso para viver nelas. Quem conhece a Serra de Aire e Candeeiros, sabe como é difícil viver nela nos meses quentes de Verão, quando o Sol aquece as partículas de poeira no ar e os rochedos que marcam a paisagem como ossadas. Quando se lembrou de ir para a Serra fazer um piquenique com a família, Marcos desesperava de não encontrar uma sombra que parecesse convidativa, para pararem um pouco, saírem do carro transformado em fornalha e comer qualquer coisa. O tempo passava, com as crianças transtornadas a terem birras titânicas no banco traseiro e, no meio daquele quase-desespero, lembrou-se de Alcobertas, lá no alto, havia um parque de merendas em Alcobertas, tinha sombra e um Olho-de-Água, uma nascente agradável que visitara em tempo de Invernia. Conseguiu chegar ao parque de merendas antes que o metal da carroçaria derretesse sobre eles. Instalaram-se numa mesa à fresca, e comeram …

Sonho improvável de uma lesma de jardim

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(imagem daqui)


O último marxista

Como professor da escola Primária, queria juntar todos os alunos de todas as idades numa só sala de aula, com um só programa de ensino. Para os preparar para uma sociedade sem classes.

Experiência

À primeira
O crente inocente
Prometeram-lhe que ia para o Céu, para lhe venderem acções de uma companhia aérea.


À segunda
O crente avisado
Comprou acções de uma companhia aérea, sabendo que eram acções de uma companhia aérea (só ignorando que estava falida).

Voracidade

Quis o mundo só para si, arrebanhá-lo com latidos furiosos e levá-lo para casa na forma de notas bancárias e títulos de propriedade. Como a sua fome era muita, começou a trinchar e a devorar o mundo, à garfada e à colherada, e depois, deixando de lado as regras de etiqueta, pegava no osso com as mãos para mais fundo enterrar os dentes na carne besuntada. Como a sua fome não diminuía, continuava a comer, inchado e a arrebentar pelas costuras, até que estas cederam e estoirou como um balão. As autoridades tiveram de remover as suas entranhas e tripas das paredes da Bolsa de Valores.

Nada de novo debaixo do céu

Não sou de concursos, muito menos literários, que só a palavra faz-me esconder debaixo de uma pedra, mas pela web vi anunciado um concurso de contos em que se exigia a apresentação de textos inéditos, e decidi, por descargo de consciência, inquirir qual era o conceito que faziam disso: realmente novos, não vistos rigorosamente por ninguém, nem por mim mesmo? Não publicados em papel? Não editados, só em rascunho? A resposta foi concisa: novos, novinhos, ainda cheirando a tinta ou a pó de teclado. Podia esquecer o que já tivesse colocado num weblog e/ou website. Num momento de ociosidade, andei a pensar nisso. Diz-se que isto da web e dos weblogs são um mundo virtual, paralelo, mas só nalguns sentidos. Se nos copiam um texto e o assinam com outro nome (já me aconteceu, por falta de critério do plagiador), não é um crime, porque está tudo em potência. Se desejamos passar do mundo virtual para o mundo real um texto nosso, isso não passa porque não é inédito, porque já alguém o leu e é tão …

Tinha de ser

A primeira impressão que teve quando entrou no Céu, foi a de ver uma laranja cirurgicamente cortada ao meio, uma metade fresca e solar, a outra calcinada e podre. Assim era o Céu: um Rift ao alto como a espinha dorsal de um dinossauro e, de ambos os lados, dois mundos diferentes anichados em vales profundos a perder de vista. Dum dos lados, o Céu pelo qual tantos esperam, a lembrar uma tela de Henri Rousseau, com vegetação luxuriante, cascatas e aves de plumagem colorida, onde as almas vagueavam alegremente, compondo versos e tocando cítara. No lado oposto, um verdadeiro inferno, uma paisagem lunar e vulcânica de terra despida e rochedos de sílex, onde as almas que podia avistar, pareciam mortalmente aborrecidas, sentadas pelos cantos sob uma noite sem luar. - O Céu e o Inferno? - perguntou ao querubim que o guiava - eu devo estar destinado ao Céu porque sempre fui um ser humano exemplar... - É tudo o Céu - respondeu-lhe ele - mas você está destinado á parte mais sombria. A outra, é a á…

Um cão perdido

Às treze horas de Sábado, tocou a sirene e os operários da fábrica de tecelagem picaram alegremente o cartão, passando de fugida pelos balneários antes de mergulharem no almejado fim-de-semana. Havia de tudo nas suas mentes, os almoços de família, a pescaria para a manhã de Domingo, o jogo da Selecção, a amante, as promoções dos hipermercados, o Sol lá fora. Enquanto estavam longe, o destino trocou-lhes as voltas. O dono da fábrica entrou nela com uma caravana de camiões. Valendo-se do isolamento do lugar, teve o recolhimento e a tranquilidade para organizar tudo: carregaram as máquinas, devidamente embaladas, o resto da produção, a matéria-prima, os acessórios e equipamentos do escritório, carregaram até um pequeno televisor que ele tinha adquirido para o refeitório da rapaziada.
Na Segunda-Feira de manhã foi o cataclismo, noventa e duas pessoas ficaram aos portões da fábrica encerrada, lendo e relendo um pequeno cartaz onde o empresário lhes explicava que fora obrigado a fechar a fáb…

Bloqueio

"As palavras não saem" - gemia aflito o prosador - "As palavras não saem, acudam-me que elas não saem". A prima robusta veio aos saltos, galgando os degraus da escada de três em três, segurou-o pelos fundilhos das calças, levantou-o ao ar aplicando-lhe nas costas umas palmadas valentes para desentalar as palavras. Mas nada. O outro já chorava: "Sufoco! Ai que sufoco!". Já a mulher lhe fazia a Manobra de Heimlich, com gestos ritmados e enérgicos, enquando orava a Deus Nosso Senhor. Quando já estava a desistir, a sua amiga morena entrou no escritório com um desentupidor de ralos em punho, deita-o de costas no chão e toca a bombear a ventosa sobre a boca a ver se as libertava. O prosador olha em volta e começa a acenar muito com ambos os braços. As três estavam seminuas, os rostos afogueados, a saliva e o baton mesclando-se nas partes desnudadas.
Voltou a gritar: "Um ménage à trois, um arraial de sexo na minha casa, e eu aqui preocupado com a porcaria d…

O mundo de Tlön, segundo Borges

« (...) O anterior refere-se aos idiomas do hemisfério austral [de Tlön]. Nos do hemisfério boreal (de cuja Ursprache há pouquíssimos dados no Tomo Onze) a célula primordial não é o verbo, mas o adjectivo monossilábico. O substantivo forma-se por acumulação de adjectivos. Não se diz lua: diz-se aéreo-claro sobre escuro-redondo ou celeste alaranjado-ténue ou qualquer outra combinação. No caso que escolhi a massa de adjectivos corresponde a um objecto real; o facto é puramente fortuito. Na literatura deste hemisfério (tal como no mundo subsistente de Meinong) abundam os objectos ideais, convocados ou dissolvidos num momento, conforme as necessidades poéticas. Determina-os, às vezes, a mera simultaneidade. Há objectos compostos de dois termos, um de carácter visual e outro auditivo: a cor do nascente e o remoto grito de uma ave. Há-os de muitos termos: o sol e a água contra o peito do nadador, o vago rosa trémulo que se vê com os olhos fechados, a sensação de quem se deixa levar por um r…

Perfil

Hoggarej é um minúsculo estado da África subsariana, uma ditadura, onde os direitos humanos são desprezados, e as mulheres e os criminosos são açoitados na praça pública. Hoggarej beneficia de ser um produtor mundial de armas químicas e biológicas, único complemento económico á produção de tâmaras e figos. No mais, Hoggarej nada possui de relevante: petróleo no subsolo, filões de urânio e metais preciosos ou lucrativas rotas de comércio. Apesar da sua situação social e política, e do empenho dos seus governantes na produção de armas de destruição maciça, Hoggarej não corre qualquer risco de ser salva ou trazida para a liberdade pelas potências ocidentais.

Pensar pequeno

Depois de muito namorar os bonsais que via nas floristas e nas lojas de decoração, comprou finalmente um, e levou-o para casa com mil cuidados, mais um guia de bonsais, e uma lista de contactos para emergências e necessidades bonsaístas. O seu bonsai ficou em lugar de destaque na sala, num lugar escolhido segundo os princípios do Feng-Shui. Seguiu todas as instruções sobre a água, a luz, o corte das folhas por uma especialista, e telefonava sempre que via uma mancha que podia ser uma praga, ou uma coloração mais triste num ramo que poderia ser sinal de enfraquecimento da planta. De tanto contemplar a pequena árvore, descobriu que ela dera um fruto, uma maçã em miniatura. Fora numa manhã de Outono, enquanto se vestia para ir para o trabalho. Extasiada com o prodígio, ajoelhou-se diante do bonsai para o ver melhor, e admirou uma ofídica minhoca que se enrolara no ramo do pequeno fruto e agitava o corpo como se quisesse atrair a sua atenção. Com duas unhas compridas e pintadas de rosa, c…

credo

O advogado perfilou-se por um momento, quando a anciã foi introduzida no seu gabinete. Cumprimentou-a com deferência e ofereceu-lhe uma cadeira diante da secretária. Sentaram-se os dois e ele estudou-a veladamente enquanto ela tentava habituar a vista à penumbra da sala. Apesar da idade, possuía um rosto de traços finos e delicados, com uns olhos grandes de pupilas negras e brilhantes. Deveria ter sido deslumbrante na sua juventude.
- Minha senhora - principiou - a sua presença aqui deve-se a uma disposição testamentária que eu fui incumbido de executar. O meu extinto cliente conheceu-a há muitos anos atrás e eu preciso saber se guarda disso alguma memória. O seu nome era Bernardo Rodrigues.
O rosto da anciã crispou-se. Os seus olhos desviaram-se para o chão, e assim permaneceram, como se toda a sua atenção estivesse concentrada nalgum ponto do mosaico.
- Sinto muito se essa má notícia a perturbou mas um dos itens deste apenso testamentário estabelece como condição que a senhora confirme…

3 histórias Zen

Daigô, discípulo do mestre Hainu, recebeu dele o seguinte ensinamento: Atingirás a Iluminação quando vires o bicho-da-seda no meio da rede de metal. Como trabalhava numa fábrica de teia metálica, Daigô esteve sempre atento para tentar encontrar o bicho-da-seda nos painéis de rede que eram enrolados à sua frente, mas isso nunca aconteceu. Quando um dia saiu da fábrica, viu um pequeno insecto pousado na carroçaria metalizada do seu carro, uma borboleta, que se camuflara e tomara o tom cinzento do carro. E Daigô atingiu a Iluminação. * Rosa Pereira perseguia a máxima Zen de "ouvir o som de uma mão", e punha toda a sua energia nisso. Com uma das mãos encostada ao ouvido, recitava sutras e repetia parábolas Zen. Finalmente, ouviu qualquer coisa, o rumor ténue de um parasita tropical que escavara um nicho no interior da sua mão e desovava dentro dela. E Rosa atingiu a Iluminação. * Johnny Sacramento, budista luso-americano, ingressou no retiro budista de Alcogulhe para encontrar alguma …

Entrevista de emprego

- O que é que você já fez até hoje, Petronius? - Trabalhei numa villa, amanhava a terra e cuidava dos animais, também fui carregador na Capadócia e escravo de liteira na Úmbria... - Diga-me, Petronius, e isto é muito importante: você gosta de conviver com as pessoas, estar ao lado delas dia e noite, se necessário for? - Sim, amo, eu fui talhado para servir num palácio ou ser vendedor de feira. - E trabalho de equipa? Você dá-se bem em trabalho de equipa? - Certamente, meu amo, não seria difícil fazerem de mim um membro das equipas de manutenção das estradas do Império, ou um trabalhador como aqueles que se vê lá fora, a colher uvas. - Ainda bem, Petronius. Na verdade, precisamos de braços é para as trirremes, precisamos de remadores, de gente que gosta de estar com outras pessoas e trabalhar em sintonia. Costumo dizer que, se um escravo não gosta de trabalhar em equipa, podemos arrancar-lhe a pele das costas com um chicote, que nunca obteremos um bom remador...

Desconexo

Ele podia estar muito longe, do outro lado do mundo, entrevistando monges na Birmânia ou mirando os coatis numa árvore dos trópicos. Mas está ali mesmo, ao lado, na cama e na sala, em todas as divisões da casa onde os seus corpos vivem se estorvando, rebeldes. A distância do seu silêncio constrangido faz parecer mesmo que ele está do outro lado do mundo.
*
Por desleixo, deixou expirar o anti-vírus do seu computador. E agora, tinha a preocupação de não espirrar sobre o teclado.
*
Sem saberem que ele ainda estava vivo, o enterraram. Como a terra estava fresca, abriu uma nesga no caixão e conseguiu esgueirar-se. O coveiro ouviu depois uns sons estranhos e decidiu averiguar.
A enxada o colheu pelo alto da cabeça, quando abria caminho para a superfície, comendo terra.
*
Depois de ter vencido a montanha K2, o que mais apreciou foi voltar para a sua amada, e conquistar sem acampamentos de base, aqueles píncaros com mamilos sem neve no cume.
*
Comprou um aquário e o povoou de peixinhos escolhidos…

A melhor montanha russa

Viagem

Firmou os pés contra a base do assento e preparou-se. Começou a mover-se, conseguia sentir que se movia, sozinho, no vagão da montanha-russa, uns poucos metros apenas, e despenhou-se, uma descida abrupta, em parafuso, acumulando energia, depois o cotovelo do final da descida e logo uma subida a pique, enquanto o coração parecia ter deixado de bater no nadir precedente. Terminada a subida, um desaceleramento, para respirar um pouco, e uma nova descida, um looping de cortar a respiração, coroado com uma série alternada de parafusos, durante a qual passava rente a outros vagões, que ressoavam perto, num efeito de storm. Tentou engolir golfadas de ar, e sentiu os lábios molhados, e a cabeça. Abriu os olhos. Nunca mais se despachavam. Estava preso á cadeira eléctrica, com os eléctrodos já ligados ao corpo. Um funcionário aspergia o seu corpo com um líquido próprio para acelerar a electrocução. Olhou em volta, sem emoção. Vou fechar os olhos, disse para si, não porque tenha medo, mas porque…

Ponto de honra

Na estação de comboios semi-deserta, a criança cigana aproximou-se de um homem na sala de espera, estendendo-lhe a mão aberta. Ele arregalou os olhos. Não dou esmola, nunca dou esmola, explicou pacientemente, e não é porque não tenha dinheiro ou não seja um homem generoso, mas apenas por opção filosófica. É o Estado e as suas instituições, que tem o dever de sanar a fome e as injustiças sociais, de dar uma solução a todos os dramas e problemas que afligem as pessoas enquanto súbditos do poder instituído. Eu sou apenas um cidadão comum, consciente e responsável, e por isso digo e repito: se precisa de ajuda, recorra às instituições oficiais, é para isso que elas existem. Ainda as suas palavras não se tinham dissipado nos ângulos bolorentos da sala de espera, e irromperam na divisão dois enfermeiros de bata branca que o agarraram com determinação, enfiando-o dentro de uma camisa-de-forças. Enquanto era arrastado para a saída, concluiu a sua dissertação: "E nunca se esqueça disto: h…

Sem defesas

«O meu organismo, como o meu carácter, é uma planície sem relevo nem detalhes. Sou uma pessoa muito influenzável e, à conta disso, ando quase sempre com uma gripalhada do caraças».

O cu e as calças

«Admitimos vendedora-comissionista para venda de uma nova linha de laxativos e fármacos anti-diarreicos. Exigimos um bom palminho de cara. Resposta para este Apartado, com foto tipo passe e foto de corpo inteiro»

BRG (uma pequena fantasia)

Retirei hoje da minha estante e apenas por breves instantes, o "Livro Negro de Tlön", de autor e editor não referidos. Hesitei muito antes de vos falar deste pequeno livro, porque costumo mantê-lo escondido numa prateleira alta, por detrás de uns quantos livros que li uma vez e que não faço tenções de voltar a ler. Soa estranho querer falar de um livro que se pretende oculto e esquecido entre os seus pares, mas tenho bons motivos para isso. Este livro estava entre muitos, num caixote com livros velhos que comprei numa venda de garagem. O anterior proprietário falecera recentemente, e a viúva estava a desfazer-se das suas coisas pessoais, talvez por necessidade material ou para aligeirar o peso da sua memória. Em casa, examinando o espólio, peguei pela primeira vez no livro. Lombada envelhecida, castanha, com o título em letras douradas. Na primeira página, novamente o título. Abri a página seguinte e seguiu-se o espanto. Todas as restantes páginas do livro estavam pintadas de…

Não existe

Confesso, que não sou um dos quatro portugueses que pagaram adiantado para fazer turismo espacial. (Viver o dia-a-dia em Portugal coloca-me em face de situações e comportamentos tão absurdos que, por vezes, sinto que vivo numa outra Galáxia)