INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Canto Nahuatl

Eu, por minha parte, digo:
Como a efémera flor desabrochamos sobre a terra:
Para secar-nos um dia, amigos.

- Que desapareça toda amargura,
Todo sinal de angústia!

Mas de que modo comer
E como haveremos de festejar?

Nossos cantos são engendrados
Lá onde nascem nossos tambores.
Sofro sobre a terra.
Lá onde eles vivem se há de tecer a amizade,
A sociedade dos poetas, em meio aos tambores.

Por acaso eu verei de novo a luz do sol
E poderei entoar novamente o meu canto?
Sozinho aqui, todos ausentes já,
Um dia eu também serei oferecido
À névoa e às sombras.

Escutemos o nosso coração:
É nossa casa esta terra?
Ou vivemos apenas em meio à miséria e à angústia?

Por isso, solitário, eu vou cantando e implorando:
Como flor me esparzirão em sementes de novo?
Como o grão de milho me enterrarão,
Ou brotarão meus pais, e eu deles,
Espiga de espigas sobre a terra?

Por isso eu choro. Não há ninguém aí,
Deixaram-nos órfãos sobre a terra.
(reproduzido aqui)

Romagem

Religioso
Se a vida me bastasse, não esperava por outra.
Escrevinhador
Se a vida me bastasse, não dava vida às palavras.
Espírita
Se a vida me bastasse, não ligava o receptor.
Blogger deprimido
Se a vida me bastasse, não vivia ansioso por comentários.
Navegador solitário
Se a vida me bastasse, não tinham em alto-som o alerta de mails.
Pessoa
Se a vida me bastasse, não tinha de inventar outros gajos.
Pessoas
Se a vida me bastasse, não tinha de plagiar tanta gente.
Masturbatório
Se a vida me bastasse, não tinha de agitar o bastão.
Budista
Se a vida me bastasse, atingia o Nirvana ou, na falta, a caçadeira do Kurt.
Morto
Se a vida me bastasse, não voltava no Dia de Finados.

Passarada

Noite de
Allô Winn

Perfeitos estranhos

Puxou de um papel e sentou-se à secretária. Limpou o vidro da janela como se limpasse o ecrã de uma televisão. A ver o que dava. Esperou, vazio e cheio de si mesmo. Lembrou-se de registar o que via. Os telhados mais próximos, já arqueados pela velhice, com algumas manchas esbranquiçadas dos líquenes. Uma fiada de casas na banda esquerda. Diante de si, para lá da cumeada de telhas, um pomar disperso, a que se sucedia um terreno ondulado, não muito verde, com algumas casas solitárias. Nada de invulgar. Ah! Havia também a linha arroxeada de colinas no horizonte que morria no promontório de Santa Ana, um dos braços que fecham a concha de S. Martinho do Porto. Da enseada e do mar, não distinguia quase nada, uma fusão opalescente de água e neblina. Deixou o mar e regressou ao resto da paisagem. Do resto, não tinha nada para minuciar, a não ser a coroa ondulante de duas palmeiras que se erguiam por entre o casario. Mais...mais...as pombas no pomar, e os latidos dos cães, distinguia três, dois episódicos, fracos, de cão pequeno, talvez rafeiro, e um ladrar insistente de cão de barba-rija, quase de certeza um pastor-alemão. Ia desistir da sua vigília entediada, quando viu o Afonso, que saía da sua casa no meio dos campos e tomava o caminho de gravilha para a estrada de alcatrão, a calva reluzindo ao sol. Trazia uma mala grande numa das mãos e o casaco dobrado sobre o outro braço. Devia ir a pé para a cidade, talvez para apanhar o Expresso para a terra da família, ainda eram uns três quilómetros até lá sob um calor tardio e enfermiço de Outono. Há mais de vinte anos que conhecia o Afonso de vista, conhecia-o pelo nome, e isto porque um dia ele o ajudara quando mudava o pneu do carro. No resto do tempo, cruzara-se com ele na rua ou no café, com um Bom Dia! Como vai? / Bem, obrigado, e o senhor? E um Então até logo! na despedida, quando nenhum dos dois fazia intenção de se encontrar nos dias e anos mais próximos. Ele e o Afonso eram como as pombas e as árvores daquele pomar, uma presença e um esvoaçar para nunca mais se verem. Se o Afonso ou ele próprio morressem, o outro nem daria por isso. Essa ideia tomou-o de assalto, e entristeceu-o. Parecia tudo tão definitivo, condenado à dissolução.
Levantou-se da cadeira, trocou num ápice o pijama por um fato-de-treino e muniu-se dos seus documentos e chaves antes de entrar no carro. As coisas não tinham de ser assim, pensou, enquanto saía para a estrada no encalço do vizinho. Encontrou-o no fim da serventia que ele tomara para chegar ao alcatrão. Tinha-se detido na berma da estrada a tossir a cigarreira. Ofereceu-lhe boleia. Também ia para a cidade, explicou-lhe. O vizinho agradeceu, colocou a mala no assento de trás, e instalou-se no pendura.
- Vai à terra? - Perguntou - Ou, se calhar, vai a Lisboa.
- Para a terra...de vez. Com sessenta anos, vou-me instalar na casa que foi dos meus pais.
- Não me diga!
- É verdade. Tenho um irmão gémeo, que me veio visitar, e vai ficar por uns tempos na minha casa, vamos, por assim dizer, trocar de papéis. Eu vou para a terra, morar onde ele morava. Ele é como eu, celibatário e pouco amigo de companhias, principalmente agora.
Apercebeu-se que o Afonso podia estar a colocar um travão às suas perguntas, e fez o resto do percurso em silêncio. Na cidade, deixou-o ao pé da garagem. O Afonso ofereceu-lhe um café, e ele aceitou, ainda inseguro do terreno que pisava. Instalaram-se numa das mesas do café dos Claras, o Afonso com o rosto erguido a admirar a figura esverdeada de um centauro numa parede. Talvez pensasse que já a vira muitas vezes, mas nunca como naquele momento. Era uma situação bizarra, sentira o impulso de deixar de ser um completo estranho para um vizinho que lhe anuncia que vai partir de vez.
- Posso pedir-lhe um favor? - Diz o Afonso, com um ar grave.
- Com certeza - garantiu-lhe - tudo o que estiver ao meu alcance, será feito...
- Não preciso que me cuide de nenhum canário - fez uma pausa, como se o preparasse para o que se seguiria - preciso que deite fogo à minha casa.
Deveria ter feito um ar muito siderado. O Afonso pormenorizou:
- Nas traseiras da minha casa, há um anexo em madeira com toros para a lareira e ramos de eucalipto. Junto à porta, deve lá andar uma lata de diluente. Só precisa de derramar o diluente e deitar-lhe um fósforo. Em minutos, aquilo transforma-se numa tocha e pode ligar aos bombeiros para o fogo não alastrar pelos campos.
- Você falou de um irmão...
- O meu irmão gémeo. Faleceu ontem à noite, uma infelicidade. Está lá, deitado num sofá, vestido com um pijama meu, com o meu relógio no pulso.
- Os meus sentimentos!
- Obrigado!
Ficaram os dois em silêncio. Beberam os cafés, ouvindo os anúncios de partidas e chegadas nos altifalantes.
- Diga-me porquê!
Fez uma pausa, escolhendo cuidadosamente as palavras como se limpasse o arroz.
- Há umas coisas no meu passado, uns crimes de sangue. Pensei que já estivessem esquecidos, mas chegaram até mim. A Pê-Jota já me interrogou, mas ainda não têm provas que cheguem. Quando o meu irmão se lembrou de morrer na minha sala, pensei que seria uma altura oportuna para desaparecer. Não creio que chamem o C.S.I. ou que façam exames à dentadura. Se você concordar em deitar fogo ao estaminé, irão pensar nalgum ajuste de contas, caso contrário, alguém, anónimo, ligará para a polícia porque o Afonso não aparece ao trabalho há vários dias.
Estendeu-lhe a mão.
- Será feito! - Garantiu - Juro-lhe pela minha saúde!
O outro apertou-lha com vigor. Pagou os cafés e despediram-se cá fora como velhos amigos. Viu-o entrar no Expresso e acenou quando a viatura saiu da garagem. Sentia-se exultante. O Afonso já não era um estranho, os dois estavam unidos por um pacto de sangue que duraria mais do que muitos laços de amizade que os homens julgam eternos.

Máscara

Sem receio, cedo ao impulso, abro a porta de casa, fechada à chave, a porta interior da cozinha, à chave fechada. Sobre o balcão, um cofre, rodo o disco com a chave - 3 direita, 14 esquerda, novamente para a direita, sete, e para acabar, 666 cliques para a esquerda - ouço um estalido, um suspiro metálico de mecanismo que cede, olho em redor, ninguém me viu nem ouviu. Para me certificar, levanto o telefone, à escuta de estalidos suspeitos, mas não ouvi nada de suspeito. Mais descansado, volto à cozinha, ao cofre esfíngico, abro a sua porta trans-dimensional, um vórtex luminoso encadeia-me a vista por instantes, protejo os olhos com uma mão e desligo o interruptor de efeitos especiais, e o ventre do cofre revela-me o seu segredo: uma enorme barra de chocolate que me faz crescer água na boca. Não por muito tempo, devoro o chocolate tão depressa que me escorre um fio castanho-escuro nos cantos da boca. Limpo-a, limpo as mãos, e volto a fechar o cofre. Não há vestígios! Ou haverá? Passo as mãos por álcool e vou ao armário tirar a garrafa de Gin e bebo um cálice. Está quase na hora. Deixo a porta da cozinha aberta, queimo incenso na sala, espalho ao acaso pelos sofás e mesas, livros sobre nutricionismo e comida saudável. Quando os meus amigos chegam, estou à volta de uma salada macrobiótica. Oferecem-me uma balança digital (já sabia), pensaram muito na prenda e acharam que eu podia precisar - EH! GORDO! JÁ QUE NÃO TE VÊS AO ESPELHO, PESA-TE! - Agradeço sentidamente, não precisavam! É só uma lembrança, diz uma amiga, hesitaram entre uma balança e uma anuidade no ginásio que todos frequentam. A elegância é como a mulher do César, diz outro, não basta ser magro e saudável, há que parecer saudável, transpirar saúde e bebidas energéticas e, se isso não chegar, vomita-se o que se comeu. Se não gostares, podes trocar, dizem-me à saída, confiando-me o talão. Miro-o e sinto-me invadir de alegria. Compraram a balança numa casa que tem o maior sortido que conheço de massas alimentícias. Vê lá, diz alguém à guisa de despedida, não emagreças depressa demais, que pode fazer-te mal...

Fénix

Quando Félix de Andrada (o apelido não era o original), irrompeu no cenário cultural português, quase nada se sabia dele. Fizera fortuna em França, e em tal grau que lhe permitiu tornar-se um mecenas e patrono das artes. Os maledicentes afirmavam que a sua fortuna tinha por origem a agiotagem e o tráfico de droga, os mais acomodados, propagavam a lenda áurea que fazia dele um membro da antiga aristocracia nacional, um sempre-rico que passara uns anos em França para enriquecer a sua colecção de arte.
A verdade, ignorada, sobre Félix de Andrada, é que a origem da sua fortuna fora um roubo audacioso - subira à força de braços, pelos cabos de aço de um ascensor avariado, para chegar ao Penthouse de um Hotel, e roubar a fortuna em jóias guardada nos aposentos de um barão da droga. Essas jóias quase não tinham protecção (excesso de confiança do seu proprietário), e enquanto a polícia e inquiridores privados se debatiam com um crime que continuaria sem solução, Félix instalava-se em França, lavando o seu dinheiro com a aquisição de propriedades e obras de arte.
Anos mais tarde, um dos seus biógrafos menos inflamados diria de Félix de Andrada, que ele subira na vida a pulso.

(Isilda)

Sempre que surgia
tornava irreal
a geometria dos sólidos

Suspendendo o peso
físico
das coisas

Aprendi como eram irreais os
seus cabelos, a
delícia táctil e quase
mística da sua face

provei dos seus lábios e
renasci,
semente criada para germinar

doce adolescência de sardas

Moral e bons-costumes

Do meu parco e profano conhecimento do comércio de antiguidades, um dos objectos mais curiosos que já tive em mãos foi um conta-passos. Não se trata de um pedómetro dos utilizados pelos ginastas e adeptos do fitness, o que admirei fora construído nos anos trinta, era semelhante a um relógio de bolso e a sua função era precisamente essa: contar os passos. Era usado pelos pais, que o colocavam nas filhas (adolescentes e jovens) quando elas saíam de casa. Permitia-lhes consultar no regresso, as andanças que ela tinha tido, e de algum modo, salvaguardar a sua "virtude". O curioso desse objecto é que a sua função era risível. Se a filha era enviada a casa de uma tia para pedir um pouco de arroz, e se essa casa se situava a cinquenta passos, o que a impedia de entrar numa casa ou embrenhar-se numa caneira para ter um pouco de sexo desenfreado?

Ferro-Velho

Chegou-se á frente quando ela lhe segurou pela mão como a um neófito, entraram no bar, o balcão iluminado, o empregado que a conhecia, mais duas ou três aves penduradas nos bancos como falcões desasados, todos conhecidos dela, beijo para aqui e para acolá, os seus lábios rubros abertos num largo sorriso, tudo cheio, e cheio de fumo, ela apontou-lhe uma mesa a um canto, a única vazia, rumaram até ela, não sem ela semear pelo caminho uns quantos beijos e sorrisos de ninfa, sentaram-se na mesa, desprezada devido a um altifalante gigantesco suspenso sobre eles, os seus dedos brincavam com o cinzeiro de louça, estranhos pousavam nos lugares vazios da mesa para falarem com ela e logo se anonimizavam outra vez na confusão enevoada, reparou que o sinal dela junto ao lábio parecia ter uma coloração diferente sob aquela luz. Ela pediu uma bebida, e ele gritou que queria o mesmo que ela. As bebidas chegaram ao mesmo tempo que os decibéis ensurdecedores de um solo de guitarra, mirou-a, cheirou, provou a bebida sem a fazer dançar no ouvido, mas não conseguiu identificá-la. A sua amiga bebericava-a ao de leve, como um cisne aflorando a água com o seu bico. Mulheres! Bebeu-a de enfiada - Biiaacc! - Ouviu-a rir-se das suas caretas. Pediu outra, que emborcou em desafio, outra, e outra ainda. Os olhos dela luziam, divertidos. Chegou-se ao pé dele, roçando os lábios pela sua face. "Bebe com calma" - avisou - "O absinto não é para qualquer um". Absinto!! Encolheu os ombros, como um bebedor experimentado: "Só o primeiro é que me faz efeito, os outros são só cócegas". Ia pedir outro, mas ela susteve o seu gesto. "Isto hoje está uma merda. Vamos até à Dreamer's?". Aceitou a sugestão, e levantou-se da cadeira. Nesse instante, toda a sala pareceu levantar-se com ele, as pessoas, as mesas, as paredes. Ficou em pé, estarrecido, sentiu-a abraçar-se a ele e ajudá-lo no caminho para a saída, os pés a pisar nuvens ou algodão. Esbarrou em pessoas e mesas, e quando ela o largou ao pé do balcão para pagar a despesa, teve de se sentar um pouco no chão, porque os músculos das pernas tinham derretido. Ela ajudou-o novamente e conseguiram alcançar o exterior. Sentou-se no passeio, e começou a chorar convulsivamente, entre lamentos sobre a sua desgraça: os estudos que não teve, os amores que não aconteceram, os lugares onde nunca tinha ido. Chorava em crescendo, como numa birra de criança. Ela abraçou-o docemente, e fazendo-o encará-la, disse-lhe: "Tu és a pessoa mais patética com quem já andei, mas isso não me chateia nada!". Ele enxugou as lágrimas e confessou: "Isso foi a coisa mais bela que alguém já me disse, aliás, acho que foi a única coisa bonita que me disseram". E recomeçou a chorar, uma criança grande junto à sua mãe improvisada, confiando mágoas ao discreto alcatrão.

Web-adictos

Ela: Passamos a vida nisto. Devíamos arranjar outra ocupação, jogar qualquer coisa no mundo real.
Ele: Podias jogar à estátua na Baixa. Pintavas-te de branco e ficavas lá quietinha enquanto eu jogo aqui um pouco, depois, ia-te buscar e almoçávamos com o dinheiro que tivesses ganho.

Mais tarde
Ele: devias deixar um pouco o computador, podíamos ir lá para fora, jogar ao berlinde, como quando eu era miúdo...
Ela: Só se me arranjares um blogo-berlinde.

Horas depois
Ela: Enquanto esperas pela tua vez, podias jogar á apanha.
Ele: Como é que se joga?
Ela: Tentas apanhar uma borboleta de olhos fechados numa loja de cactos.

Algumas horas depois
Ela: Já estás aí há muito tempo, agora devia ser eu.
Ele: Só mais um pouco, tenho quinze pessoas no Messenger. Sei que estás aborrecida, mas daqui a pouco já te compenso.
Ela: Mais um jogo tradicional?
Ele: Cabra-cega. Pões uma venda e jogamos no corredor, ao pé do poço do elevador.

Karaoke 1: Bob Dylan

Karaoke 2: "Weird Al" Yancovic

O rato roeu a rolha

Momento 1
As planícies são para os eleitos e os bem-aventurados, as serras são para os que têm coragem e pulso para viver nelas. Quem conhece a Serra de Aire e Candeeiros, sabe como é difícil viver nela nos meses quentes de Verão, quando o Sol aquece as partículas de poeira no ar e os rochedos que marcam a paisagem como ossadas. Quando se lembrou de ir para a Serra fazer um piquenique com a família, Marcos desesperava de não encontrar uma sombra que parecesse convidativa, para pararem um pouco, saírem do carro transformado em fornalha e comer qualquer coisa. O tempo passava, com as crianças transtornadas a terem birras titânicas no banco traseiro e, no meio daquele quase-desespero, lembrou-se de Alcobertas, lá no alto, havia um parque de merendas em Alcobertas, tinha sombra e um Olho-de-Água, uma nascente agradável que visitara em tempo de Invernia. Conseguiu chegar ao parque de merendas antes que o metal da carroçaria derretesse sobre eles. Instalaram-se numa mesa à fresca, e comeram deliciados a comida trazida de casa. Com o estômago saciado, Marcos quis levar os miúdos a ver a nascente ao pé, mas não encontrou nenhum entusiasmo, o mais velho agarrou-se logo ao jogo portátil, enquanto o mais pequeno dormitava no regaço da mãe. Foi até à beira da água. De Verão não era tão bonito. Estava por ali a olhar distraído o borbulhar da nascente, quando reparou num detalhe menos turístico: na parte do pequeno reservatório do lado da capela, duas ratazanas enormes como coelhos pareciam brincar junto a um amontoado de canas cortadas. Mediu distâncias, cinco metros entre elas e as crianças, mas também não podia dizer à mulher, ela ia ter um ataque de nervos, e iriam seguir-se as reprimendas até casa: só eu para ir atrás das tuas ideias, tiras a mim e às crianças da cidade para vir para este lugar que é um inferno, e ainda por cima com ratos perigosos e outros bichos...Tinha de ser diplomata. Que tal irmos, amor? Perguntou finalmente. Agora não, respondeu-lhe a mulher, ainda está muito calor, e o Marquinhos adormeceu, mais uma horita ou duas e vamos. Uma horita ou duas, de nervos e sentinela. Não quis jogar ao Uno, nem conversar, nem nada. Postou-se entre a água e a sua família, admirando com um falso interesse o relevo da Serra e atirando de tempos a tempos uma pedra para o território das ratazanas. Que fazes? perguntava a mulher. Estou a ver se passa o tempo, respondia, sem convicção.
Momento 2
A ama esperou pelo namorado no resguardo de sombra do parque de merendas, o bebé dormia no carrinho junto à mesa de madeira. Estava inquieta. Ele tinha dito para não se ir embora sem se verem, mas o tempo estava a passar e tinha de regressar à casa dos patrões. Finalmente, ouviu o trabalhar característico do tractor que descia a estrada de terra batida ao lado da capela. Ele deixou-o ao lado do templo e foi ter com ela, olhando para um lado e para o outro, com as precauções rotineiras de um adúltero experiente. Beijaram-se e ele apontou a plantação de milho ao lado do parque. Tinham tempo para uma rapidinha.
«E o bebé? Não posso deixá-lo aqui sozinho!
«Não está cá ninguém e, com este calor, só gente doida é que sai de casa. Anda. Nós ouvimo-lo!
Pularam por cima do pequeno canal de água e adentraram-se no milheiral. Deitaram-se na terra e ele despiu-a sumariamente da cintura para baixo, quase rasgando a porcaria da saia ao tirá-la, esboçaram umas carícias vagas, enquanto ele se encaixava entre as suas pernas. O bebé começou a chorar, muito, um continuado choro de dor. A ama tentava endireitar o torso para o espreitar enquanto o namorado a penetrava com energia.
«Ele chora muito...não sei...
«Deixa-o lá - rosnava ele - deve ser dentes».

Sonho improvável de uma lesma de jardim

(imagem daqui)


O último marxista

Como professor da escola Primária, queria juntar todos os alunos de todas as idades numa só sala de aula, com um só programa de ensino. Para os preparar para uma sociedade sem classes.

Experiência

À primeira
O crente inocente
Prometeram-lhe que ia para o Céu, para lhe venderem acções de uma companhia aérea.


À segunda

O crente avisado
Comprou acções de uma companhia aérea, sabendo que eram acções de uma companhia aérea (só ignorando que estava falida).

Voracidade

Quis o mundo só para si, arrebanhá-lo com latidos furiosos e levá-lo para casa na forma de notas bancárias e títulos de propriedade. Como a sua fome era muita, começou a trinchar e a devorar o mundo, à garfada e à colherada, e depois, deixando de lado as regras de etiqueta, pegava no osso com as mãos para mais fundo enterrar os dentes na carne besuntada. Como a sua fome não diminuía, continuava a comer, inchado e a arrebentar pelas costuras, até que estas cederam e estoirou como um balão. As autoridades tiveram de remover as suas entranhas e tripas das paredes da Bolsa de Valores.

Nada de novo debaixo do céu

Não sou de concursos, muito menos literários, que só a palavra faz-me esconder debaixo de uma pedra, mas pela web vi anunciado um concurso de contos em que se exigia a apresentação de textos inéditos, e decidi, por descargo de consciência, inquirir qual era o conceito que faziam disso: realmente novos, não vistos rigorosamente por ninguém, nem por mim mesmo? Não publicados em papel? Não editados, só em rascunho?
A resposta foi concisa: novos, novinhos, ainda cheirando a tinta ou a pó de teclado. Podia esquecer o que já tivesse colocado num weblog e/ou website.
Num momento de ociosidade, andei a pensar nisso. Diz-se que isto da web e dos weblogs são um mundo virtual, paralelo, mas só nalguns sentidos. Se nos copiam um texto e o assinam com outro nome (já me aconteceu, por falta de critério do plagiador), não é um crime, porque está tudo em potência. Se desejamos passar do mundo virtual para o mundo real um texto nosso, isso não passa porque não é inédito, porque já alguém o leu e é tão real como as pedras da calçada.
Ainda outra: passeando amiúde pela blogoesfera, pode-se constatar que alguns autores (como este) escrevem muito e bem e, devido a isso, são francamente "inspiradores" para outros, que lhes decalcam alguns textos, ideias, reflexões. Os segundos estão em muito boa posição para produzir textos inéditos e participar de peito aberto em concursos literários, desafios temáticos, e obras colectivas de poesia ou prosa.
Mais vale parecê-lo do que sê-lo.

Tinha de ser

A primeira impressão que teve quando entrou no Céu, foi a de ver uma laranja cirurgicamente cortada ao meio, uma metade fresca e solar, a outra calcinada e podre. Assim era o Céu: um Rift ao alto como a espinha dorsal de um dinossauro e, de ambos os lados, dois mundos diferentes anichados em vales profundos a perder de vista. Dum dos lados, o Céu pelo qual tantos esperam, a lembrar uma tela de Henri Rousseau, com vegetação luxuriante, cascatas e aves de plumagem colorida, onde as almas vagueavam alegremente, compondo versos e tocando cítara. No lado oposto, um verdadeiro inferno, uma paisagem lunar e vulcânica de terra despida e rochedos de sílex, onde as almas que podia avistar, pareciam mortalmente aborrecidas, sentadas pelos cantos sob uma noite sem luar.
- O Céu e o Inferno? - perguntou ao querubim que o guiava - eu devo estar destinado ao Céu porque sempre fui um ser humano exemplar...
- É tudo o Céu - respondeu-lhe ele - mas você está destinado á parte mais sombria. A outra, é a área dos não-fumadores.

Um cão perdido

Às treze horas de Sábado, tocou a sirene e os operários da fábrica de tecelagem picaram alegremente o cartão, passando de fugida pelos balneários antes de mergulharem no almejado fim-de-semana. Havia de tudo nas suas mentes, os almoços de família, a pescaria para a manhã de Domingo, o jogo da Selecção, a amante, as promoções dos hipermercados, o Sol lá fora. Enquanto estavam longe, o destino trocou-lhes as voltas. O dono da fábrica entrou nela com uma caravana de camiões. Valendo-se do isolamento do lugar, teve o recolhimento e a tranquilidade para organizar tudo: carregaram as máquinas, devidamente embaladas, o resto da produção, a matéria-prima, os acessórios e equipamentos do escritório, carregaram até um pequeno televisor que ele tinha adquirido para o refeitório da rapaziada.
Na Segunda-Feira de manhã foi o cataclismo, noventa e duas pessoas ficaram aos portões da fábrica encerrada, lendo e relendo um pequeno cartaz onde o empresário lhes explicava que fora obrigado a fechar a fábrica devido a dívidas pendentes. As pessoas lamentavam-se choravam, alguns, desorientados, demandaram-no na sua casa, que encontraram igualmente vazia e fechada.
Chegaram os jornalistas das televisões, fizeram entrevistas, gravações, mais de meia hora de falas e prantos que seriam montadas para produzir uma peça de quatro minutos nos noticiários televisivos.
No meio da multidão e dos seus dramas, havia um operário particularmente inconsolável, o Alcobaça, como lhe chamavam. Alcobaça não era um operário como os outros, era o anti-operário, pouco trabalhava porque não era essa a sua função, a função para que fora treinado era agradar aos chefes e os patrões, comunicando-lhes tudo o que se falava de mau e de péssimo a seu respeito. Foram dezoito anos de um trabalho diligente e maquiavélico. Alcobaça, o intriguista e milandeiro, tirando nabos da púcara aos seus camaradas para os servir aos poderosos, já recheados de veneno e fel, Alcobaça, o dissimulado, o imaginativo, inventando conspirações e calúnias que derrubavam quem lhe fizesse sombra ou lhe descobrisse a máscara. Agora, Alcobaça era um ser digno de dó, sentia-se um órfão, um excomungado á porta do templo, um exilado admirando a sua pátria da popa de um navio.
Devido ao seu ar desesperado, Alcobaça foi abordado por uma jornalista. Queria saber dos seus dramas, da sua história. Alcobaça não se conteve e começou a chorar baba e ranho. Ele sabia que não merecia ter ficado para trás, se tinham levado o recheio da fábrica para outra empresa ou país, ele podia ter ajudado como um cúmplice feliz, não era justo. Mas não foi isso que falou para as câmaras: se fecharam a fábrica, lá tinham as suas razões, ele não sabia de nada, mas não era verdade que ele tinha levado todas as máquinas: porque havia sido forçado a agir assim, o patrão tinha deixado junto á casa do segurança, a máquina do café e a máquina das águas, para lhes demonstrar a sua simpatia.

Bloqueio

"As palavras não saem" - gemia aflito o prosador - "As palavras não saem, acudam-me que elas não saem". A prima robusta veio aos saltos, galgando os degraus da escada de três em três, segurou-o pelos fundilhos das calças, levantou-o ao ar aplicando-lhe nas costas umas palmadas valentes para desentalar as palavras. Mas nada. O outro já chorava: "Sufoco! Ai que sufoco!". Já a mulher lhe fazia a Manobra de Heimlich, com gestos ritmados e enérgicos, enquando orava a Deus Nosso Senhor. Quando já estava a desistir, a sua amiga morena entrou no escritório com um desentupidor de ralos em punho, deita-o de costas no chão e toca a bombear a ventosa sobre a boca a ver se as libertava. O prosador olha em volta e começa a acenar muito com ambos os braços. As três estavam seminuas, os rostos afogueados, a saliva e o baton mesclando-se nas partes desnudadas.
Voltou a gritar: "Um ménage à trois, um arraial de sexo na minha casa, e eu aqui preocupado com a porcaria das palavras".

O mundo de Tlön, segundo Borges

« (...) O anterior refere-se aos idiomas do hemisfério austral [de Tlön]. Nos do hemisfério boreal (de cuja Ursprache há pouquíssimos dados no Tomo Onze) a célula primordial não é o verbo, mas o adjectivo monossilábico. O substantivo forma-se por acumulação de adjectivos. Não se diz lua: diz-se aéreo-claro sobre escuro-redondo ou celeste alaranjado-ténue ou qualquer outra combinação. No caso que escolhi a massa de adjectivos corresponde a um objecto real; o facto é puramente fortuito. Na literatura deste hemisfério (tal como no mundo subsistente de Meinong) abundam os objectos ideais, convocados ou dissolvidos num momento, conforme as necessidades poéticas. Determina-os, às vezes, a mera simultaneidade. Há objectos compostos de dois termos, um de carácter visual e outro auditivo: a cor do nascente e o remoto grito de uma ave. Há-os de muitos termos: o sol e a água contra o peito do nadador, o vago rosa trémulo que se vê com os olhos fechados, a sensação de quem se deixa levar por um rio e também pelo sonho. Estes objectos de segundo grau podem combinar-se com outros; o processo, por meio de certas abreviaturas, é praticamente infinito. Há poemas famosos compostos de uma única enorme palavra. Esta palavra integra um objecto poético criado pelo autor. O facto de ninguém acreditar na realidade dos adjectivos, paradoxalmente, faz com que seja interminável o seu número.
« (...) Os metafísicos de Tlön não procuram a verdade, nem sequer a verosimilhança: procuram o assombro. Julgam que a metafísica é um ramo da literatura fantástica. Sabem que um sistema não é outra coisa senão a subordinação de todos os aspectos do universo a um qualquer deles. Até a frase "todos os aspectos" é inaceitável, porque pressupõe outra operação impossível...Uma das escolas de Tlön chega a negar o tempo: raciocina que o presente é indefinido, que o futuro não tem realidade senão como esperança presente, e que o passado não tem realidade senão como recordação presente. Outra escola declara que já decorreu todo o tempo e que a nossa vida é apenas a lembrança ou reflexo crepuscular, e sem dúvida falseado ou mutilado, de um processo irrecuperável. Outra, que a história do universo - e nela as nossas vidas e o pormenor mais ténue das nossas vidas - é a escrita que produz um deus subalterno para se entender com um demónio. Outra, que o universo é comparável a essas criptografias em que não valem senão os símbolos e que só é verdade o que sucede de trezentas em trezentas noites. Outra, que enquanto dormimos aqui, estamos acordados noutro lado e que assim cada homem é dois homens.
« (...) Nos hábitos literários também é omnipotente a ideia de um sujeito único. É raro que os livros sejam assinados. Não existe o conceito de plágio: estabeleceu-se que todas as obras são obra de um só autor, que é intemporal e anónimo. A crítica costuma inventar autores: escolhe duas obras dissemelhantes - o Tao Te King e as 1001 Noites, digamos - atribui-as a um mesmo escritor e a seguir determina com probidade a psicologia desse interessante homme de lettres...Também são diferentes os livros. Os de ficção abrangem um só assunto, com todas as permutações imagináveis. Os de natureza filosófica invariavelmente contêm a tese e a antítese, os rigorosos prós e contras de uma doutrina. Um livro que não contenha o seu contralivro é considerado incompleto.
« (...) As coisas duplicam-se em Tlön; propendem igualmente para se apagarem e para perderem os pormenores quando as esquecem as pessoas. É clássico o exemplo de uma ombreira que perdurou enquanto a frequentava um mendigo e que se perdeu de vista à sua morte. Às vezes uns pássaros, ou um cavalo, já salvaram as ruínas de um anfiteatro»


Jorge Luis Borges, "Ficções", I, 2

Perfil

Hoggarej é um minúsculo estado da África subsariana, uma ditadura, onde os direitos humanos são desprezados, e as mulheres e os criminosos são açoitados na praça pública. Hoggarej beneficia de ser um produtor mundial de armas químicas e biológicas, único complemento económico á produção de tâmaras e figos. No mais, Hoggarej nada possui de relevante: petróleo no subsolo, filões de urânio e metais preciosos ou lucrativas rotas de comércio.
Apesar da sua situação social e política, e do empenho dos seus governantes na produção de armas de destruição maciça, Hoggarej não corre qualquer risco de ser salva ou trazida para a liberdade pelas potências ocidentais.

Pensar pequeno

Depois de muito namorar os bonsais que via nas floristas e nas lojas de decoração, comprou finalmente um, e levou-o para casa com mil cuidados, mais um guia de bonsais, e uma lista de contactos para emergências e necessidades bonsaístas. O seu bonsai ficou em lugar de destaque na sala, num lugar escolhido segundo os princípios do Feng-Shui. Seguiu todas as instruções sobre a água, a luz, o corte das folhas por uma especialista, e telefonava sempre que via uma mancha que podia ser uma praga, ou uma coloração mais triste num ramo que poderia ser sinal de enfraquecimento da planta.
De tanto contemplar a pequena árvore, descobriu que ela dera um fruto, uma maçã em miniatura. Fora numa manhã de Outono, enquanto se vestia para ir para o trabalho. Extasiada com o prodígio, ajoelhou-se diante do bonsai para o ver melhor, e admirou uma ofídica minhoca que se enrolara no ramo do pequeno fruto e agitava o corpo como se quisesse atrair a sua atenção. Com duas unhas compridas e pintadas de rosa, colheu a pequena maçã e depositou-a na língua como se fosse uma pevide. Sem se atrever a provar o sabor, engoliu-a, e ála para o trabalho!
No Metro, a caminho do emprego, Eva pensou nas ressonâncias bíblicas do acto. O bonsai não era, decerto, a Árvore do Conhecimento, mas o facto é que, nunca como naquela manhã, lhe pareceram tão fáceis os problemas de Sudoku.

credo

O advogado perfilou-se por um momento, quando a anciã foi introduzida no seu gabinete. Cumprimentou-a com deferência e ofereceu-lhe uma cadeira diante da secretária. Sentaram-se os dois e ele estudou-a veladamente enquanto ela tentava habituar a vista à penumbra da sala. Apesar da idade, possuía um rosto de traços finos e delicados, com uns olhos grandes de pupilas negras e brilhantes. Deveria ter sido deslumbrante na sua juventude.
- Minha senhora - principiou - a sua presença aqui deve-se a uma disposição testamentária que eu fui incumbido de executar. O meu extinto cliente conheceu-a há muitos anos atrás e eu preciso saber se guarda disso alguma memória. O seu nome era Bernardo Rodrigues.
O rosto da anciã crispou-se. Os seus olhos desviaram-se para o chão, e assim permaneceram, como se toda a sua atenção estivesse concentrada nalgum ponto do mosaico.
- Sinto muito se essa má notícia a perturbou mas um dos itens deste apenso testamentário estabelece como condição que a senhora confirme que se recorda da existência do falecido. Com grande pesar, sinto-me forçado a insistir.
Ela ergueu os olhos e fitou-o. Aos poucos foi readquirindo a expressão serena e altiva que envergava quando entrou.
- O senhor Rodrigues não me era nada - atalhou - era um triste e um desgraçado. Só desejava nunca o ter conhecido.
O advogado pareceu ficar desapontado. Retirou algumas folhas manuscritas de uma pasta e agitou-as no ar como se exibisse uma prova numa sala de audiências.
- O meu cliente tinha uma opinião diferente e deixou apenso ao testamento uma evocação pormenorizada dos tempos em que vocês os dois estiveram comprometidos. Eu poderia ler-lhe o que estas folhas contêm mas, além de advogado de Bernardo Rodrigues, fui seu amigo pessoal durante muitos anos e é em nome dessa amizade que eu lhe peço, como um favor inestimável, que seja a senhora a narrar-me uma história que eu já conheço pelas palavras dele.
Ela manteve-se calada durante algum tempo, como se medisse a conveniência das palavras. A luz que se filtrava por entre os cortinados suavizara-lhe as feições. A voz tremia-lhe quando começou a falar.
- Repito o que já lhe disse. O senhor Rodrigues não me era nada! Nunca estivemos comprometidos, nem tivemos qualquer tipo de ligação que se assemelhe. Mas suponho que ele tenha narrado ou grafado uma versão muito diferente...
- Como lhe dizia, éramos amigos, convivíamos regularmente, e posso afirmar, com alguma segurança, que o conhecia bem. Sempre tive dele a impressão de um homem sereno e bom, algo triste, mas muito humano. O que ele me disse e repetiu, é que vocês dois chegaram a ficar noivos, e que a senhora acabou por se casar com outra pessoa, movida pelo interesse. Admito que isso possa ter sido uma afirmação feita por despeito ou ciúme, mas era essa a sua versão.
- Até que ponto o conhecia?
- Como a um irmão ou um camarada de armas. Frequentamos o mesmo clube durante anos a fio, onde jogávamos dominó e snooker, e fomos amigos pessoais, veio diversas vezes jantar a minha casa e foi professor de piano da minha mulher e, anos mais tarde, da minha filha. Devido a essas circunstâncias, não consigo deixar de ser um pouco parcial neste caso específico, motivo pelo qual me penitencio e pedia-lhe que me revelasse a sua própria versão dos acontecimentos.
- O seu cliente, e note que me custa mesmo a pronunciar o seu nome, vivia na mesma terra que eu, e quase fomos criados juntos, a escola, os amigos, as ócios simples de uma aldeia do interior. Nem amigos éramos, apenas conhecidos. As coisas mudaram quando comecei a andar com aquele que seria o meu marido. Esse homem, que você definiu como humano e bom, começou a perseguir-me. Meteu na cabeça que eu era a mulher da vida dele e transformou isso numa obsessão - queria à viva força que eu fugisse com ele, que nos casássemos. Quando eu tentei explicar-lhe que isso era inconcebível, seguiram-se as cenas de ciúme, as ameaças, o sangue de galinha pintado nos muros da minha casa.
- E a senhora não encorajou, mesmo inadvertidamente, essa paixão do Rodrigues?
- Nunca, juro por tudo o que há de mais sagrado. Esse homem era louco. Casei-me e fui viver para a capital, mas mesmo aí me chegavam cartas dele, e tentativas de me convencer, por telefone, que eu devia reparar um erro grave e refazer com ele a minha vida.
- E não tentou recorrer á polícia?
- Achei que não daria em nada, não havia crime nem ofensas corporais e, naquele tempo, ninguém accionava uma ordem de restrição. Anos mais tarde, apareceu-me lá o seu amigo e tentou persuadir-me a ir embora com ele, começou muito bem a argumentar e aí alimentei a esperança de que lhe conseguiria demonstrar como o seu comportamento era absurdo, mas depressa vieram os gritos e as ameaças, finalmente, agarrou pelo pescoço o meu filho de sete anos e ameaçou que o matava ali mesmo se eu não mudasse de ideias.
-E...?
-Tinham acorrido muitos vizinhos ao apartamento e, entre gritos e insultos de pessoas amigas, ele amedrontou-se, largou o meu filho e fugiu. O senhor não me conhece mas eu posso afiançar-lhe isto: eu daria a vida pelos meus filhos, eles são o que há de mais importante na vida, e aquele acto fez-me repensar as prioridades. Eu e o meu marido emigramos então, e lá por fora temos vivido até aos dias de hoje, quase como expatriados. Exigimos aos nossos familiares segredo absoluto sobre o nosso paradeiro, mas ainda assim, mantivemos o íntimo receio de que ele nos encontrasse.
- E nunca mais soube nada dele ?
- Falava-se coisas. Vim a saber que ele se tinha casado e tive a esperança de que o pesadelo tivesse terminado, mas os meus pais escreveram-me a contar que ele tinha voltado á aldeia, e andara a inquirir a este e aquele se sabiam de mim, porque tinha ficado com umas coisas minhas que queria devolver.
O advogado voltou a guardar as folhas amarelecidas. Tinham sido elas que o haviam persuadido a aceitar o estranho pedido do seu amigo, ainda que a narrativa que ouvira não fizesse justiça ao que ele escrevera e narrara. Com um suspiro de fadiga contornou a secretária e dirigiu-se a uma das paredes do gabinete. Pôs a descoberto um cofre por detrás de um quadro com uma natureza morta e abriu-o, retirando do seu interior um objecto envolto num saco de plástico.
- O Rodrigues parece nunca ter realmente recuperado de a ter perdido. Casou-se duas vezes e passou a vida a errar de ocupação em ocupação e, para o fim, doente mas ainda relativamente novo, confinou-se numa Casa de Repouso, onde permaneceu até à morte. Os poucos bens que o senhor Rodrigues conseguiu reunir foram destinados ao dote para a Casa de Repouso e a herança de que fez beneficiárias as suas duas ex-mulheres. O mesmo testamento contém um apenso de que resulta a existência deste objecto que deve ser confiado à senhora - enquanto falava, tirou do saco a miniatura de uma arca em jaspe com aplicações em prata - Talvez este objecto lhe seja familiar, o Bernardo Rodrigues dizia que lhe tinha oferecido ou tentado oferecer, mas que a senhora recusara por já estar comprometida com um homem endinheirado. Esta arca contém as cinzas do coração do senhor Rodrigues".
Ela deu um salto, apoiando-se com força ao encosto da cadeira e só então o advogado se deu conta da sua brusquidão. Arrependido, ofereceu-lhe um copo de água e fez uma pausa, para permitir que ela se refizesse do choque.
- A senhora está neste país temporariamente e acedeu a vir a esta entrevista sem conhecer o seu verdadeiro teor, atitude pela qual lhe estou profundamente grato. O testamento do falecido confere-lhe a posse deste objecto, mas isso continua a ser uma decisão sua que eu respeitarei inteiramente. O senhor Rodrigues deixou indicações meticulosas para que o seu coração fosse extraído do seu cadáver, cremado e as suas cinzas depositadas nesta arquinha. Porque era sua vontade expressa que fosse entregue à senhora, o coração que sempre lhe pertenceu. Isto era, para ele, uma questão de justiça.
Ela respirou fundo, erguendo-se da cadeira com gestos firmes. Com o braço afastou de si a arca, fazendo-a deslizar sobre o tampo de vidro da secretária.
- Eu não o quero, não quero a arca, nem as cinzas. Deite as cinzas á terra da sua horta, se a tiver, dizem que a cinza é boa para os legumes, e, quanto á arca, talvez lhe sirva para guardar clipes, ou charutos. Um bom dia para si, doutor.
Ele pronunciou entre dentes uma despedida em resposta. Fechou a porta do gabinete e contemplou a pequena arca sobre a mesa.
- Já me tinhas avisado, velho amigo - murmurou - ela não passa de uma cabra mentirosa!

3 histórias Zen

Daigô, discípulo do mestre Hainu, recebeu dele o seguinte ensinamento: Atingirás a Iluminação quando vires o bicho-da-seda no meio da rede de metal. Como trabalhava numa fábrica de teia metálica, Daigô esteve sempre atento para tentar encontrar o bicho-da-seda nos painéis de rede que eram enrolados à sua frente, mas isso nunca aconteceu. Quando um dia saiu da fábrica, viu um pequeno insecto pousado na carroçaria metalizada do seu carro, uma borboleta, que se camuflara e tomara o tom cinzento do carro.
E Daigô atingiu a Iluminação.
*
Rosa Pereira perseguia a máxima Zen de "ouvir o som de uma mão", e punha toda a sua energia nisso. Com uma das mãos encostada ao ouvido, recitava sutras e repetia parábolas Zen. Finalmente, ouviu qualquer coisa, o rumor ténue de um parasita tropical que escavara um nicho no interior da sua mão e desovava dentro dela.
E Rosa atingiu a Iluminação.
*
Johnny Sacramento, budista luso-americano, ingressou no retiro budista de Alcogulhe para encontrar alguma paz e, se possível, a Iluminação. Deram-lhe uma cela austera com uma esteira, um cântaro com água e um candeeiro eléctrico no chão, para poder ler à noite. Na primeira noite que aí passou, quando foi para se estender na esteira, escorregou e estilhaçou a lâmpada com a testa.
E Johnny Sacramento atingiu a Iluminação.

Entrevista de emprego

- O que é que você já fez até hoje, Petronius?
- Trabalhei numa villa, amanhava a terra e cuidava dos animais, também fui carregador na Capadócia e escravo de liteira na Úmbria...
- Diga-me, Petronius, e isto é muito importante: você gosta de conviver com as pessoas, estar ao lado delas dia e noite, se necessário for?
- Sim, amo, eu fui talhado para servir num palácio ou ser vendedor de feira.
- E trabalho de equipa? Você dá-se bem em trabalho de equipa?
- Certamente, meu amo, não seria difícil fazerem de mim um membro das equipas de manutenção das estradas do Império, ou um trabalhador como aqueles que se vê lá fora, a colher uvas.
- Ainda bem, Petronius. Na verdade, precisamos de braços é para as trirremes, precisamos de remadores, de gente que gosta de estar com outras pessoas e trabalhar em sintonia. Costumo dizer que, se um escravo não gosta de trabalhar em equipa, podemos arrancar-lhe a pele das costas com um chicote, que nunca obteremos um bom remador...

Desconexo

Ele podia estar muito longe, do outro lado do mundo, entrevistando monges na Birmânia ou mirando os coatis numa árvore dos trópicos. Mas está ali mesmo, ao lado, na cama e na sala, em todas as divisões da casa onde os seus corpos vivem se estorvando, rebeldes. A distância do seu silêncio constrangido faz parecer mesmo que ele está do outro lado do mundo.
*
Por desleixo, deixou expirar o anti-vírus do seu computador. E agora, tinha a preocupação de não espirrar sobre o teclado.
*
Sem saberem que ele ainda estava vivo, o enterraram. Como a terra estava fresca, abriu uma nesga no caixão e conseguiu esgueirar-se. O coveiro ouviu depois uns sons estranhos e decidiu averiguar.
A enxada o colheu pelo alto da cabeça, quando abria caminho para a superfície, comendo terra.
*
Depois de ter vencido a montanha K2, o que mais apreciou foi voltar para a sua amada, e conquistar sem acampamentos de base, aqueles píncaros com mamilos sem neve no cume.
*
Comprou um aquário e o povoou de peixinhos escolhidos a dedo na loja de animais. Misteriosamente, eles foram morrendo um a um. Quando só havia dois, testemunhou uma cena elucidativa: o maior deles atacando o outro, fora aquele peixe carnívoro quem lhe dizimara o cardume inteiro. Com um grito de raiva, pegou no peixe e o atirou pela sanita abaixo. Logo depois, vestiu o seu calção de banho de listas brancas e vermelhas, e tomou o seu lugar no aquário.
*
Não custa encontrar a felicidade. O que custa mesmo é ser honesto e ter de escrever aquele papel anunciando o que se encontrara, prometendo entregá-la a quem provar ser o seu dono.

A melhor montanha russa

Viagem

Firmou os pés contra a base do assento e preparou-se. Começou a mover-se, conseguia sentir que se movia, sozinho, no vagão da montanha-russa, uns poucos metros apenas, e despenhou-se, uma descida abrupta, em parafuso, acumulando energia, depois o cotovelo do final da descida e logo uma subida a pique, enquanto o coração parecia ter deixado de bater no nadir precedente. Terminada a subida, um desaceleramento, para respirar um pouco, e uma nova descida, um looping de cortar a respiração, coroado com uma série alternada de parafusos, durante a qual passava rente a outros vagões, que ressoavam perto, num efeito de storm. Tentou engolir golfadas de ar, e sentiu os lábios molhados, e a cabeça. Abriu os olhos. Nunca mais se despachavam. Estava preso á cadeira eléctrica, com os eléctrodos já ligados ao corpo. Um funcionário aspergia o seu corpo com um líquido próprio para acelerar a electrocução. Olhou em volta, sem emoção. Vou fechar os olhos, disse para si, não porque tenha medo, mas porque já não suporto mais olhar para as vossas caras, meus cabrões. Voltou á montanha-russa do seu devaneio, a cadeira eléctrica era o seu vagão, pensando só nisso, iniciou um novo looping, agarrando com força os braços da cadeira. O céu escurecera, nuvens plúmbeas de tempestade, carregadas de electricidade. Iniciou um troço coberto, mergulhando em espiral num túnel em total escuridão. Quando saiu á luz, percebeu que a tempestade eléctrica estava eminente. Ele bem a viu, a nuvem negra no topo da subida, passou por ela com a energia a zunir á sua volta e os pêlos dos braços eriçados. Cruzou-a sem sentir a descarga, depois, uma nova descida, suave, mas o vagão foi desacelerando, a electricidade da nuvem puxava-o de volta, e o vagão começou a subir em marcha-atrás. É agora, disse para si mesmo, enquanto os acumuladores de energia chiavam em volta. Recostou-se na cadeira eléctrica do vagão com um sorriso firme, e estreitou na mão direita a mão decepada de Sarah, a sua última vítima, a doce e esguia Sarah de longos cabelos fulvos. Sarah guiava-o para a morte com a mão fria, áspera do sangue seco sobre a pele.

Ponto de honra

Na estação de comboios semi-deserta, a criança cigana aproximou-se de um homem na sala de espera, estendendo-lhe a mão aberta. Ele arregalou os olhos. Não dou esmola, nunca dou esmola, explicou pacientemente, e não é porque não tenha dinheiro ou não seja um homem generoso, mas apenas por opção filosófica. É o Estado e as suas instituições, que tem o dever de sanar a fome e as injustiças sociais, de dar uma solução a todos os dramas e problemas que afligem as pessoas enquanto súbditos do poder instituído. Eu sou apenas um cidadão comum, consciente e responsável, e por isso digo e repito: se precisa de ajuda, recorra às instituições oficiais, é para isso que elas existem. Ainda as suas palavras não se tinham dissipado nos ângulos bolorentos da sala de espera, e irromperam na divisão dois enfermeiros de bata branca que o agarraram com determinação, enfiando-o dentro de uma camisa-de-forças. Enquanto era arrastado para a saída, concluiu a sua dissertação: "E nunca se esqueça disto: há instituições para tudo".

Sem defesas

«O meu organismo, como o meu carácter, é uma planície sem relevo nem detalhes. Sou uma pessoa muito influenzável e, à conta disso, ando quase sempre com uma gripalhada do caraças».

O cu e as calças

«Admitimos vendedora-comissionista para venda de uma nova linha de laxativos e fármacos anti-diarreicos. Exigimos um bom palminho de cara. Resposta para este Apartado, com foto tipo passe e foto de corpo inteiro»

BRG (uma pequena fantasia)

Retirei hoje da minha estante e apenas por breves instantes, o "Livro Negro de Tlön", de autor e editor não referidos.
Hesitei muito antes de vos falar deste pequeno livro, porque costumo mantê-lo escondido numa prateleira alta, por detrás de uns quantos livros que li uma vez e que não faço tenções de voltar a ler. Soa estranho querer falar de um livro que se pretende oculto e esquecido entre os seus pares, mas tenho bons motivos para isso. Este livro estava entre muitos, num caixote com livros velhos que comprei numa venda de garagem. O anterior proprietário falecera recentemente, e a viúva estava a desfazer-se das suas coisas pessoais, talvez por necessidade material ou para aligeirar o peso da sua memória. Em casa, examinando o espólio, peguei pela primeira vez no livro. Lombada envelhecida, castanha, com o título em letras douradas. Na primeira página, novamente o título. Abri a página seguinte e seguiu-se o espanto. Todas as restantes páginas do livro estavam pintadas de negro. Observei-as a contra-luz para ver se distinguia a silhueta de letras ou cifras sob a tinta, mas não divisei nada. Depositei o livro em cima de uma mesa, e por ali ficou uns dias. Mas aquilo intrigava-me. Para que é que alguém editaria um livro que não se pode ler? Acabei por voltar à casa onde o comprara. A viúva atendeu-me à porta, lembrava-se de me ter vendido os livros. Inquiri-a sobre o Livro Negro e a sua expressão tornou-se sombria. "Na escola" - disse-me - "Ensinam-nos verdades rudimentares, mas úteis. Devem ter-lhe ensinado, como a mim, que a cor branca representa a ausência de todas as cores e que o negro é a reunião de todas elas...". Como se tivesse acabado de explicar tudo, agradeceu-me a visita e fechou gentilmente a porta.
Voltei a casa, decidido a não pensar mais no assunto. Não tinha nem tenho vagar para mistérios. Sou jornalista free-lancer e tento escrever uns contos e ensaios no tempo que me sobra. O livro, coloquei-o ao acaso a um canto da secretária, ao lado do monitor. Posto de parte como uma coisa sem préstimo, o livro acabou por se insinuar nas minhas rotinas e hábitos.
Das primeiras vezes foi involuntário. Não sabia como estruturar uma peça que estava a escrever, ou que rumo dar a trama de um conto, recostava-me na cadeira e folheava pensativo as páginas do Livro, que estava ali, à mão de semear. Estranhamente, esse gesto tão fortuito tinha o condão de ordenar as ideias e as palavras dentro de mim, e os artigos e histórias ganhavam forma. Só tinha de os escrever no teclado como se me fossem ditados. Primeiro, encarei o fenómeno como se o livro fosse um talismã, um signo que me trazia bons ventos, mas depressa descobri que era mais do que isso. O livro era um veículo, catalisava o que eu era e sentia, impelindo-me na descoberta daquilo que eu procurava. Não compreendia como, mas aceitei de bom-grado o prodígio em função do que ele me concedia. As palavras e as ideias fluíam com uma profusão tal que, a dado passo, abdiquei de as escrever e contentava-me em saboreá-las, construindo diáfanas e coerentes arquitecturas mentais. Agradavam-me sobremaneira as histórias "lidas" no Livro Negro. Abria-o numa página ao acaso e em poucos instantes sentia o começo de uma história a insinuar-se, emergindo em imagens e palavras, folheava as páginas e a história progredia, cruzava-se com muitas outras antes de um desenlace que, muitas vezes, tinha algo de estranho e fantástico, como se tivesse sido produzido pelo sonho de alguém. Numa das minhas leituras, imaginava a partir da superfície negra de uma página, a vida de um objecto aparentemente inanimado, uma travessa de louça pendurada na parede de uma cozinha, que testemunha as vivências e dramas de sucessivas gerações dessa casa. Absorto na contemplação interior dessas histórias, pareceu-me que uma das personagens me era familiar, e apercebi-me, com uma sensação gelada no estômago, que essa personagem era a minha mãe. Fechei o livro, instintivamente, e estive uns dias sem lhe tocar. Quando voltei a ele, iniciei a leitura de uma nova história, totalmente diferente da anterior, mas no curso da qual me deparei com um episódio igualmente perturbador: era a descrição minuciosa de um pesadelo recorrente que me atormentava o sono quando eu tinha uns vinte anos, e no qual me via a mergulhar inexoravelmente num abismo, arrastado para o fundo pelo peso das palavras presas na garganta e que eu não conseguia soltar.
No dia seguinte, voltei a procurar a viúva mas, para meu desconcerto, a casa estava vazia, abandonada. Uma tabuleta no relvado oferecia a casa para compra. Inquiri junto a um vizinho, e este informou-me que ela se havia mudado, mas não sabia para onde. Regressei a casa a pé, um pouco desorientado. Não sabia o que pensar do Livro, ou do modo como ele estava a afectar a minha vida, e impunha-se a questão sobre qual seria a melhor decisão a tomar a respeito. Significativamente, porque aprendi a desconfiar do acaso, quando cheguei a casa vi a viúva diante da minha porta, a tocar a campainha. Perguntei-lhe como ela tinha sabido onde eu morava e, sobretudo, como adivinhara que eu andava à sua procura. Ela não sabia, estava a responder a um anúncio que eu colocara para contratar uma mulher-a-dias. Fi-la entrar, pedi-lhe desculpa de lhe voltar a falar do "Livro Negro de Tlön", mas precisava de saber mais sobre o assunto.
Ela pareceu compreender. Aquele era um drama a que já tinha assistido antes. O Livro Negro, explicou, era o Livro dos Livros, o espelho de obsidiana de todo o espírito humano, de todas as ideias e todas as histórias, vividas e por viver, imaginadas ou sonhadas. Era difícil resistir ao apelo de um objecto tão poderoso.
-Confesso que ele agora me assusta um pouco - admiti.
Ela assentiu com a cabeça. Remexeu na carteira e retirou um pequeno papel dobrado.
- Isto é um retalho de uma folha de enciclopédia, que o meu marido usava como marcador no livro. Fala de uma parábola Sufi que ele muito prezava, e reza mais ou menos isto: um homem entra num palácio de dez mil portas, e note que dez mil é uma imagem do Infinito, e nesse palácio ele erra durante anos num labirinto de quartos e corredores. O que é que esse homem acaba por avistar?
- ...?
- Os seus próprios calcanhares. O Livro Negro é como o palácio de dez mil portas. Quem o percorre, inevitavelmente, encontra sua própria história, e aí já não pode fugir mais dela. De cada vez que pegar no Livro, a sua vida vai reaparecer noutras histórias, e vai saber sempre um pouco mais, dos anos para a frente, de tudo o que lhe está para lhe acontecer, e àqueles que ama. E esse é um conhecimento que pode enlouquecer um homem.
- E suponho que não se consegue destruir o Livro...
- Não sei se será objectivamente possível. Mas, de toda a forma, o bom-senso aconselha-nos a não o tentar. Destruído o Livro, será que a espécie humana e toda a sua História não seriam apagados do tecido do Universo?
A viúva levantou-se, tomando o caminho da porta. Ela achava melhor procurar emprego numa outra casa, porque queria estar longe daquela obra. Antes de sair, teve tempo para um conselho: pediu-me que escondesse o livro num sítio qualquer, podia acontecer que ele ganhasse mofo e vermes e se tornasse apenas um pitoresco pretexto de conversa para eu ter um dia diante de uma lareira, com os meus filhos e netos. Agradeci a sugestão. Não sabia, e ainda não sei, se essa história se resolve dessa forma, e é em virtude dessa incerteza que escrevo estas linhas. Pode acontecer que, um dia, vocês encontrem um livro semelhante num depósito de livros ou nos salvados de uma casa, e é conveniente vocês saberem que devem estar preparados para tudo.

Não existe

Confesso, que não sou um dos quatro portugueses que pagaram adiantado para fazer turismo espacial.
(Viver o dia-a-dia em Portugal coloca-me em face de situações e comportamentos tão absurdos que, por vezes, sinto que vivo numa outra Galáxia)

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...