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Servida gelada

Ao Inácio, custava-lhe correr com a mulher, mas ela não lhe deixava alternativa. A mulher era apenas a mulher, desleixada e sensaborona, atirada pelos sofás da casa a beber chocolate quente às cinco da tarde e a ver telenovelas venezuelanas por cabo. Não lhe seria penoso se não fosse o contraste com as amantes que mantinha, belas e perfumadas, recebendo-o nos seus ninhos num paroxismo de deleite e prazer. Despediu a mulher com requintes de crueldade, que sim, ia dar-lhe tudo a que ela tinha direito, do mesmo modo que se dá de comer a um peixe feio num aquário, por compaixão, porque ela era uma coisa sem préstimo, uma lástima de mulher no lar e na cama. Depois de se separar dela, sentiu-se um outro homem, fresco e renovado, e a sua auto-estima subiu em flecha a ponto de não se confinar às suas amantes, procurando novas aventuras na torrente da vida nocturna.

Meses depois da separação, viu de relance uma mulher espantosa no Centro Comercial ao pé de casa, uma aparição vestida de negro, com longos cabelos dourados. Seguiu-a por um dédalo de lojas, até a conseguir abordar. Encarou-a de frente diante de uma joalharia e Zás! - os tomates caíram-lhe aos pés. Era a sua ex. Mas nada tinha da sua ex. Bem vestida e maquilhada, vestido justo a fazer justiça às curvas do seu corpo e sapatos de cunha, sapatos de cunha! Nunca antes lhes vira uns desses calçados, sempre aquelas sapatas de salto raso de cortiça. Cumprimentaram-se. Como vais? Bem, melhor do que nunca, e tu? Também. Estás diferente!! Queres tomar alguma coisa? Em casa, comprei um apartamento aqui perto com o dinheiro que me deste, podemos ir até lá, beber um copo e foder em nome dos velhos tempos! Aceitou num impulso, o desejo lavrando fundo no ventre. Foram a pé, a conversar, ele muito intrigado, mas feliz da vida com a mudança. A que se deve essa metamorfose? Conheci outros homens, que tiveram o talento e a paciência para me fazer desabrochar, e tenho experimentado de tudo um pouco, de sexo em grupo a práticas sado-maso. Ele não acusou a indirecta, de tão excitado que estava, talvez a pudesse encaixar na sua vida, uma esposa na nova versão de amante de reserva.
Chegaram ao apartamento dela, o lugar mais improvável onde a imaginaria viver, decorado com gosto em tons quentes e sensuais. Ela serviu-lhe uma bebida e deixou-o no quarto, pedindo-lhe para ele se por à vontade. Ela regressou momentos depois, nua sob uma camisa de dormir. Ele já estava nu sobre o edredon vermelho, pronto para a festa. Enrolaram-se um pouco no mel, mas ela pediu-lhe calma. Prendeu-lhe os pulsos à cabeceira com umas algemas, colocou uma música adequada e dançou em cima do colchão em movimentos langorosos. Quando ele lhe pediu mais, ela retirou duma gaveta um chicote de pontas de nó. Inácio encolheu-se, ela sabia que ele não tinha muita simpatia por essas práticas, e por tudo o que se traduzisse por dor. Ela assentiu: "Tenho um outro brinquedo melhor para ti, comprei-o de propósito para esta ocasião". E, remexendo de novo na gaveta, retirou dela uma enorme tesoura de capador.

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