Reality-Te-Vê

Ir ao dentista é uma das provações mais redutoras que se oferecem a uma pessoa, fica-se ali pregado a uma cadeira inclinada com a força de 3 G's de tensão, com a boca repuxada para um lado e para outro, e com o som envolvente da broca a aturdir os ouvidos, a mesma música celestial que devem ouvir nos fones os profetas da desgraça e os 4 Cavaleiros do Apocalipse. Nada há a fazer senão esperar, com a mesma estóica quietação de uma pessoa equilibrada presa dentro de uma camisa-de-forças. Desta vez, no entanto, houve uma nota dissonante nessa experiência, uma frase utilitária que suavizou as arestas com a carga semântica de um verso ou um Haikai. Sobre a cena, um braço metálico anodizado suspendia do tecto um conjunto circular de luzes. No topo, conseguia ver o interruptor e um disco circular com dígitos. Uma frase identificava-o: "Regulador de Iluminância".

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