Otis

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O amor, por vezes, é uma doença, um estado de sítio da alma. Ama-se até ao último estertor da vida e até mesmo depois disso, se os vermes o permitirem e deixarem para mais tarde um resquício de coração enquanto se banqueteiam com a merda dos intestinos. No círculo de amigos de Abel, ninguém compreendia a sua devoção inquebrantável à companheira, Teresa, a bela e ardente Teresa, que não hesitava por um instante em se envolver com outros homens, perfeitos estranhos e, sempre que podia, em fugir com eles, enfiando-se nos seus carros ou nas suas casas. Abel atrofiava-se, sofria para dentro de cada vez que isso sucedia. Inevitavelmente, ela ligava-lhe: Estou em tal parte, assim, assim, e ele inflava-se de alegria por saber que não a tinha perdido, e corria a resgatá-la, num quarto de motel ou na berma da estrada onde se apeara, em sítios a dezenas ou centenas de quilómetros, fosse onde fosse. Encontrava-a muitas vezes melancólica, amesquinhada, por vezes arreavam-lhe. Levava-a para casa, dava-lhe banho e vestia-a. Cuidava dela enquanto Teresa chorava baixinho e pedia desculpa: Amo-te muito, não volta a acontecer. Abel encolhia os ombros, sempre solícito e terno. Também te amo! Um dia não vais sentir necessidade de partir e vamos ser muito felizes os dois!
Os amigos, sempre os homens, moíam-lhe o juízo: Parece que tens gosto em ser corno, manda-a à fava porque, mulheres, é o que não falta por aí. Mas Abel não admitia a mínima mácula nas referências a Teresa, e respondia com serenidade: "Ninguém a substitui, e se ela é boa para os outros, também é boa para mim".
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Porque o jogo era uma das ocupações preferenciais de Abel e dos amigos, três deles convidaram-no a integrar uma equipa de jogo online de Silver Blade, um jogo de perícia e estratégia. Ia haver um torneio daí a quinze dias e concordaram todos em que, até essa data, iam dedicar umas quatro horas por dia a rotinarem-se no jogo. Aquilo tinha de ser levado a sério, porque o torneio ia colocar em confronto os melhores jogadores do mundo, e tudo ia acontecer numa só noite, de Sábado para Domingo - catorze horas consecutivas de jogo que iria qualificar os vencedores de série e dentre estes, o vencedor do torneio. Ganhar o price money e os prémios publicitários do torneio entusiasmava todos os elementos da equipa. Abel disponibilizou o escritório da sua casa para a sede da equipa, e todos concordaram.
Num fim de tarde de Domingo, a apenas seis dias da data do torneio, quando os outros membros da equipa entraram na casa de Abel, perceberam logo que aquele era um dia não. Teresa devia ter fugido novamente, porque Abel recebeu-os com gestos lentos e arrastados, acusando na voz o álcool que já tinha ingerido. No ar, omnipresente, a música I've Got Dreams to Remember, do seu anjo triste, Otis Redding, que Abel entoava enquanto os guiava até ao escritório: Honey I saw you there last night /Another mans arms holding you tight / Nobody knows what I feeled inside / All I know, I walked away and cried / I've Got Dreams...
Fizeram-no sentar-se. Devemos jogar? Será que vamos estar aptos a enfrentar o torneio? Abel afirmou que sim, estava capaz, iam treinar e vencer os outros guerreiros. Os amigos duvidaram, aquele jogo ia exigir o máximo da equipa, não iriam conseguir competir com menos um elemento. Um dos amigos, mostrou-se mesmo revoltado. Foi um erro, clamava, não se põem em campo pessoas debilitadas, porque ninguém joga para perder; e propôs que Abel saísse da equipa. Os outros pareceram ponderar a hipótese, perante o dócil espanto de Abel. Amanhã, estou bem, ainda disse. Só um deles se mostrou contrariado com a ideia, Mário, o seu amigo de muitos anos. Substituir Abel, estava fora de questão, defendeu com firmeza. Abel era, talvez, o melhor jogador entre os quatro, e todos se conheciam há muitos anos, havia muito mais em jogo do que um torneio e chances futuras. Eram ou não eram todos amigos? A sua oratória convenceu-os. Ainda havia hipóteses, acabaram por concordar, temos mostrado online que somos uma boa equipa e, se não houver mais deslizes, vamos prová-lo no torneio. Ainda se o gajo ouvisse outra coisa, alguma coisa mais actual, insistiu o seu detractor.
O conflito ficou sanado, conversaram mais um pouco enquanto bebiam um copo no pequeno bar da sala, sempre com a mesma música de Otis a pairar em volta. Um a um foram saindo. "Vê se amanhã estas em forma!", instavam à porta da rua.
Mário ficou mais um pouco, enfiou os copos no lava-louça, e despediu-se. Abel acompanhou-o à rua. Ia fumar um cigarro, para ver se ordenava ideias. Mário ofereceu-lhe um. Abel acendeu-o e sentou-se na berma do passeio, sob a cacimba da noite.
- Até amanhã, Abel.
- Adeus Mário, e obrigado!
Mário afastou-se pela rua deserta e, quando mal se ouvia o eco dos seus passos, Abel acrescentou num fio de voz: "Trata bem dela, Mário!".

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