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os cães têm direito ao Céu

No Vale das Sombras, as almas-sombra aguardavam. Não podiam fazer outra coisa. Algures num futuro indeterminado levariam cada uma delas para encorpar novamente no mundo da superfície. Vagueavam para um lado e para outro como negras hastes de trigo sob a brisa, alguns deles não se resignavam e continuavam a cismar nas vidas passadas, nos erros e no que ficara por fazer, esses seriam os perturbados e ansiosos, perturbados mesmo depois da sua memória ser anulada, iniciando uma nova vida à luz do Sol com uma personalidade desconfortável e irrequieta que poderia mergulhar até á loucura. Mas a maior parte deles não manifestava sentimentos, conscientes mas inertes, ainda revivendo sem revolta nem paixão as suas existências cumpridas como pessoa, cão, mosca, rato. Uma luz a descer no alto, era sinal da chegada do anjo-carcereiro. Não era um anjo qualquer. Fora escolhido por ser o mais puro e o mais brilhante, característica que realçava com um potente luz fluorescente sobre a cabeça. Nas costas, em vez das asas felpudas das iluminuras, trazia um moderno rotor de hélices que fazia acompanhar a sua chegada de um ruído atroz que os atraía como um chamamento. Como todos os seres puros e todos os anjos, era idiota. Ao fim de tantas Eras a lidar com os seres-sombra, começara a ficar contaminado. Na brancura da sua carne desenhavam-se os músculos e veias com a cor pálida do chumbo. Para esconder isso, começara a usar sobre a pele, como escamas de armadura samurai, placas brilhantes de material radioactivo que o faziam resplandecer nas trevas, mas aceleravam a sua decadência e fim.
Olhando em volta, elegeu um, escusando-se a responder às suas ansiosas questões, e abraçou-o para o transportar para a torrente do esquecimento. Enquanto se elevavam nos ares, uma oração varreu o vale como um suspiro: "Que o ar te seja leve!".

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