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Luz

Ela poderia, se quisesse, usar roupas deslumbrantes. Os seus inúmeros roupeiros estavam repletos de vestidos de púrpura, cetim e seda; de casacos e mantilhas de pele; de bolsas e elegantes pares de sapatos. Possuía guarda-jóias em ónix, cheios de peças iridiscentes: colares, tiaras, pulseiras e anéis em ouro e prata guarnecidos de rubis, diamantes e turquesas. O interior da sua mansão possuía salas amplas e espaçosas que se tornavam ainda maiores devido á profusão dos espelhos, porque havia espelhos e imagens reflectidas para onde quer que se olhasse - nas paredes e nos vidros dos quadros, nos tectos em volta dos lustres e na face interior de todas as portas. Das obras de arte dessa mansão, aquela que costumava atrair a admiração de todos os convidados era um retrato a óleo da anfitriã que fora pintado pelo mestre Sílvio Abreu. O pintor retratara-a nos jardins, reclinada sobre uma fonte. O reflexo do Sol na água produzia jogos de luz no seu rosto gracioso e no longo vestido branco, que seduziam o olhar mais desprendido num suave quebranto. Há dois anos que ela não enverga nenhum desses vestidos nem se adorna com as suas jóias, esquecida de toda a alegria e de toda a vaidade. Há dois anos que não sai do mesmo lugar da casa, encolhida com uma expressão demente num canto obscuro de uma pequena despensa. Ninguém a conseguiu tirar dali, sendo alimentada e cuidada pelos seus. Durante esse tempo todo, permaneceu alimentando o mesmo terror que sentira quando reentrara na sua própria casa, esmagada por um medo atroz dos inúmeros espelhos da mansão que lhe poderiam mostrar o rosto que agora era o seu, transformado numa máscara hórrida de chagas e carne viva.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...