Hospedaria

Vieram pelos canos, aproveitando a correnteza canalizada, carapaça mole, miolo pegajoso, as inúmeras patinhas se movendo em duas fiadas distintas, cronometradas e metronómicas, como os remos das regatas. Na estação de destino apearam-se, olhos microscópicos em busca de um hospedeiro. Quando o encontravam, saltitavam até ele e se colavam na pele, o agente químico da carapaça adormentava a pele como uma anestesia, e o bicharoco escavava uma cova e desovava com abundância. Logo depois morriam e a carcaça morta do bicho da carapaça se clareava até ganhar a cor da pele do seu anfitrião. Sob o cadáver da mãe, que os ocultava, os bicharocos nasciam às dezenas e viajavam pelo corpo do hospedeiro, e o ciclo se reiniciava: maturação, acasalamento, desova. Mais bocas famintas e o hospedeiro cada vez mais magro e chupado. Enquanto se entregavam às delícias do seu Spa, as pessoas encontravam-no e perguntavam do seu estado: Estás com más cara! O que tens? Não sei - respondia - sinto um vazio enorme cá dentro como se fosse um queijo suíço!

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