Hospedaria 2

Uma lagoa pequena em vias de se converter num pequeno pântano infecto, coroada de árvores com ramos que pendiam sobre a água e os caniços. Na extremidade de um desses ramos vivia uma pequena sanguessuga, uma coisinha adorável e viscosa que desenvolvera um modo muito próprio de operar. Aguardava, de vigília, suspensa de um ramo. Cedo ou tarde alguém aparecia, um cão sedento ou um gato á caça de ratazanas, e ela largava-se da árvore e fixava-se no hospedeiro, bebendo do seu sangue até à saciedade. Podia permanecer nele até ao mínimo indício de perigo, e então deixava-se cair e regressava ao seu ramo, de atalaia. As pessoas também faziam parte da dieta, sobretudo crianças pequenas a brincar ou à coca de rãs, que não ofereciam grande ameaça, a não ser uma tentativa débil de se coçarem no sítio onde se instalava. Aprendera a evitar os adultos, sobretudo aqueles armados com pequenos tições odoríferos. Numa noite, teve de tentar a sorte com uma pessoa crescida, porque o seu organismo pedia-lhe sangue. Admirou aquela mulher nua de pele de marfim e longos cabelos negros que parecia deslizar sobre a erva da margem, olhando a lua nas águas quietas. Saltou da árvore e ferrou-lhe na pele. Coisa inaudita, a sanguessuga emagreceu e ficou reduzida a uma pele translúcida e seca a esvoaçar no ar. Os seus instintos e experiência ainda não a tinham ensinado a evitar uma pessoa crescida como aquela, de longos caninos afiados e lábios pintalgados de sangue.

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