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Deixem-me respirar

Num planeta em tudo semelhante à Terra, até mesmo na caprichosa espiral evolutiva que produziu uma espécie erecta dominante, os seus habitantes viram-se empurrados contra a escassez dos recursos disponíveis. A civilização estava prestes a colapsar, a implodir sobre si mesma numa sucessão de guerras fratricidas pela conquista do pouco terreno arável e produtivo. A elite dominante, detentora da ciência e da força, resguardou o seu poder e privilégios, alterando eugenicamente o grosso da população, cuja taxa de natalidade era galopante. Os recém-nascidos do planeta passaram a representar uma mutação evolutiva: os seus organismos não precisavam de alimentos sólidos ou líquidos, retiravam do ar os nutrientes de que precisavam para sobreviver, os dominados tornaram-se em poucas gerações uma espécie exclusivamente aerofágica, de corpo e membros delgados para reduzir a necessidade de calorias empregues na locomoção, e largas e protuberantes narinas em cujos meandros haviam convergido os sentidos do olfacto e do paladar. Este último, como todas as fontes de prazer, era essencial para o equilíbrio psicológico das pessoas, e para a manutenção do poder e prerrogativas da classe superior, que permanecera fisiologicamente inalterada. As multidões comiam todas juntas em extensos refeitórios estanques onde, ao ar, e com o emprego de gigantescos ventiladores, eram adicionados aromas dos alimentos tradicionais do planeta, que satisfaziam os seus sentidos e fortalecia a identidade colectiva. Havia aromas de comidas e frutos, de bebidas licorosas e sobremesas adocicadas e espessas. Deste modo, as forças sociais do planeta estagnaram num equilíbrio artificial mas duradouro.
A manutenção deste status quo durante centenas de anos, conduziu a uma atitude negligente da classe superior. Se a classe trabalhadora só precisava do ar para sobreviver, mesmo trabalhando a terra e produzindo os alimentos que saciavam os estômagos dilatados dos primeiros, para quê continuar a adicionar aromas sugestivos ao ar de que se alimentavam? Decidiram em Conselho, acabar com esse procedimento fútil. Os refeitórios seriam restritamente aerofágicos, sem mais adições.
Essa mudança súbita desencadeou uma inesperada revolta em todo o planeta. Os dominados conquistaram o poder, aprisionando os seus antigos senhores. Não os mataram, nem exerceram qualquer tipo de tortura. Como espécie pragmática que era, encerraram os seus tiranos nos refeitórios, onde os continuaram a alimentar escrupulosamente. Nos seus ventres implantaram tubos largos que colocavam os seus estômagos em contacto com a superfície. Nesses tubos, depois de se saciar do inodoro ar, a espécie aerofágica mergulhava os seus narizes protuberantes para a satisfação dos sentidos.

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