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Conceito flexível

Isto não é inventado. Precisava de ir a um baptizado e fui ao Carneiro's, uma camisaria, para comprar, naturalmente, uma camisa. O evento era uma coisa informal, não era para levar fato nem gravata. Umas calças de sarja e uma camisa fariam o mesmo efeito. Procurei e experimentei várias e fiquei fixado numa. Era perfeita, parecia criada por encomenda. Só tinha um senão: tinha tecido a mais. O repasto era num restaurante que eu sabia ser uma autêntica sauna nos meses de Verão. Abordei, inocentemente, o senhor Carneiro.
- Gostei muito desta, mas diga-me uma coisa: não tem esta camisa com meia-manga em vez de manga comprida?
Ele lançou-me um discreto olhar de indignação, e apercebi-me logo que tinha dito uma asneira e feito cocó em chão consagrado.
- Gostaria muito de lhe ser agradável, mas é-me de todo impossível. É que nós não vendemos camisas, vendemos conceitos. Os nossos fornecedores não fabricam camisas a esmo para serem vendidas nas feiras de Santana e Pataias. Cada camisa que aqui encontra, resulta de exaustivas e renovadas sondagens de opinião, de estudos que determinam com exactidão qual o seu modelo, padrões e cores. A camisa que o senhor prefere, nunca poderia ser fabricado com meia-manga porque isso seria uma perfeita aberração.
Uma mão-cheia de palavras e eu fiquei a sufocar naquela camisa-de-forças argumentativa.
- De acordo. Agradeço as suas explicações. Tentarei encontrar noutro lugar uma camisa que me agrade tanto como esta.
Estava a alcançar a porta, quando a voz do camiseiro me deteve:
- Mas também não quero que o senhor saia daqui de mãos a abanar. Nós trabalhamos com uma costureira que é uma verdadeira artista. Se o senhor desejar, ela corta-lhe as mangas...

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...