Amnésia

Noutros tempos, quando o mar estava mau e não se podia sair para o mar, alguns pescadores da Nazaré procuravam outros expedientes para levar o pão à boca dos filhos. Ofereciam-se para a apanha da fruta, para cuidar do gado, para lavrar a terra. Disseminavam-se pelos Casais e lugarejos em redor e tentavam a sua sorte. Um deles veio ter a casa do Sampaio, na Serra da Pescaria. Preciso de trabalho, pediu, faço qualquer coisa, dê-me trabalho e eu acenderei uma vela a Nossa Senhora da Nazaré para ela olhar pelo senhor. O Sampaio teve pena do homem e colocou-lhe uma enxada nas mãos. Aquele terreno na encosta não conhece o ferro há três anos, anunciou, preciso que faça a desprega, revolva a terra como se fosse um arado. O nazareno galgou para a encosta com movimentos desconchavados, ansioso por mostrar serviço. Desajeitado nas artes da terra, começou a cavar em volta, puxando a terra para cima dos pés, e naquele afã desastroso acabou por dar uma enxadada num sapato, que varou o calçado e fez um lanho num dedo. O Sampaio acudiu, muito atrapalhado, e fez-lhe um curativo enquanto o pescador gritava e gemia. Depois de passar a dor, veio a lamentação: O que vai ser de mim agora, aleijadinho? Como é que vou puxar o barco para a praia, coser as redes, contentar a mulher? O Sampaio apieda-se até ás lágrimas, e dá-lhe o dinheiro pela jorna, mais algum para os sapatos e para o pão. O nazareno levanta-se de um salto, agradece com um efusivo abraço e promete: Quando você for à Nazaré, a minha casa passa a ser sua. Procure-me, costumo andar pela rua da Sub-Vila. Vou levá-lo a comer em minha casa para conhecer a minha família. Mais, hei-de dar o seu nome ao meu barco e oferecer por si uma brindeira ao Círio da Nossa Senhora.
Umas semanas depois, o Sampaio precisou de ir á Câmara da Nazaré e aproveitou para passar pela Sub-Vila á procura do dito. Encontrou-o, rodeado de amigos, á porta de um prédio. Mas o homem não parecia reconhecê-lo. Não se lembra de mim, o Sampaio, da Serra da Pescaria? Você pediu-me trabalho e eu ajudei-o. Dei-lhe uma enxada para revolver a terra...O pescador estremeceu como se estivesse diante de uma alma penada. Primos! - proferiu - este madié deve ser maluco. Eu nunca o vi mais gordo e agora vem aqui, à porta da minha casa, dizer que eu lhe pedi para foçar na terra, que é o trabalho que ele deve estar habituado a fazer, ele e os porcos!

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