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Outros dados, e cartas, no final da página

Otis

1
O amor, por vezes, é uma doença, um estado de sítio da alma. Ama-se até ao último estertor da vida e até mesmo depois disso, se os vermes o permitirem e deixarem para mais tarde um resquício de coração enquanto se banqueteiam com a merda dos intestinos. No círculo de amigos de Abel, ninguém compreendia a sua devoção inquebrantável à companheira, Teresa, a bela e ardente Teresa, que não hesitava por um instante em se envolver com outros homens, perfeitos estranhos e, sempre que podia, em fugir com eles, enfiando-se nos seus carros ou nas suas casas. Abel atrofiava-se, sofria para dentro de cada vez que isso sucedia. Inevitavelmente, ela ligava-lhe: Estou em tal parte, assim, assim, e ele inflava-se de alegria por saber que não a tinha perdido, e corria a resgatá-la, num quarto de motel ou na berma da estrada onde se apeara, em sítios a dezenas ou centenas de quilómetros, fosse onde fosse. Encontrava-a muitas vezes melancólica, amesquinhada, por vezes arreavam-lhe. Levava-a para casa, dava-lhe banho e vestia-a. Cuidava dela enquanto Teresa chorava baixinho e pedia desculpa: Amo-te muito, não volta a acontecer. Abel encolhia os ombros, sempre solícito e terno. Também te amo! Um dia não vais sentir necessidade de partir e vamos ser muito felizes os dois!
Os amigos, sempre os homens, moíam-lhe o juízo: Parece que tens gosto em ser corno, manda-a à fava porque, mulheres, é o que não falta por aí. Mas Abel não admitia a mínima mácula nas referências a Teresa, e respondia com serenidade: "Ninguém a substitui, e se ela é boa para os outros, também é boa para mim".
2
Porque o jogo era uma das ocupações preferenciais de Abel e dos amigos, três deles convidaram-no a integrar uma equipa de jogo online de Silver Blade, um jogo de perícia e estratégia. Ia haver um torneio daí a quinze dias e concordaram todos em que, até essa data, iam dedicar umas quatro horas por dia a rotinarem-se no jogo. Aquilo tinha de ser levado a sério, porque o torneio ia colocar em confronto os melhores jogadores do mundo, e tudo ia acontecer numa só noite, de Sábado para Domingo - catorze horas consecutivas de jogo que iria qualificar os vencedores de série e dentre estes, o vencedor do torneio. Ganhar o price money e os prémios publicitários do torneio entusiasmava todos os elementos da equipa. Abel disponibilizou o escritório da sua casa para a sede da equipa, e todos concordaram.
Num fim de tarde de Domingo, a apenas seis dias da data do torneio, quando os outros membros da equipa entraram na casa de Abel, perceberam logo que aquele era um dia não. Teresa devia ter fugido novamente, porque Abel recebeu-os com gestos lentos e arrastados, acusando na voz o álcool que já tinha ingerido. No ar, omnipresente, a música I've Got Dreams to Remember, do seu anjo triste, Otis Redding, que Abel entoava enquanto os guiava até ao escritório: Honey I saw you there last night /Another mans arms holding you tight / Nobody knows what I feeled inside / All I know, I walked away and cried / I've Got Dreams...
Fizeram-no sentar-se. Devemos jogar? Será que vamos estar aptos a enfrentar o torneio? Abel afirmou que sim, estava capaz, iam treinar e vencer os outros guerreiros. Os amigos duvidaram, aquele jogo ia exigir o máximo da equipa, não iriam conseguir competir com menos um elemento. Um dos amigos, mostrou-se mesmo revoltado. Foi um erro, clamava, não se põem em campo pessoas debilitadas, porque ninguém joga para perder; e propôs que Abel saísse da equipa. Os outros pareceram ponderar a hipótese, perante o dócil espanto de Abel. Amanhã, estou bem, ainda disse. Só um deles se mostrou contrariado com a ideia, Mário, o seu amigo de muitos anos. Substituir Abel, estava fora de questão, defendeu com firmeza. Abel era, talvez, o melhor jogador entre os quatro, e todos se conheciam há muitos anos, havia muito mais em jogo do que um torneio e chances futuras. Eram ou não eram todos amigos? A sua oratória convenceu-os. Ainda havia hipóteses, acabaram por concordar, temos mostrado online que somos uma boa equipa e, se não houver mais deslizes, vamos prová-lo no torneio. Ainda se o gajo ouvisse outra coisa, alguma coisa mais actual, insistiu o seu detractor.
O conflito ficou sanado, conversaram mais um pouco enquanto bebiam um copo no pequeno bar da sala, sempre com a mesma música de Otis a pairar em volta. Um a um foram saindo. "Vê se amanhã estas em forma!", instavam à porta da rua.
Mário ficou mais um pouco, enfiou os copos no lava-louça, e despediu-se. Abel acompanhou-o à rua. Ia fumar um cigarro, para ver se ordenava ideias. Mário ofereceu-lhe um. Abel acendeu-o e sentou-se na berma do passeio, sob a cacimba da noite.
- Até amanhã, Abel.
- Adeus Mário, e obrigado!
Mário afastou-se pela rua deserta e, quando mal se ouvia o eco dos seus passos, Abel acrescentou num fio de voz: "Trata bem dela, Mário!".

Otis Redding - I've Got Dreams To Remember

Torpe

Ficou na História como um verdadeiro animal de hábitos. Chamava-se Torquemada.

Leve mente

Não podia ser um carro nem um camião, não estava pousado nem pesando sobre o solo. Era enorme, suspenso no ar, circular e discóide como eles tendem a ser (coisa de design). Todos podiam ver com a pouca-clareza dos sentidos que era uma nave espacial pairando sobre a cidade, todos, menos o arrumador ganzado, que do fundo dos seus sentidos turvos, girava os braços para um lado e para o outro e gritava para o alto: «Torce-torce-destroce».

Fábula

O velho elefante de circo e o hamster do comedor de espadas decidiram juntar-se para criar um número nunca antes visto: o de um rato sobre um tamborim a erguer nos ares um elefante.
À primeira tentativa, o hamster bem tentou mas não conseguiu mover o seu amigo elefante, e acabou passado a ferro pelas suas nádegas gordas (efeito da gravidade)
À segunda, milhares de olhares espantados viram um elefante a ser erguido no ar pelo hamster valoroso, mas o espanto só durou até se aperceberem de que era um elefante insuflável que acabou voando entre as cordas do circo (efeito Hélio).
À terceira, finalmente, o pequeno animal conseguiu levantar o seu corpulento amigo, sem humilhações nem embustes (efeito Viagra).

Americanices

Goza-se os últimos dias quentes de Verão. Numa esplanada em pleno coração da cidade, um grupo de amigos junta-se à roda de uma mesa, saboreando o frescor de fim de tarde e as frias cadeiras de zinco. Pedem cervejas e amendoins, um deles, no entanto, prefere uma Pepsi-Cola. O empregado, de camisa branca empapada em suor, regista os pedidos e regressa com uma travessa com as bebidas, mas, sacrilégio, em vez de uma Pepsi, traz uma Coca-Cola. O que pedira a bebida, reclama indignado, e a troca é feita. Está o grupo de amigos à roda da mesa, e não há grandes temas para conversar - aulas, filmes, jogos, tudo parece vão e pouco prolífico. Um deles lembra-se e pergunta ao defensor tribal da Pepsi: O que é que tu tens contra a Coca-Cola? O sabor, responde, a Coca é adocicada e enjoativa, também faz gases e provoca lesões no pâncreas. O outro salta em defesa da sua dama, a Pepsi tem um sabor demasiado sintético, e dá tanto prazer bebê-la como ingerir um purgante com gás. A discussão está aberta, e os dois contendem para satisfação dos restantes. Vão buscar a cocaína dos primeiros tempos, os Presidentes e actores americanos que se revelaram fiéis duma e outra marca, os projectos desportivos, os anúncios memoráveis, os sites da marca. Mas, marrada após marrada, nenhum dos dois consegue vencer com clareza. Devíamos obter a opinião dalguém de fora, imparcial e insuspeito, afirma um, e que tal aqueles? Pergunta, apontando um grupinho de adolescentes sentado na beira do passeio a dois passos deles. Todos concordam. O homem da Pepsi eleva a voz e pergunta:
-Ei Putos! Qual das marcas é que vos dá mais sabor? A Pepsi ou a Coca-Cola?
Os putos não respondem, apenas um deles lhes dirige o olhar, baço e indiferente. E continuam na sua ocupação, fumando crack com o isqueiro sob latas de Cola a servir de cachimbo.

"um lugar sem trevas"

Uma Caixa de Multibanco fora de serviço. Duas. Na primeira que encontrei em funcionamento tinha dois tipos à minha frente. Decidi esperar. As manhãs de Domingo são uma altura tramada para sacar dinheiro às máquinas. O sujeito à minha frente olhava-me repetidamente de soslaio (talvez me conhecesse), cabeça pequena de pescoço enterrado entre os ombros e gordo que nem um abade, olhava em volta como uma lente de periscópio e voltava a fixar-me.
- Pssiu!
Era comigo. Resmunguei um vago Sim?
- Isto tudo não o revolta? - não respondi, e ele explicou-se - os Bancos, os gigantes financeiros, tudo o que nos finge dar crédito, sempre à espera que a hipoteca vença para nos poder esfolar vivos. Todos nos fazem a ficha e sabem tudo sobre nós, se usamos o cartão de crédito no bazar de caridade ou na casa de putas, se compramos um revólver ou se demos um peido. Tudo o que existe sobre nós está guardado dentro de discos rígidos com o tamanho de rodas de tractor, e eles põem e dispõem de nós sem qualquer pudor. Já não somos nós, somos um tracinho num código de barras, um dígito sem valor num mar de números.
Mais um neurótico na fantasmagoria das conspirações. Como não lhe dei troco, o tipo desinteressou-se e largou-me a braguilha. Foi um alívio. Chegou a vez dele e perfilou-se diante da Caixa, com a cabeça a menear de um lado para o outro como se procurasse alguma coisa, talvez a câmara de filmar. Executou uma operação qualquer, com o torso em concha sobre o teclado, recebeu o talão e emitiu um guincho pavoroso. Dirigiu-se de novo a mim, mas desvairado. Agarrou-se-me ao braço e agitou o talão no ar.
- Eu não lhe dizia, eles controlam tudo e fazem o que querem de nós. Depositei dinheiro, DINHEIRO! Em notas, e verdadeiras! E o que é que eles me dizem? Que o meu dinheiro só vai estar disponível após a conferência. Obrigam-me a esperar pelo fim da conferência dos poderosos G-8, para eu poder fazer o que quero com o meu pobre dinheirinho!

Macambúzio

Os dias parecem todos iguais, bronze fundente arrefecendo dentro de moldes velhos, vento enredado nas pás do moinho, água benta da Fonte da Virgem, levada até à mão crédula do peregrino de promessas por canos galvanizados e sepultos, evoco, amarroto, a epifania dos meus devaneios de infância, quando escutar um búzio era escutar o mar distante, anunciado ante mim por uma magia mítica, hoje escuto os búzios e os acho uma fraude, como os dias, oferecendo rumores falsos de uma falsa imensidade. Eu podia ser diferente, tudo podia ser diferente, se os dias não fossem todos iguais.

Amnésia

Noutros tempos, quando o mar estava mau e não se podia sair para o mar, alguns pescadores da Nazaré procuravam outros expedientes para levar o pão à boca dos filhos. Ofereciam-se para a apanha da fruta, para cuidar do gado, para lavrar a terra. Disseminavam-se pelos Casais e lugarejos em redor e tentavam a sua sorte. Um deles veio ter a casa do Sampaio, na Serra da Pescaria. Preciso de trabalho, pediu, faço qualquer coisa, dê-me trabalho e eu acenderei uma vela a Nossa Senhora da Nazaré para ela olhar pelo senhor. O Sampaio teve pena do homem e colocou-lhe uma enxada nas mãos. Aquele terreno na encosta não conhece o ferro há três anos, anunciou, preciso que faça a desprega, revolva a terra como se fosse um arado. O nazareno galgou para a encosta com movimentos desconchavados, ansioso por mostrar serviço. Desajeitado nas artes da terra, começou a cavar em volta, puxando a terra para cima dos pés, e naquele afã desastroso acabou por dar uma enxadada num sapato, que varou o calçado e fez um lanho num dedo. O Sampaio acudiu, muito atrapalhado, e fez-lhe um curativo enquanto o pescador gritava e gemia. Depois de passar a dor, veio a lamentação: O que vai ser de mim agora, aleijadinho? Como é que vou puxar o barco para a praia, coser as redes, contentar a mulher? O Sampaio apieda-se até ás lágrimas, e dá-lhe o dinheiro pela jorna, mais algum para os sapatos e para o pão. O nazareno levanta-se de um salto, agradece com um efusivo abraço e promete: Quando você for à Nazaré, a minha casa passa a ser sua. Procure-me, costumo andar pela rua da Sub-Vila. Vou levá-lo a comer em minha casa para conhecer a minha família. Mais, hei-de dar o seu nome ao meu barco e oferecer por si uma brindeira ao Círio da Nossa Senhora.
Umas semanas depois, o Sampaio precisou de ir á Câmara da Nazaré e aproveitou para passar pela Sub-Vila á procura do dito. Encontrou-o, rodeado de amigos, á porta de um prédio. Mas o homem não parecia reconhecê-lo. Não se lembra de mim, o Sampaio, da Serra da Pescaria? Você pediu-me trabalho e eu ajudei-o. Dei-lhe uma enxada para revolver a terra...O pescador estremeceu como se estivesse diante de uma alma penada. Primos! - proferiu - este madié deve ser maluco. Eu nunca o vi mais gordo e agora vem aqui, à porta da minha casa, dizer que eu lhe pedi para foçar na terra, que é o trabalho que ele deve estar habituado a fazer, ele e os porcos!

...

A propósito:
-Somos casados, e depois? Isso já não interessa, devíamos assumir! Ou tens medo de ficar falada?
- Não! Tenho medo que deixem de falar comigo!
*
"Queria ser grande, queria muito ser grande", orava a moça impaciente à porta do cemitério, cruzando-se com um homem que acalentava uma oração inversa depois de ter revisto a foto manchada da campa dos pais.
*
Alugou um camião de mudanças para ser levado da casa a cair aos pedaços. Os seus haveres resumiam-se a um caixote, com livros, duas garrafas encetadas de uísque, a t'shirt cativa dos concertos com múltiplos autógrafos, o seu MP3 avariado e sua vida por consertar. Tudo reunido, para ser descarregado no primeiro terreno baldio que aparecesse.

Somos sempre os mesmos, desfiando nosso verso contrafeito

«Agora não tem mais jeito, tens de me ouvir! Sabes, sou o mesmo do primeiro dia da nossa vida juntos, aquele devoto que beijou teus seios numa ânsia profana e rasgou a madrugada entre as tuas coxas de bronze. Sou eu, sim, o mesmo que vivia borbotando esta paixão arrebatada, e sentia os olhos húmidos só de te ouvir cantar. Sou esse que agora pedes para partir porque já nada vês em mim, quando EU SEI que é um engano o que pensas sentir para me pedir assim»

Enseada

Não era um caso insólito manter uma ligação com duas mulheres ao mesmo tempo, de uma das vezes foi com duas irmãs, com nomes exdrúxulos, como dizia o poeta. Os ditos nomes, que soavam a acessório de varão de cortinado, eram Alheta e Calheta, nem mais. A não ser pelos nomes, as duas irmãs eram diferentes em tudo, a primeira era a mais fogosa e promíscua, sempre pronta a passar um bom bocado e divertir-se, enquanto a sua irmã Calheta era muito mais complicada, muito orgulho e preconceito, preocupada com o que bem parecia e com pavor de ficar falada.
Namorou as duas na mesma época, mas, mal a Calheta começou a falar em monogamia e em casar com ele de véu e grinalda, desistiu dela e pôs-se na Alheta.

Prole

Quando lhe nasceu o primeiro filho, um colega de trabalho ofereceu-lhe um Buda dos Mil Filhos, uma figura enorme do Buda com um manto azul (que lhe fez lembrar o Jabba do Star Wars), em cujas dobras se anichavam pequenas crianças sorridentes. Achou a prenda original, embora o nome fosse tenuemente ameaçador. Depois nasceram mais três filhos, intervalados por apenas doze meses. Ao quarto, avisou a mulher: Fecha a fábrica, ou vou ter de assaltar Bancos. A mulher concordou. Quatro era um bonito número, o número dos esteios do mundo e dos pontos cardeais. A coisa ficou por ali mas, há uns meses apenas, a mulher voltou a falar-lhe no assunto, porque estava alvoraçada com as medidas do Executivo para o apoio à maternidade. Sem perder a serenidade, pediu à mulher que pesquisasse no browser sobre a morada do Buda. Se o gajo conseguia criar mil filhos, talvez lhe pudesse confiar mais um ou dois.

Post-it

Só há duas causas possíveis para alguém se ter tornado uma pessoa solitária: por opção própria, e por opção própria.
Tudo o mais são ficções.

Deixem-me respirar

Num planeta em tudo semelhante à Terra, até mesmo na caprichosa espiral evolutiva que produziu uma espécie erecta dominante, os seus habitantes viram-se empurrados contra a escassez dos recursos disponíveis. A civilização estava prestes a colapsar, a implodir sobre si mesma numa sucessão de guerras fratricidas pela conquista do pouco terreno arável e produtivo. A elite dominante, detentora da ciência e da força, resguardou o seu poder e privilégios, alterando eugenicamente o grosso da população, cuja taxa de natalidade era galopante. Os recém-nascidos do planeta passaram a representar uma mutação evolutiva: os seus organismos não precisavam de alimentos sólidos ou líquidos, retiravam do ar os nutrientes de que precisavam para sobreviver, os dominados tornaram-se em poucas gerações uma espécie exclusivamente aerofágica, de corpo e membros delgados para reduzir a necessidade de calorias empregues na locomoção, e largas e protuberantes narinas em cujos meandros haviam convergido os sentidos do olfacto e do paladar. Este último, como todas as fontes de prazer, era essencial para o equilíbrio psicológico das pessoas, e para a manutenção do poder e prerrogativas da classe superior, que permanecera fisiologicamente inalterada. As multidões comiam todas juntas em extensos refeitórios estanques onde, ao ar, e com o emprego de gigantescos ventiladores, eram adicionados aromas dos alimentos tradicionais do planeta, que satisfaziam os seus sentidos e fortalecia a identidade colectiva. Havia aromas de comidas e frutos, de bebidas licorosas e sobremesas adocicadas e espessas. Deste modo, as forças sociais do planeta estagnaram num equilíbrio artificial mas duradouro.
A manutenção deste status quo durante centenas de anos, conduziu a uma atitude negligente da classe superior. Se a classe trabalhadora só precisava do ar para sobreviver, mesmo trabalhando a terra e produzindo os alimentos que saciavam os estômagos dilatados dos primeiros, para quê continuar a adicionar aromas sugestivos ao ar de que se alimentavam? Decidiram em Conselho, acabar com esse procedimento fútil. Os refeitórios seriam restritamente aerofágicos, sem mais adições.
Essa mudança súbita desencadeou uma inesperada revolta em todo o planeta. Os dominados conquistaram o poder, aprisionando os seus antigos senhores. Não os mataram, nem exerceram qualquer tipo de tortura. Como espécie pragmática que era, encerraram os seus tiranos nos refeitórios, onde os continuaram a alimentar escrupulosamente. Nos seus ventres implantaram tubos largos que colocavam os seus estômagos em contacto com a superfície. Nesses tubos, depois de se saciar do inodoro ar, a espécie aerofágica mergulhava os seus narizes protuberantes para a satisfação dos sentidos.

September rain

Sentia-se cansado, o médico dizia que estava à beira de um esgotamento. Tinha-lhe receitado medicamentos, um pó para beber diluído na água em jejum, e uma catrefa de comprimidos para a cabeça, para as muitas coisas que a sua cabeça tinha em falta ou em excesso. Mas ele não tomava nada, agoniava-se só de pensar nisso porque tinha um estômago fraco. Fez do seu carro a sua morada, conduzindo sem destino num dia de chuva, agarrado ao volante como à roda do leme de um navio desgovernado. Inerte e indiferente, via as ruas e casas desfilarem de um lado e do outro, lavadas em água. Não tomava sentido nas direcções nem nas ruas que cruzava, parando apenas para atestar o depósito antes de voltar a singrar pelo mundo sob uma luz mortiça. No meio de tantas silhuetas e volumes liquefeitos, reconheceu o muro fronteiro da sua casa. Parou o carro, e saiu com um pé ainda no interior e o motor a trabalhar. Já não se lembrava de quando saíra dali, nem porquê. Devia continuar ou ficava um pouco? Não se decidia e só tomou o caminho do portão, empurrado pela fome que sentia. Não se ia demorar. Estava tudo aberto e, todo encharcado, entrou em casa e deu de caras com dois homens de gabardina que o esperavam. Eram polícias, tinha havido um crime violento naquela casa, informaram. Não reagiu, com o olhar fixo na chuva que entrava pela porta entreaberta. Era isso! O sangue! Chovera tanto, mas a chuva não havia lavado o sangue!

Servida gelada

Ao Inácio, custava-lhe correr com a mulher, mas ela não lhe deixava alternativa. A mulher era apenas a mulher, desleixada e sensaborona, atirada pelos sofás da casa a beber chocolate quente às cinco da tarde e a ver telenovelas venezuelanas por cabo. Não lhe seria penoso se não fosse o contraste com as amantes que mantinha, belas e perfumadas, recebendo-o nos seus ninhos num paroxismo de deleite e prazer. Despediu a mulher com requintes de crueldade, que sim, ia dar-lhe tudo a que ela tinha direito, do mesmo modo que se dá de comer a um peixe feio num aquário, por compaixão, porque ela era uma coisa sem préstimo, uma lástima de mulher no lar e na cama. Depois de se separar dela, sentiu-se um outro homem, fresco e renovado, e a sua auto-estima subiu em flecha a ponto de não se confinar às suas amantes, procurando novas aventuras na torrente da vida nocturna.

Meses depois da separação, viu de relance uma mulher espantosa no Centro Comercial ao pé de casa, uma aparição vestida de negro, com longos cabelos dourados. Seguiu-a por um dédalo de lojas, até a conseguir abordar. Encarou-a de frente diante de uma joalharia e Zás! - os tomates caíram-lhe aos pés. Era a sua ex. Mas nada tinha da sua ex. Bem vestida e maquilhada, vestido justo a fazer justiça às curvas do seu corpo e sapatos de cunha, sapatos de cunha! Nunca antes lhes vira uns desses calçados, sempre aquelas sapatas de salto raso de cortiça. Cumprimentaram-se. Como vais? Bem, melhor do que nunca, e tu? Também. Estás diferente!! Queres tomar alguma coisa? Em casa, comprei um apartamento aqui perto com o dinheiro que me deste, podemos ir até lá, beber um copo e foder em nome dos velhos tempos! Aceitou num impulso, o desejo lavrando fundo no ventre. Foram a pé, a conversar, ele muito intrigado, mas feliz da vida com a mudança. A que se deve essa metamorfose? Conheci outros homens, que tiveram o talento e a paciência para me fazer desabrochar, e tenho experimentado de tudo um pouco, de sexo em grupo a práticas sado-maso. Ele não acusou a indirecta, de tão excitado que estava, talvez a pudesse encaixar na sua vida, uma esposa na nova versão de amante de reserva.
Chegaram ao apartamento dela, o lugar mais improvável onde a imaginaria viver, decorado com gosto em tons quentes e sensuais. Ela serviu-lhe uma bebida e deixou-o no quarto, pedindo-lhe para ele se por à vontade. Ela regressou momentos depois, nua sob uma camisa de dormir. Ele já estava nu sobre o edredon vermelho, pronto para a festa. Enrolaram-se um pouco no mel, mas ela pediu-lhe calma. Prendeu-lhe os pulsos à cabeceira com umas algemas, colocou uma música adequada e dançou em cima do colchão em movimentos langorosos. Quando ele lhe pediu mais, ela retirou duma gaveta um chicote de pontas de nó. Inácio encolheu-se, ela sabia que ele não tinha muita simpatia por essas práticas, e por tudo o que se traduzisse por dor. Ela assentiu: "Tenho um outro brinquedo melhor para ti, comprei-o de propósito para esta ocasião". E, remexendo de novo na gaveta, retirou dela uma enorme tesoura de capador.

Se a nossa mãe Eva...

...fosse uma vendedeira do mercado da fruta das Caldas:

"Podes comer a maçã, Adão, é só esfregar a casca porque pode ter nhanha da cobra ou gosma do velho. Ela é muito saborosa, não é como a maçã espanhola que é muito bonita por fora, mas, quando se trinca, é só água. Come à vontade, Adão, é fruta biológica, não tem pulveriza nenhuma!".

Socialmente correcto

Em teoria,
o mundo está cheio de gente boa que gostaria de transformar a nossa vida num mar de rosas.

Na prática,
essas pessoas partem seguramente do princípio de que somos alérgicos ao pólen!

Hospedaria 2

Uma lagoa pequena em vias de se converter num pequeno pântano infecto, coroada de árvores com ramos que pendiam sobre a água e os caniços. Na extremidade de um desses ramos vivia uma pequena sanguessuga, uma coisinha adorável e viscosa que desenvolvera um modo muito próprio de operar. Aguardava, de vigília, suspensa de um ramo. Cedo ou tarde alguém aparecia, um cão sedento ou um gato á caça de ratazanas, e ela largava-se da árvore e fixava-se no hospedeiro, bebendo do seu sangue até à saciedade. Podia permanecer nele até ao mínimo indício de perigo, e então deixava-se cair e regressava ao seu ramo, de atalaia. As pessoas também faziam parte da dieta, sobretudo crianças pequenas a brincar ou à coca de rãs, que não ofereciam grande ameaça, a não ser uma tentativa débil de se coçarem no sítio onde se instalava. Aprendera a evitar os adultos, sobretudo aqueles armados com pequenos tições odoríferos. Numa noite, teve de tentar a sorte com uma pessoa crescida, porque o seu organismo pedia-lhe sangue. Admirou aquela mulher nua de pele de marfim e longos cabelos negros que parecia deslizar sobre a erva da margem, olhando a lua nas águas quietas. Saltou da árvore e ferrou-lhe na pele. Coisa inaudita, a sanguessuga emagreceu e ficou reduzida a uma pele translúcida e seca a esvoaçar no ar. Os seus instintos e experiência ainda não a tinham ensinado a evitar uma pessoa crescida como aquela, de longos caninos afiados e lábios pintalgados de sangue.

Reality-Te-Vê

Ir ao dentista é uma das provações mais redutoras que se oferecem a uma pessoa, fica-se ali pregado a uma cadeira inclinada com a força de 3 G's de tensão, com a boca repuxada para um lado e para outro, e com o som envolvente da broca a aturdir os ouvidos, a mesma música celestial que devem ouvir nos fones os profetas da desgraça e os 4 Cavaleiros do Apocalipse. Nada há a fazer senão esperar, com a mesma estóica quietação de uma pessoa equilibrada presa dentro de uma camisa-de-forças. Desta vez, no entanto, houve uma nota dissonante nessa experiência, uma frase utilitária que suavizou as arestas com a carga semântica de um verso ou um Haikai. Sobre a cena, um braço metálico anodizado suspendia do tecto um conjunto circular de luzes. No topo, conseguia ver o interruptor e um disco circular com dígitos. Uma frase identificava-o: "Regulador de Iluminância".

Nova linha

Bálsamo After-Shave

DENIED

Para o Homem que Nunca Consegue o Que Quer

Hospedaria

Vieram pelos canos, aproveitando a correnteza canalizada, carapaça mole, miolo pegajoso, as inúmeras patinhas se movendo em duas fiadas distintas, cronometradas e metronómicas, como os remos das regatas. Na estação de destino apearam-se, olhos microscópicos em busca de um hospedeiro. Quando o encontravam, saltitavam até ele e se colavam na pele, o agente químico da carapaça adormentava a pele como uma anestesia, e o bicharoco escavava uma cova e desovava com abundância. Logo depois morriam e a carcaça morta do bicho da carapaça se clareava até ganhar a cor da pele do seu anfitrião. Sob o cadáver da mãe, que os ocultava, os bicharocos nasciam às dezenas e viajavam pelo corpo do hospedeiro, e o ciclo se reiniciava: maturação, acasalamento, desova. Mais bocas famintas e o hospedeiro cada vez mais magro e chupado. Enquanto se entregavam às delícias do seu Spa, as pessoas encontravam-no e perguntavam do seu estado: Estás com más cara! O que tens? Não sei - respondia - sinto um vazio enorme cá dentro como se fosse um queijo suíço!

Dica culinária

"No que toca às batatas vale tudo, mesmo tirar olhos"

Sem título (s)...

...acções, fundos de reforma, Marx e Nietzsche, Aristóteles e Cristo, Paxan e Maddie McCann - o índio Aymara vivia e sonhava no século de Quatrocentos. Cultivava cereais nos andenes, fazia filhos, recontava as velhas histórias milenares, sacrificava sangue de lama no altar a Inti e oferecia as primícias da colheita no festival de Pacha-Mamma. Sabia que o Sol tinha nascido pela primeira vez sobre o lago Titicaca, e que devia as artes da civilização a Kon-Tiki e Manco-Capac. Não sei porque escrevo isto, mas às vezes sinto que nós vivemos submergidos no mundo que nos cerca e só ajudamos a girar os moinhos da História porque, como mansas bestas, puxamos de olhos vendados o varal da nora.

Xaran !!

- Eu não vou! - declarou - não quero saber. Sou um empregado de arquivo, imberbe e desprezível, mas um empregado de arquivo. Quem o tipo pensa que é, para me mandar trocar as lâmpadas fluorescentes fundidas?
- Teu patrão!?
- Não interessa, o tipo entrega-me o cheque de ordenado mas não regula o meu espírito. Estou a estudar História e hei-de escrever uma tese sobre as semelhanças entre este gajo e Calígula.
- Não demores muito e não fales, ou ele come-te as tripas.
Continuou a resmungar, off the record, e foi buscar um braçado de lâmpadas e um escadote alto. Começou a tarefa, muito contrariado - subir o escadote, tirar a armadura, apanhar na cara com uma nuvem de pó e insectos ressequidos, tirar a lâmpada estragada e colocar uma nova. Subia e descia quatro vezes o escadote para mudar uma só lâmpada. Era esforço a mais para um trabalho de férias.
Inadvertidamente, passou por debaixo do escadote e ouviu um gritinho. Uma mulher a uma secretária olhava para ele, estarrecida, os olhos pequeninos e papudos a espreitar por entre os dedos da mão.
- Por favor, não passe por debaixo do escadote. Dá azar, pode acontecer-lhe alguma coisa. Peço-lhe...
Que mulher mais maluca. Sorriu, com uma pontinha de crueldade a coruscar dentro de si. Aquele trabalho tinha acabado de ganhar interesse. Continuou a tarefa, numa sucessão de negaças. Fazia de conta que ia passar por debaixo do escadote, mas parava no momento certo, arrancando uma expressão de terror à mulher. Quando viu que a reacção diminuía de intensidade, passou a vias de facto, saltando sob o escadote com exclamações de entusiasmo. Uma vez, duas, três...Quando se preparava para repetir indefinidamente a provocação, viu com espanto aquela mulher imensa saltar da cadeira e correr para si. Ficou paralisado sob o escadote, ela colidiu com ele, levando-o e ao escadote à frente do seu busto avantajado. O corpo débil do empregado de arquivo foi projectado contra as vidraças, atravessou-as e ficou estendido no chão da varanda no centro de um ninho de estilhaços de vidro.
-Eu avisei-o que lhe podia acontecer alguma coisa!

Lesões internas

Depois de muita cogitação, o ex-inspector de Judiciária e escritor policial laureado, chegou a um plano magnífico e acima de toda a suspeita para assassinar a esposa. Num recanto escuro do sótão, criou uma piranha comprada numa loja de animais. Todos os dias lá ia a pretexto de "ver os papéis", e levava-lhe comida, tirinhas de carne que atirava para a água, para saciar aquela boca voraz. Não a podia engordar demais, porque convinha que ela se mantivesse pequena e escorreita. Num Sábado à noite, embebedou a mulher e deu-lhe a beber a piranha num copo de vinho. A piranha mergulhou na garganta até ao estômago onde ficou a boiar num charco de vinho. Desagradada com o aperitivo, começou a abrir um túnel na carne para sair. Por buracos travessos chegou à bexiga e viu a porta de saída. Esgueirou-se pela vagina e foi apanhada pelo inspector, que se apressou a fazer desaparecer a cúmplice.
O escritor não ficou satisfeito com a operação. A mulher não morreu e, pior do que isso, agora nem sexo pode pensar em ter com ela, já que lhe sai merda em esguicho por onde costumava sair o mijo.

Luz

Ela poderia, se quisesse, usar roupas deslumbrantes. Os seus inúmeros roupeiros estavam repletos de vestidos de púrpura, cetim e seda; de casacos e mantilhas de pele; de bolsas e elegantes pares de sapatos. Possuía guarda-jóias em ónix, cheios de peças iridiscentes: colares, tiaras, pulseiras e anéis em ouro e prata guarnecidos de rubis, diamantes e turquesas. O interior da sua mansão possuía salas amplas e espaçosas que se tornavam ainda maiores devido á profusão dos espelhos, porque havia espelhos e imagens reflectidas para onde quer que se olhasse - nas paredes e nos vidros dos quadros, nos tectos em volta dos lustres e na face interior de todas as portas. Das obras de arte dessa mansão, aquela que costumava atrair a admiração de todos os convidados era um retrato a óleo da anfitriã que fora pintado pelo mestre Sílvio Abreu. O pintor retratara-a nos jardins, reclinada sobre uma fonte. O reflexo do Sol na água produzia jogos de luz no seu rosto gracioso e no longo vestido branco, que seduziam o olhar mais desprendido num suave quebranto. Há dois anos que ela não enverga nenhum desses vestidos nem se adorna com as suas jóias, esquecida de toda a alegria e de toda a vaidade. Há dois anos que não sai do mesmo lugar da casa, encolhida com uma expressão demente num canto obscuro de uma pequena despensa. Ninguém a conseguiu tirar dali, sendo alimentada e cuidada pelos seus. Durante esse tempo todo, permaneceu alimentando o mesmo terror que sentira quando reentrara na sua própria casa, esmagada por um medo atroz dos inúmeros espelhos da mansão que lhe poderiam mostrar o rosto que agora era o seu, transformado numa máscara hórrida de chagas e carne viva.

Ratos, e homens




Este é o templo hindu de Karni Mata da cidade de Bikaner, no Rajastão, consagrado aos ratos, chamados kabas. Dedicado à deusa Karai Ma, conserva uma população de ratos que se estima em cerca de duzentos mil indivíduos. Segundo a crença, cada um dos ratos é a encarnação terrestre de um charan, contador de histórias profissional. Os devotos acorrem aí para os alimentar com doces e leite e obter as suas graças.
Se um poeta ou contador de histórias aí estiver em oração e um rato caminhar sobre a sua cabeça, isso é considerado um presságio de inspiração para as obras futuras. Outras superstições circulam sobre esses bichos adoráveis: que é bom sinal se um deles passar por entre as pernas (o que não é difícil, havendo tantos), e que a melhor fortuna espera aquele que aí conseguir encontrar um rato branco.
Bem vistas as coisas, é uma posteridade digna para os contadores de histórias, melhor do que ser esquecido, ou evocado superficialmente em datas cíclicas.

os cães têm direito ao Céu

No Vale das Sombras, as almas-sombra aguardavam. Não podiam fazer outra coisa. Algures num futuro indeterminado levariam cada uma delas para encorpar novamente no mundo da superfície. Vagueavam para um lado e para outro como negras hastes de trigo sob a brisa, alguns deles não se resignavam e continuavam a cismar nas vidas passadas, nos erros e no que ficara por fazer, esses seriam os perturbados e ansiosos, perturbados mesmo depois da sua memória ser anulada, iniciando uma nova vida à luz do Sol com uma personalidade desconfortável e irrequieta que poderia mergulhar até á loucura. Mas a maior parte deles não manifestava sentimentos, conscientes mas inertes, ainda revivendo sem revolta nem paixão as suas existências cumpridas como pessoa, cão, mosca, rato. Uma luz a descer no alto, era sinal da chegada do anjo-carcereiro. Não era um anjo qualquer. Fora escolhido por ser o mais puro e o mais brilhante, característica que realçava com um potente luz fluorescente sobre a cabeça. Nas costas, em vez das asas felpudas das iluminuras, trazia um moderno rotor de hélices que fazia acompanhar a sua chegada de um ruído atroz que os atraía como um chamamento. Como todos os seres puros e todos os anjos, era idiota. Ao fim de tantas Eras a lidar com os seres-sombra, começara a ficar contaminado. Na brancura da sua carne desenhavam-se os músculos e veias com a cor pálida do chumbo. Para esconder isso, começara a usar sobre a pele, como escamas de armadura samurai, placas brilhantes de material radioactivo que o faziam resplandecer nas trevas, mas aceleravam a sua decadência e fim.
Olhando em volta, elegeu um, escusando-se a responder às suas ansiosas questões, e abraçou-o para o transportar para a torrente do esquecimento. Enquanto se elevavam nos ares, uma oração varreu o vale como um suspiro: "Que o ar te seja leve!".

Naturalmente

Enquanto o jovem recebia tratamento na enfermaria, decidiram chamar a polícia. Era uma ocorrência anormal: tinha a planta dos pés com queimaduras graves, nódulos de pele e carne queimada aureolados por cinza e lâminas de carvão. Vieram dois polícias, carrancudos e desconfiados, à espera de um satânico saído dum ritual macaco, com relutância em responder às perguntas. Nada mais erróneo. O rapaz era surfista, todo simpatia e good vibrations, exsudando Sol e vento marinho. Não é o que estão a pensar, adiantou, foi apenas uma desconcentração. Então diga-nos o que é que nós não estamos a pensar, ironizou um deles, empunhando o bloco de notas com aquele ar literário dos polícias passa-multas.
Há um mês atrás estive com uns amigos em Nuku-Hiva numa prova de surfe, e aí aprendemos umas coisas com um xamã polinésio. Ontem, depois de um dia inteiro no mar e moídos por uma festa de praia com muita dança e muita bebida, decidimos fazer uma demonstração. Enquanto preparavam uma cama de brasas na areia, nós entoávamos os cânticos rituais e os exercícios respiratórios que nos tornariam capazes de caminhar sobre elas sem nos queimarmos. Os meus amigos começaram a prova e eu fiquei para último. Não sei se foi da bebida ou se era por estar mesmo exausto, mas quando estava a meio do percurso, passei pelas brasas...

Conceito flexível

Isto não é inventado. Precisava de ir a um baptizado e fui ao Carneiro's, uma camisaria, para comprar, naturalmente, uma camisa. O evento era uma coisa informal, não era para levar fato nem gravata. Umas calças de sarja e uma camisa fariam o mesmo efeito. Procurei e experimentei várias e fiquei fixado numa. Era perfeita, parecia criada por encomenda. Só tinha um senão: tinha tecido a mais. O repasto era num restaurante que eu sabia ser uma autêntica sauna nos meses de Verão. Abordei, inocentemente, o senhor Carneiro.
- Gostei muito desta, mas diga-me uma coisa: não tem esta camisa com meia-manga em vez de manga comprida?
Ele lançou-me um discreto olhar de indignação, e apercebi-me logo que tinha dito uma asneira e feito cocó em chão consagrado.
- Gostaria muito de lhe ser agradável, mas é-me de todo impossível. É que nós não vendemos camisas, vendemos conceitos. Os nossos fornecedores não fabricam camisas a esmo para serem vendidas nas feiras de Santana e Pataias. Cada camisa que aqui encontra, resulta de exaustivas e renovadas sondagens de opinião, de estudos que determinam com exactidão qual o seu modelo, padrões e cores. A camisa que o senhor prefere, nunca poderia ser fabricado com meia-manga porque isso seria uma perfeita aberração.
Uma mão-cheia de palavras e eu fiquei a sufocar naquela camisa-de-forças argumentativa.
- De acordo. Agradeço as suas explicações. Tentarei encontrar noutro lugar uma camisa que me agrade tanto como esta.
Estava a alcançar a porta, quando a voz do camiseiro me deteve:
- Mas também não quero que o senhor saia daqui de mãos a abanar. Nós trabalhamos com uma costureira que é uma verdadeira artista. Se o senhor desejar, ela corta-lhe as mangas...

Depois de ler os Evangelhos:

Uma, duas, duas e meia, talvez três e meia, no máximo, se for generoso e estiver bem-disposto.

(contando as bençãos)

Miami rice

- Não te importas com o que as pessoas possam dizer por andares comigo?
- Não, não me importa nada com isso!
- Nunca li Murakami nem Barthes, não sou capaz de debitar uma citação de jeito de Nietzsche, o Potter mete-me nojo, e as minhas concepções estéticas cingem-se à roupa que escolho pela manhã e às colectâneas que compro de música pimba.
- Estou além, muito além.
- Não te incomoda que eu me apoie sobre os quatro membros e que ande com a coluna vertebral paralela ao solo?
- Não, nem um pouco! - afirmou, aliviando a tensão da trela - eu sempre sonhei ter um crocodilo como animal de estimação.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...