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Entrou na loja com alguma reserva mesclada com desdém. Uma loja escura, com estantes metálicas cheias de volumes de papel e caixas stock cinza-escuro. No balcão largo de madeira estavam expostos os artigos para venda: uma parafrenália de taças em prateado e dourado sobre bases em mármore ou metal. Algumas tinham na base uma pequena figura em bronze escuro ou dourado, de acordo com o propósito da taça. Um jogador de futebol, um tenista, um caçador de arma apontada. Um cartaz largo à sua frente, informava: "Fazemos gravações nas Tassas". Típico. Enquanto se interrogava se podia ou não fumar um cigarro, acercou-se a funcionária, talvez dona. Cinquentona, gorda e de cabelo seboso. Se tivesse um avental, podia imaginá-la a cozinhar uma panelona de comida para uma alcateia de crianças sujas e barulhentas.
- Queria comprar umas três taças e dez medalhas para uma prova de atletismo organizada pela Associação a que presido. Se puder mostrar-me o que tem.
- Com certeza, senhor...- respondeu numa voz aguda
E toca a colocar taças à sua frente, em poucos minutos ergueu uma pequena muralha à sua frente. Interrompeu a sua mostra e escolheu logo três. Em seguida, acompanhou-a ao expositor das medalhas e apontou as que pretendia, para abreviar a coisa. Pediu-lhe que fizesse as contas e entregou-lhe o cartão da Associação.
- Já agora, por acaso tem por aqui uma casa-de-banho?
- Sim senhor, é naquela porta ao fundo. É simplezinha, mas asseada. Tenha a bondade!
Resmungou um obrigado, e entrou na divisão. Urinou na sanita velha, passeando os olhos em volta. Um lavatório, umas caixas vazias a um canto e, ao pé de si, uma janela no alto com alguns vasos de flores. Enquanto sacudia os últimos pingos do instrumento, reparou melhor num dos vasos. Sentiu o sangue a acelerar-lhe. Fechou a tampa da sanita e subiu para cima dela. Incrédulo, pegou num vaso com o feitio aproximado de uma garrafa, em azul e preto. «Meu Deus!» - exclamou. Tinha nas mãos uma preciosidade, um vaso da melhor porcelana chinesa, do forno Ruyao da dinastia Song, feita para uso próprio do imperador da China. Não tinha dúvidas, o vidrado, a porcelana fina de cor branca do interior, e as cores, as cores pareciam-lhe inéditas, nunca as tinha visto nestas porcelanas, nem em fotos de catálogo - o que só aumentava o valor da peça. Bloqueou por uns instantes, mas depois lembrou-se do que podia fazer. Saiu da dependência com o vaso na mão. A senhora abriu muito os olhos e observou:
- Desculpe dizer isto, mas o senhor tem a braguilha aberta..
Fechou-a de imediato, e seguiu o planeado.
- Eu é que peço desculpas. Vi lá dentro este vaso engraçado, a senhora tem-no consigo há muito tempo?
- Há uns anos, o meu marido trouxe-o de Macau. Esteve lá a cumprir serviço quando aquilo era nosso. Se o senhor gosta dele, posso vendê-lo...
- Não, não de todo, ou seja, não tenho grande interesse no vaso, não é nada de especial, mas esta planta é difícil de encontrar. É uma bergundia phisalis, é mesmo muito rara.
- Ofereço-a com o vaso, se o senhor quiser..
- Ah! Agradeço imenso, é muita bondade sua. A senhora será recompensada pela sua generosidade, vou indicar esta loja a todos os meus conhecidos e o seu negócio vai prosperar imenso. Vou só lá fora fazer um telefonema, e depois indico-lhe o que pretendo que se grave nas taças.
Saiu apressadamente da loja e seleccionou no telemóvel um nome dos contactos.
- Estou, é o Sequeira. Acabo de encontrar um tesouro, um pote de áureos, um galeão espanhol cheio de ouro no meu jardim.
«Não percebo...»
- Sem metáforas. Estou numa loja em Parvónia City, e a mulher tem no W.C. uma jarra Song do forno Ruyao, e não faz qualquer ideia do que aquilo seja. É o achado de uma vida, fazes ideia do que aquilo vale?
«E não é uma réplica? Há por aí tantas lojas com artigos chineses...»
- Não, não é uma imitação. Eu sou das poucas pessoas neste país que já teve na mão uma peça Song, distingo-as até pelo tacto. Isto é daquelas coisas que só em sonhos.
«E estás à espera de quê? Compra a jarra, ou leva-a daí embrulhada num casaco...»
- Não, nada de baixezas. A mulher da loja é ignorante e provinciana, o seu mundo resume-se a um círculo de dez quilómetros de diâmetro, para ela a selva do Amazonas é o pinhal de Leiria aqui em volta, e os pagodes das Índias são as barracas da Praia da Vieira. Vou levar a jarra, mas ela vai oferecer-ma numa bandeja. Não te esqueças de que sou um poço de estratagemas...
«O.K., tu é que sabes. Já que vais ficar rico, pagas-me um almoço no regresso»
- Está combinado. Me voy...
Reentrou na loja. Escreveu numa folha de papel os dizeres das taças e pagou a conta. Recolheu o recibo, o saco com as medalhas, e ficou a faltar o principal.
- Onde está a planta?
- Ah! Já me esquecia...
Abaixou-se e colocou a planta em cima do balcão, enfiada num vasinho de plástico preto.
- A jarra? - chiou em desespero.
- Esfaniquei-a para tirar a planta lá de dentro. Já estava mirrada, com as raízes tão presas. Agora é só chegar a casa e dar um pouco de adubo e de Sol à Bergúndia, para ela arrebitar.
Mas o outro já não a ouvia, tendo saído pela porta, possesso de raiva.

2 comentários:

  1. Uma pérola... chinesa!

    Abraços

    JV

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  2. José Lopes16:50:00

    Obrigado, João
    Um abraço

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