quotidiano

Sempre estive de pé-atrás com a funcionária da bomba de gasolina onde costumo atestar o carro. Muito cabeleira de canudinhos, unhas prateadas e dente de ouro à frente. Deve trazer um leitor de mp3 implantado na traqueia. Chego lá para pagar e menciono o número da bomba. Pronuncia uma única frase inédita, a da quantia a pagar. Depois deve premir o botão de play e desfia, com a pausa para a resposta: «Tem cartão Mach3? / Deseja aderir? / Vai desejar mais alguma coisa / Posso fechar então a sua conta? / É favor confirmar a quantia e inserir o código secreto! / Obrigada e votos de boa viagem!». Nunca lhe conheci nenhuma variação, nem nas palavras nem no tom de voz. Um dia parei de propósito na bomba com a minha bicicleta e apareci diante dela para comprar um pacote de pastilhas. Atirou-me com as suas perguntas gravadas, e eu não respondi a nenhuma, estendendo-lhe o pacote de pastilhas com um nota apensa. Abriu muito os olhos e desfaleceu no banco alto, desactivada por algum curto-circuito.

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