INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

politonia

Pegou num jornal na mesinha de mogno e instalou-se num sofá do átrio do hotel. Ao seu lado, um expositor envidraçado exibia miniaturas dentro de garrafas: uma caravela, a Torre de Londres, o Coliseu de Roma, o Padrão dos Descobrimentos. Enfastiou-se daqueles monumentos engarrafados e folheou o jornal à procura dalguma notícia de interesse. Acabou por derivar para a última página, com fait-divers e cartoons. Sorria com o Dilbert, quando ouviu sussurrar ao pé de si: "Quem admira a Torre de Londres, não sabe o que ela guardou...". Mirou-o. Um homem de bigode, gabardina e chapéu, parecia o Peter Sellers da "Pantera Cor-de-Rosa". Sorriu novamente, desta feita daquele cartoon de carne-e-osso. "Guardou prisioneiros" - respondeu por fim. O outro puxou de um banco e sentou-se diante de si, visivelmente agradado. "Pensava que já não aparecia. A contra-senha confere. Dobre o jornal e leve-o consigo. No seu quarto, procure na página catorze, ca-tor-ze, e encontrará um classificado vincado com as instruções para a sua próxima missão. Está codificada, mas a chave para ler o texto está no classificado de emprego no verso, aquele com um círculo em volta. Adeus e até nunca. Não saia daí nos próximos dez minutos e siga as instruções". Seguiu-as a partir daquele instante. Era algum equívoco, mas podia ser interessante. Contou dez minutos, e como custavam a passar. Dobrou o jornal, passou pela recepção (com o íntimo receio de que lhe pedissem a porcaria do jornal), e entrou no elevador. Teve a tentação de ir à página ca-tor-ze, mas controlou-se. Tinha de saber esperar, ou não seria digno de desempenhar uma missão perigosa. Com passos acelerados, alcançou a segurança do quarto e trancou a porta atrás de si. Catorze...classificados...a página catorze não tinha classificados, mas uma reportagem de página inteira sobre o Darfur. Sentiu-se desconcertado. Começou a caminhar sem nexo pelo quarto, pensativo. Será que tinha percebido bem as instruções? Ouviu baterem à porta e deu um salto. Deviam ter dado pelo engano e, agora, vinham atrás de si para o matar. Ou era isso ou era o inspector Clouseau para lhe perguntar qual era o almoço dos leões no Coliseu de Roma. Hesitou durante alguns longos segundos mas, por fim, abriu com as mãos trémulas uma nesga da porta. Era apenas um empregado do hotel, transportando um envelope numa bandeja prateada. "É para o senhor. Deixaram na recepção". Pegou no envelope, despachando o empregado com uma gorjeta. Abriu-o com algum receio. Trazia um porta-chaves com um boneco da Pantera Cor-de-Rosa, e um bilhete: "Levei-lhe a carteira, e a chave também, mas só por alguns segundos. Perdoe-me o transtorno, e o mau-gosto de usar uma gabardina neste quente Agosto, mas justifica-se. Quando não estou a fazer espionagem, ando a exibir a minha pantera!".

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...