Não gostava de letras

Era-lhe indiferente a leitura, os autores e os tramas. A BD ainda lia, tinha figuras, agora, obras só com texto, nem vê-las, era como ter de beber um frasco de xarope amargo em vez da useira colher cheia. Mas como a ocasião faz o ladrão, por assim dizer, viu-se ocioso e aborrecido diante de um livro a cheirar a novo: em pleno Agosto, num parque de merendas a duzentos metros do mar e com o pé engessado. Na hora em que todos saíram para ir beber o café à roulotte de serviço, ele preferiu ficar para trás, sentado à mesa de madeira com a perna estendida ao longo do banco. Pegou no livro que estava à sua beira, Batalha Incerta, de Steinbeck. Era da sua sobrinha, oferecido pelo namorado imberbe e clearasílico. Começou a ler, a medo, como se caminhasse num campo minado - uma frase, um parágrafo, depois outro, depois perdeu-se na contabilidade do que já lera, o ledor era já o que lia. Quando os outros voltaram, a sobrinha insistiu para que ele levasse o livro e ele aceitou. Em casa leu-o de enfiada, depois procurou outros livros do mesmo autor, e outros autores e sagas. Desde então tem tentado recuperar o tempo perdido, enriquecendo a sua vida com palavras e com os universos franqueados por elas. Se uns minutos antes de começar a ler aquele livro de Steinbeck, alguém lhe perguntasse o que significava para ele o prazer de ler, pensaria de imediato nas revistas pornográficas que na sua tenra idade contrabandeava para o segredo do W.C., ocultas sob a perna das calças e cingidas pelas meias puxadas até cima.

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